jesuítas (os) e os Açores

Cedo, chegou a fama dos jesuítas aos Açores.

Conforme nos informa Francisco Rodrigues, História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, em 1560, «Uma pessoa principal, capitão de uma ilha de Portugal, […] está de tal modo edificado do que vê praticar aos religiosos da Companhia, […] pede com muita insistência enviem lá padres, e mostra grande desejo de ajudar a fazer ali um colégio» (Rodrigues, 1931, vol. II, livro I: 55).

Sabe-se que essa pessoa principal era o capitão-do-donatário, Manuel Corte Real, que tinha nessa ambição o apoio do bispo, D. Frei Jorge de Santiago.

Segundo nos informam vários historiadores da Companhia, entre os quais o padre António Franco, não era intenção do provincial fundar casas permanentes nos Açores, mas apenas contemplar as ilhas com missões, destacando alguns padres que pregariam e confessariam, durante algum tempo, regressando depois à casa onde residiam no continente.

As disposições do geral da Companhia foram alteradas em 1569, quando D. Henrique, regente por D. Sebastião, cria no Funchal e em Angra dois colégios pagos pelo erário real.

Enquanto isto acontecia, em Ponta Delgada, um cidadão, cristão-novo, vindo do Porto, de nome João Lopes, tendo enriquecido no comércio, faz um testamento em que lega o rendimento de trinta moios de trigo aos jesuítas, com a condição de eles abrirem também colégio, na cidade.

Em 1570, mais exactamente a 1 de Junho, entram solenemente em Angra os jesuítas. Um morador, João Silva cede casas e terrenos para começar. Ainda que provisoriamente as aulas iniciam-se. O colégio será edificado mais tarde em terrenos mais sobranceiros à cidade, onde ainda hoje se encontra o edifício.

De Angra os jesuítas começam a irradiar através de «missões» pelas diferentes ilhas, destacando-se visitas frequentes a S. Miguel, onde permanecia a herança de João Lopes, administrada por um conjunto de personalidades, entre as quais o historiador Gaspar Frutuoso.

A sua acção foi tão apreciada em Angra, nestes primeiros tempos que em 1578, a câmara da cidade escreveu ao geral da Companhia manifestando a alegria pelo trabalho dos jesuítas, e em especial do padre Pêro Gomes. Eis o que dizem os seis vereadores: «de tal modo cultivaram estas ilhas que aqueles que antes as conheciam, agora as não conhecem» (citado em Rodrigues, 1931, livro I: 550).

Mais tarde será a vereação e muitos cidadãos de Ponta Delgada a afirmar ao mesmo superior geral, a sua devoção em relação ao trabalho dos jesuítas. Eis o que afirmam os cidadãos: «Certificamos a Nobreza, Povo e Eclesiástico desta cidade de Ponta Delgada e Ilha de S. Miguel que os Padres da Companhia de Jesus que nela residem são de muita utilidade ao bem de todos nós e nossos filhos, por meio dos contínuos exercícios da sua profissão com que com grande indústria e trabalho assistem ainda aos mais distantes da Ilha» (citado em Rodrigues, 1917: 76).

Com a união de Espanha e Portugal, em 1580, em Angra há complicações, os padres são expulsos, por os julgarem mancomunados com os invasores, mas breve regressam e retomam as actividades.

Edificam o colégio, pregam, confessam e leccionam. Nas outras ilhas continuam as missões de modo a percorrer o máximo possível de espaços.

Se na Terceira a entrada foi pacífica e consensual já no respeitante a Ponta Delgada, houve complicações e grandes.

João Lopes fizera a sua doação, intentando ser considerado fundador o que lhe traria prestígio. No entanto, essa doação não foi considerada suficiente para sustentação do colégio, e o título de fundador não foi confirmado.

Em 1588, os jesuítas tomam conta da herança e procuram dar começo ao colégio, que viria a ser denominado de Todos os Santos.

Porque as rendas eram poucas, os jesuítas vão, com a sua indústria, tentar suprir as deficiências.

Os litígios foram muitos e as sentenças nem sempre apaziguaram os ânimos.

Entre os jesuítas e a cidade estabeleceu-se uma relação que ora era de intensa amizade, ora de irritação impertinente.

Em 1591 tomam posse solene das casas onde funcionaria mais tarde o colégio.

