italianos (os) e os Açores
Na Península Itálica, mais do que propriamente na «Itália», situa-se a origem de diversos povoadores do arquipélago, que desde Quatrocentos até aos nossos dias trocaram a respectiva pátria pelos Açores.
Convém recordar que a unificação da Península num estado unitário, se deu somente na segunda metade do século XIX; na Idade Moderna e até então, não actuaram em terras lusas quaisquer italianos. Tal adjectivação simplista, para agrupar cidadãos lígures, toscanos, pontifícios, venezianos, lombardos, piemonteses, corsos, dálmatas, do reino aragonês das Duas Sicílias ou de outras entidades políticas menores, provinha mormente do exterior, a assinalar afinidades linguísticas inter-regionais, sendo contudo definição essencialmente contemporânea. Tratava-se, na realidade, de membros de nações que estavam frequentemente em conflito, por vezes violento, por isto é oportuno recorrer no texto a uma Itália ou italianos em itálico, para respeitar a geografia política da época até cerca de 1860. Antes dessa data, sem esquecer o contributo italiano para a emersão física das ilhas dos brumosos conhecimentos medievais [ver genoveses (Os) e os Açores], medir a presença italiana nos Açores significa, essencialmente, observar o processo de valorização económica, ou «Idade do Ouro» das novas praças insulares atlânticas. Os arquipélagos dos Açores, Madeira e Canárias foram felizmente definidos de «Mediterrâneo Atlântico»: quer pela semelhança das trocas insulares com os tráfegos mediterrânicos, quer pelo indispensável relacionamento de fundo das ilhas com a bacia mediterrânea, berço natural do comércio intercontinental europeu. Entre os naturais dos inúmeros estados da Península Itálica, foram os cidadãos da República de Génova a ocupar lugar destacado em Portugal e nas ilhas, seguidos pelos florentinos. Navegadores e soldados, mercadores e arquitectos, agricultores e artesãos, nobres e populares italianos que se dirigiam para Ocidente, foram acima de tudo aventureiros, homens solteiros perseguindo sonhos pessoais, que não faziam parte de nenhuma estratégia nacional dos respectivos estados de origem. No limite, pode falar-se de estratégias familiares, como as praticadas pelos alberghi genoveses, apesar de ser sempre o «individuo» a preceder a «família». Se alianças matrimoniais e relações de parentesco eram importantes, nas atitudes e na procura de vantagens estritamente individuais residiam, na maioria dos casos, os motivos do afastamento da terra de origem. O «projecto» do Portugal Moderno, era sem dúvida entre os mais fascinantes para um aventureiro e, ao mesmo tempo, suficientemente bem estruturado para seduzir homens de negócio que vieram fomentar o comércio naval a longa distância. Ao contrário do que se pôde encontrar sobre os poderosos genoveses Lucas de Cacena e António Espínola [ver genoveses (Os) e os Açores], que deixaram rastos deveras consistentes nos Açores, as pegadas de outros transalpinos no arquipélago são menos vincadas, ou mais disfarçadas, embora uma pesquisa monográfica de quem quisesse desenvolver o tema «Italianos na Ilha Terceira» ou «Italianos nos Açores» disporia, sem dúvida, de notáveis margens de aprofundamento. Os italianos dos séculos XV e XVI que se estabeleceram nos Açores escolheram destinos precisos: a Terceira em primeiro lugar, depois a limítrofe Graciosa ou a grande S. Miguel. O que se afirma hoje, no III milénio, como «o apelido açoriano de origem italiana por excelência», é indiscutivelmente o Espinola, «importado» em primeiro lugar para a ilha Graciosa e hoje vulgar em todas as nove ilhas. Contudo, é a família Cacena (Cassana) que merece especial destaque: