jardins
Ilha de S. Miguel
Na história dos jardins micaelenses desenham-se duas realidades, histórica e conceptualmente, muito distintas. A uma longa tradição moderna, que remonta ao século XV e se prolonga até inícios de Oitocentos, informada por uma matriz cultural portuguesa, filiada no antigo jardim romano e árabe, e portadora de diversas outras influências italianas e francesas, vem sobrepor-se, a partir de meados do século XIX, uma outra concepção de jardim muito marcada pelos modelos paisagistas ingleses e especialmente atenta aos novos fenómenos do coleccionismo botânico. São os jardins de «estudo e de recreio» que celebrizaram a ilha de S. Miguel no que respeita à horticultura ornamental.
Se recuarmos a Gaspar Frutuoso (século XVI) encontramos inúmeras referências aos «frescos jardins» e «pomares de diversas pomagens» que povoavam o interior urbano das principais vilas e da cidade de Ponta Delgada. Estes jardins privados, de «alimento e terapia», únicos responsáveis pelo verde urbano, são espaços exíguos, fechados entre altos muros que abrigam no seu interior os canteiros altos com as várias parcelas hortofrutícolas, em volta de duas ruas cruzadas, assinalando o ponto de intercepção com a presença de uma fonte ou uma peça escultórica. De todos, os jardins dos conventos e as respectivas Cercas distinguiam-se pela dimensão e pela riqueza do material vegetal e elementos decorativos. À medida que avançamos para o século XVIII, os jardins privados das grandes casas solarengas convertem-se em «jardins de aparato», condição que lhes advém da sua exclusiva função recreativa (e não produtiva) com o consequente enriquecimento das peças decorativas e ornamentais e da posição privilegiada que ocupam, frente à fachada nobre da habitação. Um caso paradigmático é a Quinta das Necessidades, ao Livramento, com a sua «sala de verdura» comunicando directamente com o grande balcão sobre a fachada nobre.
A par do jardim, a Quinta de Recreio compõe um dos capítulos centrais da arte paisagista e dos jardins em Portugal. Ao contrário do jardim urbano, porém, a quinta situa-se na sua periferia mais próxima. Votada à policultura e assente no princípio da complementaridade de funções e na auto-suficiência como ideal, a quinta tem tanto atribuições de carácter recreativo e contemplativo como produtivo. Está por isso associada a uma propriedade rica, cujo rendimento aumenta em função da oportunidade de novos mercados, o que no caso açoriano se relaciona com os ciclos económicos: do pastel ao vinho e da laranja ao ananás. Na ilha de S. Miguel os exemplos multiplicaram-se ao longo do período moderno. A quinta quinhentista de Jorge Nunes Botelho, no Largo do Poço de S. Roque (desaparecida), abastecia a cidade de frutas e exportava pastel; já a quinta de Santa Catarina nos arredores de Ponta Delgada (Ramalho), reconstruída em meados do século XVIII pelo capitão Manuel Rebelo e D. Úrsula Isabel de Castro, produzia trigo, milho e laranjas, para além das «novidades» que alimentavam a casa e das flores do jardim destinadas à ornamentação da capela.
Foi um dos últimos destes ciclos, a produção e comercialização intensiva de laranjas, que motivou profundas alterações na concepção e ordenamento das quintas. Pontuadas de pavilhões e construções revivalistas enquanto manifestações românticas que procuravam acentuar os sentimentos (surpresa, melancolia, exaltação, etc.) , a grande novidade evidenciada nas quintas do primeiro quartel de Oitocentos é, sem dúvida, a introdução das plantas exóticas. O exemplo maior desta «quinta de regalo» onde os jardins de aparato têm uma expressão inusitada surge com a Quinta do Botelho, ao Livramento (em ruína), propriedade do 1º barão de Fonte Bela, Jacinto Inácio Rodrigues da Silveira.(1785-1868).