Resolvidos vários problemas à volta de 1606 começam a leccionar casos de consciência e em 1620 ou 1621 começam as aulas de latim ou gramática, solucionada que foi, não se conhecem os termos, uma pendência com os gracianos, que se ofereceram para essa actividade gratuitamente, obtendo permissão de Filipe II (III de Espanha).

Outras ilhas como Faial, Pico e Santa Maria, iam recebendo «missões». No Faial um casal, sem filhos, Francisco d’Utra de Quadros e Isabel da Silveira fizeram uma doação, lavrando testamento em 1648, para a fundação de um colégio que viria a ter o nome de S. Francisco Xavier, onde, após algumas diligências, em 1652 começaram as aulas em Dezembro.

A partir dessa data a acção dos jesuítas vai-se repartir em dois campos: a leccionação e o espírito missionário, através da pregação da doutrina e administração de sacramentos, especialmente a penitência.

Na leccionação nos três colégios podemos afirmar que seriam idênticas as matérias leccionadas. Latim ou gramática, retórica e humanidades, aquilo que hoje, impropriamente poderíamos chamar de ensino secundário. Fala-se muito que em alguns colégios também os jesuítas se dedicavam às primeiras letras, embora as Constituições fossem muito claras a esses respeito, negando essa possibilidade, por falta de pessoal. Nas investigações a que procedemos, nunca encontramos qualquer mestre de primeiras letras.

A leccionação estava programada ao pormenor entre os jesuítas. Dois documentos a regulavam de modo muito preciso: as constituições, mais concretamente a parte IV, e o ratio studiorum, onde tudo estava previsto, o que leccionar, como leccionar, o aproveitamento e as provas a que haviam de se sujeitar os alunos para conseguirem o êxito almejado.

Quer as constituições, quer o ratio não eram nem podiam ser objecto de discussão. Eram para cumprir e quando tal não sucedesse aí estavam os visitadores, frequentes, para os fazer executar.

Assim não é difícil conhecer o que seria leccionado nestes três colégios.

Mas se não é difícil saber o que era leccionado, mais difícil, impossível mesmo conhecer a quem era ministrado esse ensino. Com efeito, nem nos Açores, nem em qualquer lugar se conhecem listas de alunos que certamente haveria, mas que seriam destruídas para que não caíssem em mãos alheias. A razão desta destruição assentaria no facto de poderem conter anotações de características pessoais que poderiam causar danos aos visados.

Aos seus próprios membros, em diversos catálogos, sobretudo trienais, vamos encontrar classificações psicológicas, como colérico, sanguíneo e outras que mostram até que ponto os jesuítas chegavam, para ter o domínio das situações e não nomearem para cargos importantes pessoas que não estivessem à altura de os desempenhar.

No entanto como o ensino era gratuito, para isso exigiam ou as tenças reais ou outras parecidas, ou eles próprios criavam as condições através de boa administração, é possível que os colégios, sendo embora frequentados pelas elites das povoações, também fossem aproveitados por outro tipo de alunos menos abonados. É neste campo curiosa uma observação que um padre exara numa das cartas que envia da Terceira para toda a ordem, e onde afirma que as aulas começam mais tarde, porque muitos alunos tinham que ajudar os pais nos trabalhos campestres.

Não sei se será essa a razão, mas os jesuítas, que faziam dos seus colégios viveiros de recrutamento para as suas fileiras, tiveram relativamente poucos açorianos entre os seus membros. Alguns dos mais conhecidos, como António Cordeiro, beato Inácio de Azevedo ou o padre Gonçalo de Arez, que esteve muito em Ponta Delgada, eram de famílias abastadas. O açoriano mais conhecido, Bento de Góis não professou nos Açores, mas sim no oriente onde desempenhara a missão de soldado.

A leccionação de casos de consciência é um factor notável de conhecer a intervenção social dos jesuítas. Havendo uma dificuldade muito grande na aplicação da justiça sobretudo nos pequenos lugares, leccionavam eles uma disciplina que embora, à luz dos ensinamentos da igreja, procurava resolver os casos do dia-a-dia, como heranças, juros de dinheiro emprestado, etc.

Gaspar Frutuoso, um dos administradores dos bens de João Lopes e testemunha das primeiras missões em S. Miguel salienta a intervenção social dos jesuítas. Diz Gaspar Frutuoso que após as pregações «houve grandes restituições de dinheiro, fama e outras coisas; fizeram-se muitas amizades tiraram-se ódios muito antigos, e entre pais e filhos amigos e parentes e outras muitas coisas do serviço do Senhor» (Frutuoso, 1963: 124).