pela existência, de importância extraordinária, do topónimo «Cacena» no mapa da ilha de S. Jorge, a designar uma zona da freguesia das Manadas, concelho das Velas. É um dos raríssimos, importantes vestígios toponímicos, em todo o arquipélago dos Açores, onde o nome de família de um mercador estrangeiro resulta transmitido por completo. De facto, pelo menos até finais do século XX, ainda existiam núcleos familiares apelidados de «Cacenas» na freguesia das Manadas, em várias freguesias da ilha Terceira (como Cabo da Praia) e já houvera na ilha do Faial, a testemunhar o antigo poderio dessa família no grupo central do arquipélago. No início de Quinhentos, um genovês menos conhecido na ilha Terceira foi o «misterioso» Lopalma (sendo Palma ou de Palma o apelido original), morador na zona sudoeste da ilha, perto da localidade do Porto Santo, a poucas léguas de Angra, que foi referido por Gaspar Frutuoso: em cima aos biscoitos de Porto Santo, havia «
uma fonte de tanta água que fazia uma grande ribeira, que corria em baixo pelos vales e cujas águas abastecem todas as quintas, [
] casas de recreio estival, e pomares de todas as frutas e ricas colmeias, [
] e é um lugar tão aprazível, que perto daquela fonte fez um genoes, chamado Lopalma, uma formosa quinta, toda plantada de pomares e videiras ...». Sabemos que precisamente os Palma foram dos primeiros genoveses a se estabelecer em Portugal, entre finais de Trezentos e começos de Quatrocentos, quando João de Palma obteve do rei em 1404 o privilégio de cultivar canas-de-açúcar no Algarve. Sendo aquela referência ao açúcar a primeira em absoluto na documentação portuguesa, muitos historiadores atribuem aos genoveses de Palma a introdução no país da indústria do «ouro branco». A sua implantação também foi tentada nos Açores mas, um século mais tarde, vingou na ilha da Madeira, onde se produziu açúcar em quantidade suficiente para adoçar os sofisticados paladares de meia Europa. Os Palma eram vários irmãos, que deixaram um bando de enérgicas crianças: eis porque não parece maquiavélico achar o Palma da Terceira descendente dos genoveses de Palma, mestres açucareiros no Algarve. A 19 de Novembro de 1533, descubro nos Manuscriptos um Diogo de Palma na Terceira, empregado do ilustre Pêro Anes do Canto, em nome do qual assinou uma ordem para Miguel Marques, relativa à entrega de 20 moios de trigo ao Conde de Linhares. Foi talvez esse Diogo o lo Palma genovês mencionado por Frutuoso. Trinta e oito anos depois, a 19 de Outubro 1571, o nome Diogo de Palma o mesmo homem ou talvez um filho homónimo reaparece de um desgastado documento nos arquivos micaelenses: trata-se de uma «carta particular sobre o recebimento de 100.000 réis e 20 moios de trigo, com a promessa que tudo seria pago, e que Diogo de Palma teria documentado mais largamente a questão». No século XXI, é praticamente só na ilha Terceira que aparece algum apelido Palma. Ainda na Terceira, será talvez de origem italiana o apelido de Cea, trazido para Angra, em meados de Quinhentos, por um André Fernandes, um João e um Gonçalo de Cea, envolvidos numa complicada usucapião de «casas em pedra e barro», juntamente àquele Sebastião Merens cuja família esteve relacionada durante decénios com os genoveses Cacena. De Cea, apelido que não parece indiscutivelmente lusitano, poderá vir do florentino de Cei. Em 1539, Galeotto Cei, então residente desde muitos anos na Espanha, obteve licença para comerciar na América e foi membro da grande companhia florentina do delta do Guadalquivir, com sede em Florença e dirigida em Sevilla e Cadiz por Francisco Lapi, homem que trabalhou com a Madeira. Francisco Toscano, em 1536, foi