O conhecimento e o estudo botânicos aliam-se a um método de jardinagem que procura acentuar a dimensão formal e estética dos vegetais. A esse método protagonizado pelos novos jardineiros-projectistas chama-se jardinesco. Consiste, essencialmente, na distribuição e condução das plantas de tal forma que estas possam crescer em perfeição, porventura superior à que ocorre nos seus locais de origem, aparecendo isoladas nos relvados ou em grupos (clumps) criteriosamente escolhidos, de modo a tornarem-se objectos de apreciação estética. É este o quadro válido para os grandes jardins e parques criados na ilha de S. Miguel durante a segunda metade do século XIX. São os «jardins de recreio e de estudo» que assentam nos princípios da jardinagem, da botânica e do coleccionismo.
Entre os que mais se destacaram nesta cruzada pelos jardins e pelas plantas colocam-se à cabeça José do Canto (1820-1898), José Jácome Correa (1816-1886) e António Borges da Câmara Medeiros (1812-1879). A sua acção desenvolve-se em várias frentes: a aclimatação de espécies exóticas, sobretudo da flora tropical e subtropical com vista à sua multiplicação; as experiências de hibridações criando novos cultivares para enriquecimento das colecções; o estabelecimento de um bem montado circuito de trocas à escala planetária.
O jardim de José do Canto, a Santana (Ponta Delgada) foi construído entre 1845 e 1860 segundo o desenho do arquitecto inglês David Mocatta (1808-1882) e a orientação competente de vários jardineiros-em-chefe: George Brown (1813-1881), Peter Wallace (1820-?), Alexander Reith (c. 1800-1874), entre outros. Representa o ponto alto do conhecimento esclarecido e da competência botânica que levaram a inúmeras experiências de aclimatação e à reunião de uma colecção de mais de 3.000 espécies diferentes, as quais eram publicadas em catálogos para troca com outras instituições congéneres (Jardim das Plantas de Paris, Reais Jardins Botânicos de Kew, Jardins Botânicos de Sidney, Rio de Janeiro ou S. Petersburgo). O seu vizinho, Jardim Jácome Corrêa (actualmente conhecido por Jardim de Santana), inicia-se um pouco mais tarde, e recebe igualmente os contributos projectistas e de orientação técnica ingleses, nomeadamente de Perter Wallace, seu provável autor e de François Joseph Dewander Gabriel (1835-1897), um jardineiro belga que se estabeleceu nos Açores, primeiro em S. Miguel e depois na Terceira. O jardim de Santana aplica os mais recentes recursos da arte paisagista de meados de Oitocentos, no sentido em que ultrapassa e relativiza as normas do pitoresco e o formalismo natural, típicos da escola paisagista inglesa. Na sua linguagem inovadora são criados aqui parterres de cores intensas (carpet-garden) em substituição dos grandes relvados, as plantações individualizam-se de modo a favorecer a sua dimensão visual e estética e o coleccionismo botânico impõe-se como uma verdadeira paixão. Um pouco mais afastado, mas ainda na periferia urbana de Ponta Delgada, situa-se o jardim António Borges. Construído entre 1858 e 1861 é o único que tem por autor o seu proprietário, sendo também o que melhor se adequa aos princípios do pitoresco. A implantação fez-se sem grandes movimentos de terras, adaptando-se à topografia do terreno e potenciando os acidentes naturais no sentido de uma modelação de grande efeito cénico. Entre os grandes jardins privados criados durante a centúria de Oitocentos destacam-se ainda o Jardim Albuquerque, nas Feteiras; jardim do Visconde da Praia, em Ponta Delgada (desaparecido); o Jardim Porto Formoso, Ponta Delgada (actual Universidade dos Açores); Parque das Murtas (actual Beatriz do Canto), nas Furnas; ou ainda, nas Furnas, o jardim do Tanque (actual Parque Terra Nostra); a Mata-Jardim José do Canto; ou o Piquinho António Borges.
O gosto das plantas generaliza-se, torna-se moda. Mas nem todos possuíam os meios de fortuna pessoal que permitissem a encomenda de plantas nos prestigiados viveiristas das capitais europeias ou o estabelecimento dos pesados contratos com jardineiros ingleses e franceses, pelo que a solução passou pelo desenvolvimento de um pujante negócio de plantas em Ponta Delgada, que neste capítulo se coloca ao lado de cidades como Lisboa ou Porto. O «jardim experimental» de George Brown, na rua de Santa Catarina, está em funcionamento pelo menos de 1854 a 1868 e apresenta regularmente catálogos de plantas para venda; o mesmo faz o inglês George Nesbitt (1799-1864) das inúmeras variedades que cultiva nos jardins e estufa do Pico do Nesbitt (hoje Pico do Salomão). Mais importante, sem dúvida, foi o Jardim Experimental da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, uma instituição que seria responsável não só pela introdução de milhares de plantas ornamentais como de tantas outras silvícolas e industriais.