Por sua vez numa das cartas enviadas da Terceira, nos começos da estadia dos jesuítas na cidade, o autor da mesma lembra as obras espirituais em que vão intervindo. Assim, as canções brejeiras públicas foram substituídas por canções religiosas, as pessoas dedicam-se às obras de misericórdia, etc.

A acção destaca-se mesmo em aspectos que pareceriam, e são-no na realidade, apenas terrenos. Só para exemplo sirva-nos o que aconteceu no lugar das Furnas, na ilha de S. Miguel. Esta ilha foi palco de grandes convulsões vulcânicas no ano de 1630, que embora se sentissem por toda a ilha tiveram repercussões mais fundas no lugar das Furnas. A erupção vulcânica além de assustar pastores e alguns eremitas que haviam escolhido o dito vale para expiar as suas faltas, cobriu a terra de espessa camada de cinza criando um deserto.

Numa das missões pela ilha, e passando ocasionalmente pelo local, notaram os jesuítas que recomeçava a vida vegetal.

Solicitaram ao governador que dispusesse em seu favor de uma quantidade de terra. Assim foi feito. Organizaram a vida dos caseiros de tal modo que colhiam mel, trigo e criavam aves domésticas. Além disso eram aqueles caseiros obrigados a plantar árvores. Curioso que após a expulsão os contratos celebrados entre os caseiros e os jesuítas continuaram a vigorar, com idêntico clausulado, com os novos administradores das terras.

Cultivaram os jesuítas como seria de esperar, a oratória e dela nos resta um livro de sermões do padre Manuel Pires. São 21 e todos eles, excepto o último, pregados em diversas igrejas de Ponta Delgada, pormenor que serve para nos mostrar a difusão que os jesuítas faziam da doutrina.

Também se dedicavam ao teatro e por acaso também nos resta uma peça, intitulada Dissidium inter Insulas, onde se narra uma disputa entre as várias ilhas, da qual S. Miguel sai vencedora, mas porque venera a Senhora, que lhe concede o triunfo.

São ainda atribuídas aos jesuítas determinadas devoções como a das 40 horas e a recitação do terço.

Os jesuítas foram expulsos dos Açores em 1760. O barco, que os transportaria, aportou primeiro ao Faial, onde recolheu os jesuítas que aí se encontravam, rumando depois à Terceira e passando por último em S. Miguel. Talvez as notícias por qualquer meio tenham chegado a esta ilha antes do barco, pois que os jesuítas sedeados em S. Miguel não mostram qualquer espanto. Interessante é que, quando já estavam na caravela, um dos habitantes de Ponta Delgada os avisou que poderiam estar descansados, pois ele satisfaria todas as dívidas que tivessem.

Ainda como nota, acrescente-se que em quase todos os colégios havia «congregações» que poderíamos definir como «ordens terceiras» dos jesuítas. Num relatório, elaborado pelo administrador dos bens dos jesuítas, vários anos depois da expulsão, é feito um balanço destas congregações em Ponta Delgada, e muitos são ainda os inscritos.

Quando foram readmitidos depois da «restauração» da ordem, encontramos algumas missões nas ilhas. Há sobretudo uma levada a efeito por um grupo onde avultava a figura do padre Rademaker cuja presença dividiu profundamente a sociedade açoriana, especialmente a micaelense.

Quem se der ao trabalho de ler jornais, como A Persuasão, pode encontrar aí matéria bastante para formar uma ideia dessa divisão e da campanha que foi feita contra a pregação dos jesuítas.

A este propósito não deixo de frisar que a identificação dos jesuítas com a intromissão onde se não deve, leva a confusões curiosas.

Os Padres do Espírito Santo que aqui, por doação ergueram um colégio, onde aprenderam figuras ilustres de S. Miguel, eram chamados de «jesuítas do Espírito Santo». José M. Teixeira Dias

Bibl. Dias, J. M. T. (1997), Todos os Santos, Uma Casa de Assistência Jesuíta em São Miguel. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Frutuoso, G. (1963), Livro Sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Rodrigues, F. (1931-1950), História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal. Porto, Livraria Apostolado da Imprensa, 7 vols.. Id. (1917), A Formação intelectual dos Jesuítas. Porto, Livraria Magalhães Moniz Editora. Jornal A Persuasão, vários números.