o primeiro provedor da fazenda real nas ilhas dos Açores: o seu apelido, Toscano, chegou a Portugal na Idade Média, trazido por um ilustre cavaleiro proveniente da Toscânia. Revistando os documentos do Livro do Tombo de S. Francisco em Angra do Heroísmo, encontrei outro apelido que recorda qualquer coisa de italiano: é o de D. Iria Cotta, cujo testamento foi aberto a 20 de Novembro de 1591. Sabe-se que o nome Cotta provinha de uma nobre família milanesa, que se mudou para Portugal em Duzentos, portanto muito tempo antes, mas talvez não demasiado, para uma família com brasão, para se esquecer das próprias origens. Surpreendentemente, o apelido Cota (caiu um t) é ainda hoje trazido por umas dezenas de famílias na Terceira, mas é muito raro em qualquer uma das outras ilhas. A senhora Iria Cotta era muito rica, como confirmam os legados às primas Catarina, Anna e Clara Vieira, Maria Cotta e Barbara Gatta, a predilecta, que herdou entre outras coisas 150.000 réis, uma escrava, saias, vestuário e capas. Se Diogo das Chagas nos informa também da presença de um florentino na Terceira, um Gaspar de Florença de cuja descendência «não encontrou notícia», em Angra existe pois uma rua dos Italianos, provavelmente assim baptizada por desprezo ou em louvor dos arquitectos e engenheiros italianos que colaboraram na fortificação da cidade, na segunda metade de Quinhentos. Era costume do «pio povo de Angra», quando ia ao novo templo católico do convento da Graça, sentenciar a frase Vamos a Roma e quando a Terceira, como os outros Açores e Portugal, caiu sob o domínio castelhano, vários italianos viveram e casaram em Angra, provindo sobretudo do reino de Nápoles, fortemente espanholado, como tais Lourenço Reis e Francisco de Campos. Pelo fim de Quinhentos, a comunidade italiana na Terceira atingiu proporções notáveis, tanto que parece remontar àquela época a denominação da rua do Italiano, topónimo sucessivamente corrigido ao plural em rua dos Italianos. Ainda hoje, no início do século XXI e já Cidade Património Mundial, Angra conserva intacto o nome rua dos Italianos, único a lembrar a presença dos transalpinos em todos os Açores. Sabemos por outro lado como sejam múltiplos, quer em toda a Espanha e nas Canárias, quer no Porto Santo, na Madeira e também em Portugal continental, os topónimos que se referem à cidade de Génova, aos genoveses ou a arquitectos e outros profissionais italianos de outrora. A rua dos Italianos, na cidade de Angra, situa-se numa zona que, noutros tempos, tinha valor estratégico extraordinário: começava propriamente na sede da Provedoria das Armadas. O bairro do Corpo Santo, atravessado pela rua dos Italianos, encontra-se no topo de um morro entre o Castelinho e o centro de Angra, assim descrito pelo padre António Cordeiro: «
o Corpo Santo pertence na sua maioria a mareantes, possui num morro sobre o mar a sua célebre ermida dita do Corpo Santo e tem tantas ruas, ou travessas, que é inoportuno contá-las; digo só que sobre o mar, sobre ambos os Castelos de S. João Baptista e de S. Sebastião, e mais ainda sobre a cidade, este bairro tem a mais ampla e melhor vista; e não só ao longo da costa do mar, e ao longo da sua muralha, mas também mais adentro, há estradas que conduzem ao porto da Cidade ...». Henrique Brás pergunta-se quem terá sido o italiano que deu o nome primitivo à rua do Italiano. O mesmo autor supõe que pudesse tratar-se do arquitecto milanês João de Milão (Giovanni di Milano), aparelhador do Castelo de S. Phelipe que trabalhou por mais de 20 anos em Angra, onde faleceu a 27 de Março de 1613. Poderia outrossim tratar-se do seu testamenteiro, António Colla (Antão Colla ou Col), engenheiro