A herança deixada pelos jardins micaelenses de Oitocentos é incontornável, quer pelas peças de arte paisagista que nos legou quer pela profunda marca na paisagem açoriana, através da renovação absoluta do catálogo das plantas em cultivo, por vezes com consequências funestas para o equilíbrio ambiental. Isabel Soares de Albergaria
Ilha do Faial
No Faial desde muito cedo, os arranjos decorativos com espécies botânicas ornamentais terão sido comuns, pelo menos em pequenos canteiros, junto das casas de habitação. Esse embelezamento ter-se-á alargado às bermas das estradas e aos pomares, pelo menos no século XVIII, quando a produção de laranja começou a ter em vista a exportação, particularmente com a substituição das paredes de abrigo por sebes vivas (cf. Bullar, 2001 [1839]: 156-157; Cook, 1777; Hebbe, 1982 [1802]: 525).
Os primeiros jardins de regalo nesta ilha foram mandados construir, na segunda metade do século XVIII, por Manuel Inácio de Sousa (1739-1802), no lugar do Pilar, sobranceiro à então vila da Horta (cf. Macedo, 1959: 95) e por Mateus José de Sequeira (?), cônsul de Espanha no Faial, a partir de 1773 (cf. Macedo, 1871, 1: 261), junto ao mar, no lugar dos Arrendamentos, com traçado em forma de roda catarina, ambos ao gosto da época, decorados com arbustos, lago, repuxo, chafariz, conchas, loiças e azulejos (Bullar, 2001: 158-159; Macedo, 1959: 95). Depois de 1814, surgiram jardins junto das propriedades Dabney, villa Bagatelle, na parte alta da Horta, associado a uma quinta e a um campo de experimentação de culturas, «The Ceders House» e «Fredónia», estas na então rua do Beliago, actual rua Cônsul Dabney (Arruda, 2004). A estes vieram juntar-se, desde finais do século XIX, outros relacionados com os bairros residenciais das companhias de cabo submarino que se instalaram na Horta. Neles ou no que ainda sobra deles, encontram-se exemplares de espécies botânicas, exóticas, algumas classificadas nos termos do Decreto Legislativo Regional n.º 28/84/A, de 1 de Setembro (Phytolacca dioica, Dracaena draco e Araucaria heterophyla).
O interesse pelos jardins particulares continuou, quer junto às habitações na Horta, frequentemente de dimensões modestas, onde os respectivos logradouros permitiam combinar espécies botânicas ornamentais com primores hortícolas, quer em zonas de veraneio, exteriores à cidade, de dimensões maiores, como na Quinta de S. Lourenço (século XIX), no palacete Terra Pinheiro (fim do século XIX) e na villa Maria (primeira metade do século XX), ambos no Capelo, e nas proximidades do Largo Jaime Melo, onde ainda podem ser observados grandes jardins junto de pequenas «casas de montanha» (primeira metade do século XX), e, mais recentemente, na localidade Varadouro.
Na cidade da Horta, os espaços públicos ajardinados estão, geralmente, associados a «Largos» e Praças que, por sua vez são elementos importantes do tecido urbano. Construídos em geral, até ao início do século XX, apresentam elementos «românticos», característicos daquela época, incluindo espécies botânicas exóticas comuns nos Açores, a partir de meados do século XIX. Geralmente iniciativa da Câmara Municipal, o seu arranjo e manutenção foi razão para a contratação de um jardineiro pelo município, como se lê no jornal O Telégrafo de 4 de Maio de 1910.
Eles são:
Jardim Florêncio Terra Panorâmico sobre a cidade, o mar e a ilha do Pico, inicialmente chamado Passeio Público, depois Jardim Público, até 1958 (Lobão, 2001), quando passou a homenagear o contista Florêncio Terra, foi inaugurado em 1857 no lugar onde, tempos antes, existia a cerca do mosteiro de S. João. Do conjunto, mosteiro e igreja Matriz, que lhe ficava em frente, resta apenas a denominada Torre do Relógio, construída anexa a esta igreja, no século XVIII.
De forma quadrangular e topografia plana, tem cerca de 12.000 m2 de área. Do conjunto de percursos salienta-se um eixo central que liga as duas entradas, uma virada a nascente, a que se acede do exterior, por uma escada de pedra, e outra virada a poente, onde uma outra escada, também de pedra, vence o desnível associado.
Ao centro daquele eixo, um lago, pequeno, delimita uma plataforma de planta hexagonal, revestida a argamassa de cimento, que serve de apoio a um coreto, provavelmente do último quartel do século XIX, também de planta hexagonal, em madeira, pintado de branco e de vermelho, e a quatro pedestais, três dos quais suportaram estátuas representando as estações do ano. Num dos pedestais está a inscrição «1883». Entre o coreto e o acesso poente existe um caramanchão sobre pilares de pedra. O restante mobiliário do jardim é constituído por candeeiros de pé e bancos de ferro fundido e travejamento de madeira, organizados pelo conjunto de percursos.
Neste jardim com espécies arbóreas de interesse, destacam-se cinco dragoeiros (Dracaena draco), de idade avançada que, dada a proximidade com que foram plantados, têm actualmente, as copas unidas, e uma araucária (Araucaria heterophyla), todos classificados nos termos do Decreto Legislativo Regional n.º 28/84/A, de 1 de Setembro.
José Joaquim de Azevedo, professor da cadeira de «Introdução à História Natural dos Três Reinos», aberta em 1858, no Liceu da Horta, leccionou aqui as suas aulas de Botânica.
Praça do Infante (Largo do Infante) Praça com jardim, enquadrada no centro da cidade. Em tempos recuados este local era um portinho de fundo arenoso, bem interior na enseada da Horta, denominado do Beliago, que desapareceu em 1675, quando o capitão-mor Jorge Goulart Pimentel mandou prolongar a muralha da cidade desde as Pedras dos Frades até ao forte de Santa Cruz e aterrar o local. Segundo Lima (1943: 148), formou-se «então o largo tal qual, em tamanho, agora se vê», de planta aproximadamente rectangular e topografia geralmente plana.
Ao longo do tempo teve denominações diferentes. Em 1863, ao largo novo junto das Pedras dos Frades pretendeu a Câmara dar o nome de Largo do Conselheiro Santa Rita, mas como este não aceitou, foi chamado de Neptuno, em 1867 (cf. Macedo, 1871, 2: 308; Lima, 1943: 296). Em 1894, no âmbito do V Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique, a Câmara decidiu alterar-lhe o nome para Largo do Infante, designação que ainda é popularmente usada. Em 1960, a propósito das comemorações centenárias da fundação da nacionalidade e da restauração da independência, a sua designação foi alterada para Praça do Infante.
A sua organização também foi sendo alterada ao longo do tempo. Destruídos a muralha da cidade e o largo, por um temporal, em 20 de Janeiro de 1898, foram a primeira reconstruída e o segundo restaurado e arborizado devido aos bons ofícios do deputado Miguel António da Silveira (cf. Lima, 1943: 148). Após o terramoto de 1926, o largo serviu de estaleiro às obras de reconstrução de várias casas nas proximidades, e das obras de reconstrução da muralha de defesa, em 1935 (O Telégrafo, 1935), o largo foi redesenhado e sujeito a alguns melhoramentos. Era delimitado por um passeio, acabado com argamassa de cimento, que desde a fortaleza, seguia junto à então muralha da cidade e continuava junto às ruas limítrofes. Dos percursos interiores, dois corriam longitudinalmente e quatro transversalmente. Os espaços entre esses percursos, recortados por platibanda de cor branca, eram geralmente relvados e incluíam canteiros floridos. Quatro palmeiras, Phoenix canariensis, plantadas após as reparações dos estragos provocados pelo temporal de 1898, algumas tamargueiras (Tamarix africana), conhecidas nas ilhas por salgueiros, junto ao mar, dois plátanos (Platanus hybrida), junto à fortaleza, cinco metrosíderos (Metrosideros excelsa), junto à via de circulação automóvel, e quatro plumas (Cortaderia sp.), no espaço central, dominavam a vegetação.