e mestre das obras do mesmo castelo, que também faleceu em Angra, em 20 de Dezembro de 1618. Anton Coll, antes de mudar-se para os Açores, colaborou directamente na formulação de pareceres sobre o vasto conjunto de obras à defesa da barra do Tejo em Lisboa, juntamente com mestres italianos de renome que trabalharam para os castelhanos, nomeadamente o bolonhês Filippo Terzi, Vincenzo Casale e Leonardo Torriani. Em qualquer uma das hipóteses, a origem do nome da rua «do(s) italiano(s)» não teria sido de todo celebrativa, porém enraizada no desprezo dos terceirenses empregados em verdadeiros trabalhos forçados para a erecção dos colossais bastiões, pelos quartéis onde residiam os técnicos das obras, privilegiados mestres italianos que podiam dispor a seu gosto da população, ao serviço dos odiados conquistadores espanhóis. Ao invés, se o italiano a quem a rua do Italiano foi inicialmente intitulada tivesse merecido o respeito dos terceirenses, o melhor candidato àquela homenagem terá sido o arquitecto pesares Tommaso *Benedetto, consulente, supervisor e realizador dos esboços pela fortificação da Terceira e dos Açores ao serviço do rei de Portugal. Quanto à ilha de S. Miguel, precisou de tempo para assumir a liderança dos Açores, protagonizada solidamente pela Terceira nos séculos XV e XVI, devido à imprescindível assistência do porto de Angra à navegação transcontinental. S. Miguel tem o território largamente mais amplo e morfologicamente mais completo dos Açores e, embora o seu incipiente vulcanismo na altura da colonização fosse assustador, a fertilidade dos seus terrenos já era proverbial: citado por Frutuoso, o erudito funcionário António de Macedo, observando uma maçã incrivelmente grande, afirmou que «estudara em Paris, Bolonha e Salamanca e vira muitos países, mas nunca tinha visto e voltará a ver um fruto como aquele». No que respeita à presença de estrangeiros, Ponta Delgada foi o lugar privilegiado pelos mercadores ingleses, flamengos, franceses e alemães; as localidades que mais agradaram aos italianos parecem ter sido Vila Franca (Imperial) e Ribeira Grande (Monte). Já se referiu na entrada genoveses (Os) e os Açores sobre Agostino Imperiale (Agostinho Imperial), filho do patrício Federico e pertencente a uma das 28 famílias nobres de Génova que mantiveram a autonomia onomástica do próprio albergo em 1528. Antes de estabelecer-se em S. Miguel, no início do século XVI e como é óbvio, Agostinho viajou para Portugal, onde encontrámos pelo menos dois outros membros da sua família, Niccoloso em Lisboa em 1494 e Belchiorre Imperiale, que se fixara definitivamente no portinho da Calheta, ilha da Madeira. Foi provavelmente seguindo as pegadas dos parentes, se não viajando para Oeste com eles, que Agostinho aportou nos Açores. Na ilha do Arcanjo, o genovês contraiu casamento com Aldonça Jacome, primogénita de Jacome Dias Correia, dito «Barão Jacome, homem grandioso em todo, de grande casa, como seu pai, e de muitas e conspícuas esmolas». Por acaso, o apelido Jacome da mulher do genovês Imperial é idêntico ao dos genoveses Jacome da Terceira (consulte-se a entrada Escoto/Jacome), mas neste caso Frutuoso não fornece indicações sobre uma eventual origem italiana dos seus portadores. De Aldonça Jacome, Agostinho Imperial teve os filhos Rodrigo, Barão e Alexandre Imperial, e as filhas Maria e Beatris Imperial. Alessandro Imperiale casou em Génova, onde empunhou o ceptro de governador por um ano, e se mudou depois como embaixador da Superba, em 1583, para Madrid, «onde foi homem rico, poderoso e de muito renome que morreu na corte. A filha mais velha de Agostinho Imperial, Maria Imperial, casou em