Ainda neste espaço central, destacava-se uma estátua do Infante D. Henrique, de corpo inteiro, em posição de sentado, colocada sobre pedestal de betão, encoberto por blocos de pedra basáltica não trabalhados, de dimensões consideráveis, que o Município de Lisboa cedeu ao da Horta e que foi inaugurada a 1 de Dezembro de 1940 (O Telégrafo, 1940). Candeeiros de pé em betão, pintado de cor que variou ao longo do tempo, e bancos de ferro fundido e travejamento de madeira, pintada de cor vermelha, completavam o mobiliário.
Em 16 de Julho de 1960, após obras de alteração, foi inaugurado, no topo sul, um busto do Infante, da autoria de Numidíco Bessone, e divisa da sua casa «Talent de bien faire», sobre muro de pedra basáltica, trabalhada, que lhe serve de fundo, ambos enquadrados por «ladrilho», designação local de passeio, seguindo a tradição da «calçada portuguesa», formado de basalto negro e calcário branco, representando «mar largo». O passeio, junto à antiga muralha da cidade, foi substituído por «ladrilho» desenhando faixas paralelas, em calcário branco, sobre fundo escuro de pedra basáltica.
Até 2005, a praça restante estava ocupada por um passeio, pavimentado a argamassa de cimento, seguindo o eixo longitudinal ao centro, e por dois rectângulos relvados de comprimentos paralelos àquele eixo da Praça, bordados por platibanda em basalto. Os antigos candeeiros de pé em betão continuavam a iluminar. Os bancos de ferro fundido e travejamento de madeira completavam o mobiliário. Obras realizadas naquele ano, substituíram todo o pavimento por calçada portuguesa e os bancos tradicionais por bancos incaracterísticos.
As palmeiras, agora classificados nos termos do Decreto Legislativo Regional n.º 28/84/A, de 1 de Setembro, as tamargueiras, os plátanos e os metrosíderos continuam a dominar entre as espécies botânicas.
Esta Praça, dada a sua posição central na cidade, junto ao mar, pelo menos até aos anos 1980, foi muito procurada pelos hortense durante o Verão. A construção da Marina da Horta, naqueles anos, afastou-a do mar e dos hábitos de quem a frequentava.
Largo do Duque de Ávila e Bolama Antigo Largo do Colégio, designação que manteve até 1871 para dar lugar à de Marquês de Ávila e depois àquela (Lima, 1943: 293), ao longo do tempo, sofreu alterações nos seus traçado e limites, que incluiu a construção de uma pequena área ajardinada do lado poente, junto à parede de suporte do adro da igreja Matriz.
Segundo Lima (1943: 146-147), em 1848, o governador António José Vieira Santa Rita ordenou a execução de alguns trabalhos de aformoseamento, na sequência de outros que havia determinado anteriormente, tendo em vista a limpeza do local, mas só no decorrer de 1873, foi construído um muro para suporte de uma área ajardinada e de um gradeamento feito com ferro oferecido pela Direcção de Obras do Porto Artificial, colocado 6 anos depois.
A área ajardinada, de topografia plana e de planta inicialmente quase triangular, na década de 1950 teve a sua planta tornada irregular e o muro de suporte foi substituído por um talude relvado, para que no local fossem instalados dois parques, um de estacionamento de automóveis e outro de abastecimento de combustível, entretanto já desaparecido e também transformado em espaço de estacionamento de viaturas. Duas escadas em basalto trabalhado, vencem o desnível entre o jardim, superior, e os parques, inferiores.
Os percursos principais, actualmente pavimentados a «calçada portuguesa», acompanham, o mais interior, a parede de suporte do adro da igreja e, o mais exterior, o talude relvado. Outros percursos secundários, mais curtos, ligam aqueles entre si.
Inicialmente, o ajardinado dos espaços interiores aos percursos foi feito, com plantas oferecidas por Manuel Maria da Terra Brum. Mais tarde foram introduzidas espécies arbóreas, das quais, no ano 1903, já sobressaiam pelo seu porte, uma araucária (Araucaria heterophyla), no centro, derrubada por um temporal em Fevereiro de 1986, e alguns carvalhos (Quercus rubor) junto ao percurso mais interior do jardim. Em 1936, foram plantadas camélias e metrosíderos (O Telégrafo, 1936), todos entretanto desaparecidos.
Praça (Jardim) da República Primeiro, praça pública, com o nome «Largo da Glória», depois «Praça de D. Carlos I», em 1903, o seu nome mudou para «Praça da República», a designação actual, em 19 de Outubro de 1910. Foi edificada no espaço onde estava implantado o antigo Convento da Glória, do século XVII, demolido no final do século XIX.
Actualmente é uma praça urbana com um jardim romântico. De planta trapezoidal e topografia geralmente plana, é delimitada por um «ladrilho», formado de basalto negro e calcário branco, representando «anéis abertos e bolas». Dos percursos interiores, pavimentados a asfalto, em 2005 substituído por calçada portuguesa, um acompanha o passeio empedrado e os outros, partindo, em geral, dos vértices e do meio dos lados, convergem para o centro. No quarto sudoeste existe um pequeno lago, de formas sinuosas, delimitado por fragmentos de lava, com uma pequena ponte.
Os espaços entre os percursos interiores, apresentam vegetação ornamental diversa. Pouco arborizada antes do terramoto de 1926, nos anos 1950 já sobressaíam, pelo seu porte, as araucárias (Araucaria heterophyla), classificadas nos termos do Decreto Legislativo Regional n.º 28/84/A, de 1 de Setembro, os ulmeiros ou negrilhos (Ulmus sp.), as amoreiras (Maclura pomífera) e os carvalhos (Quercus rubor) circundando o espaço, abatidos na década de 1980 e feitos substituir, em parte, por gincós (Ginkgo biloba).
No centro está implantado um coreto característico, de planta octogonal, com base em alvenaria onde assentam os pilares que sustentam a cobertura, aqueles e esta de madeira. As guardas e alguns ornamentos são em ferro fundido. Está pintado de branco e de vermelho. O restante mobiliário do jardim era constituído por candeeiros de pé em ferro e lanterna de quatro faces e bancos de ferro fundido e travejamento de madeira, que em 2005 foram substituídos por bancos incaracterísticos.
Algures num espaço relvado, inscrição a cobre sobre porção de rocha basáltica, de forma arredondada pela natureza, alude à introdução da imprensa na Horta por João José da Graça.
Jardim do Comendador Eduardo Bulcão Após o sismo de 1926, quando Eduardo de Laemmert Bulcão mandou construir o edifício-habitação junto da igreja de S. Francisco, o espaço confinante a sul estava expectante e escondia o templo de S. Francisco. Bulcão mandou limpá-lo, construir um muro de suporte ao adro da igreja e, no espaço tornado livre, um jardim térreo, obra no valor de 180 contos (O Telégrafo, 1946), a que a Câmara Municipal da Horta deu o seu nome em 23 de Janeiro de 1939.
De topografia plana e de planta quadrangular, o desnível em relação à via pública é resolvido por um muro que suporta uma guarda, em betão, de pilares distando entre si tanto quanto a sua altura de modo a formarem quadrados, cruzados segundo as diagonais. O acesso faz-se por um portão de ferro, realçado por duas pilastras, cada encimada por capitel, onde assenta vaso decorativo para jardim em forma de taça. O desnível é vencido por três degraus, à direita e à esquerda do patamar da entrada. Em frente desta e ao fundo do patamar, o muro é encimado por guarda com desenho da exterior e terminando como as pilastras do portão da entrada.
Um percurso pavimentado por bagacina, de cor vermelha, segue, de perto, a periferia do jardim, mas deixando espaço para canteiro estreito. Na área interior ao percurso, relvada, estão desenhados alguns canteiros.
Jardim Botânico do Faial Criado em 1986, está instalado na Quinta de S. Lourenço, a cerca de 2 km do mar, em linha recta, à altitude média de 105 m, na transição entre a vegetação costeira e a vegetação de altitude média, e tem aproximadamente 2.000 m2 de área. Tem por objectivos preservar espécies ameaçadas, organizar colecções de espécies botânicas endémicas e de associações típicas de vegetação natural macaronésica e manter colecções didácticas, atraentes para os visitantes, e úteis para fins científicos.
Está organizado por áreas. Naquela dedicada à flora natural e endémica dos Açores, as espécies botânicas estão distribuídas de acordo com a altitude a que se encontram na natureza. Assim, na zona destinada às espécies costeiras estão endemismos açóricos como o bracel-da-rocha (Festuca petraca), a erva-leiteira (Euphorbia azorica) e a vidália (Azorina vidallii), endemismos macaronésicos e outras espécies de distribuição mais ampla; na zona de altitude média, estão, entre outros, os endemismos açóricos Carex hochstetteriana, Scabiosa nitens e o pau-branco (Piconia azorica), e na zona da vegetação de nevoeiro, estão espécies como o cedro (Juniperus brevifolia), o feno (Deschampsia foliosa) e o bracel-do-mato Festuca jubata. As plantas que necessitam de protecção contra o vento e preferem locais ensombrados ocupam uma ravina artificial. Aquelas próprias das margens estão instaladas junto de dois lagos artificiais. Noutra área, estão coleccionadas plantas medicinais e aromáticas. Noutra ainda, estão algumas das plantas ornamentais exóticas, usadas nos jardins dos Açores. Uma outra área está vocacionada para a multiplicação de espécies endémicas.
O jardim dispõe de um centro para acolhimento de visitantes.
No eixo central da ainda denominada Alameda Barão de Roches, no lugar da arborização feita em 1870 que lhe deu o nome, existe um pequeno espaço ajardinado, desde 1936 (O Telégrafo, 1936). No espaço entre a Avenida 25 de Abril e a rua Conselheiro Miguel da Silveira (antiga rua da areia ou rua do mar) existiu um jardim de que sobram apenas alguns exemplares arbóreos. Luís M. Arruda
Ilha de S. Jorge
Em S. Jorge, na vila das Velas, em frente aos Paços do Concelho, o espaço onde hoje está o Jardim Municipal, chamado Jardim da República depois de Outubro de 1910, de planta ligeiramente rectangular (mede cerca de 53 m x 45 m), segundo Avelar (1902), era terreno de casas e de quintas cedido à Câmara por João Soares dAlbergaria, em 1836. Ao nascente da quinta e casas, conhecidas pelas casas do Maciel, ficava a rua da Pella, ao poente a antiga praça com pelourinho ao centro, ao norte a rua da Misericórdia e ao sul a rua Direita.
Ainda segundo Avelar (1902), em 1867, a Câmara deu início à arborização da praça, cuja plantação completou o comendador Manuel Vitorino Amarante, presidente da Câmara, em 1870. Na presidência do Dr. José Pereira da Cunha da Silveira e Sousa, as árvores foram arrancadas, incluindo uma araucária que havia no centro, colocando em seu lugar um quiosque.
Em 1898, em posição central, foi construído um lago, pequeno, que delimita uma plataforma de planta hexagonal, pintada de branco, que serve de apoio a um coreto, característico, também de planta hexagonal mas de área menor, com pilares e cobertura em madeira, pintado de branco e de vermelho. As guardas estão pintadas de branco e de vermelho. Os canteiros, delimitados por porções de lava basáltica, foram construídos em 1902. Dos percursos interiores, um acompanha a periferia, outro o coreto e os restantes partindo, em geral, dos vértices e do meio dos lados, convergem para o centro. Em 1904-1905, o espaço foi vedado com um muro que suporta um gradeamento em ferro. O acesso faz-se por quatro portões em ferro, localizados nos vértices do rectângulo, cada um realçado por duas pilastras em pedra basáltica, terminando por capitel onde assenta vaso decorativo para jardim em forma de taça. Candeeiros de pé, colocados desde 1899, e bancos de ferro fundido e travejamento de madeira, completam o mobiliário.
Na vila da Calheta, um pequeno jardim, no centro da vila, homenageia o maestro Francisco Lacerda. Tem muros empedrados, uma grande variedade de plantas e de flores (a maior parte introduzidas), a diferentes níveis ligados por escadas. A escultura do maestro Lacerda no jardim é de Didier Couto. Luís M. Arruda
Ilha Terceira [a incluir brevemente]
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