Génova com um morgado muito rico e senhor titulado». Tivemos, portanto, um micaelense de origem lígure, Alexandre Imperial, entre os governadores da poderosa República de Génova e, mais logo, embaixador da mesma em Madrid a partir de 1583, data da conquista da Terceira e da definitiva submissão de Portugal aos Filipes. Alguns filhos de Agostinho regressaram pois à Ligúria, onde a família conhecia um momento favorável, visto que em 1617 Giovanni Imperiale foi eleito doge da República. Há duas referências micaelenses a Agostinho de 1522, de natureza radicalmente diferente. A primeira, encontrada por Peragallo, é uma solicitação do Imperial em pessoa ao rei D. João III, ao fim de obter uma cópia de um decreto de Afonso V de 1447, que previa que os moradores de S. Miguel ficassem isentos para sempre de qualquer imposto sobre «todo o pão e trigo e lenha, e legumes, e todas as outras coisas que nessa (ilha) possuem e tragam a estes nossos reinos de qualquer maneira». É evidente que Agostinho Imperial quis valer-se daquele decreto antigo de 75 anos, que de alguma forma descobriu, para poupar os ónus fiscais sobre os seus comércios com o continente, cuja cobrança os funcionários da alfândega insistiam em pedir-lhe; não sabemos qual foi a resposta do soberano, se jamais houve uma. A segunda aparição do Imperial na documentação de 1522, designadamente na obra de Frutuoso, poderia ser a última, visto que o genovês escapou milagrosamente ao terramoto devastador que castigou S. Miguel. O terramoto, descrito também pelo veneziano Marin Sanuto nos seus celebres Diários, assolou a cidade de Vila Franca, até então a principal de S. Miguel, favorecendo a expansão do porto de Ponta Delgada. Houve muitas vítimas e em Vila Franca, Agostinho Imperial e Aldonça Jacome se salvaram «saindo do quarto à sala, enquanto todos os que ficaram nas outras casas morreram». As vítimas foram quase 5.000 e calculou-se a intensidade do sismo em 10º da Escala Mercalli. Em 1529, o rei D. João III, a quem o italiano tinha provado a sua nobre ascendência «com um documento autêntico», mandou registar aos seus colaboradores o brasão heráldico genovês de Agostino Imperiale. Outros apelidos muito conhecidos em Génova despontaram em S. Miguel no século XVI, como o de António Darja (Dória), filho de Simão Dória e proveniente da ilha da Madeira. António Dória casou com Jerónima Leis, de quem teve em S. Miguel descendentes masculinos e femininos; foi provavelmente filho de António aquele Giuseppe Dória que, em 1602, publicou algumas poesias em S. Miguel. Na ilha operaram também alguns de Negro, cuja genovesidade devia ser todavia já diluída: é o caso de Luíz Vaz de Negro, residente na Madeira e poderoso mercador e rendeiro da produção açoriana por muitos anos, e de Pedro Alvarez de Negro, rendeiro de S. Miguel (trigo e cevada) nos anos 1511, 1512, 1513 e parte de 1515. Em 1564 foi nomeado juiz de fora de Ponta Delgada, antigo ofício da magistratura açoriana replicado mais tarde também no Brasil, o licenciado João Usademar, que talvez viesse da Madeira, onde havia vários genoveses desse nome. Provinha, sem dúvida, da família do conhecido Antoniotto Usodimare, que sulcara as águas lusitanas um século antes, à procura de oportunidades para pagar as suas dívidas, como a documentação parece evidenciar. João Usademar foi o terceiro juiz de fora de S. Miguel, onde viveu pelo menos cerca de sete anos, até 1572. Nos mesmos anos do luso-genovês Usademar, um genovês acumulou importantes encargos judiciários e administrativos em S. Miguel: o licenciado Francesco de Mari (Francisco de Maris ou de Mares), que foi sexto contador da ilha e ao mesmo tempo juiz do mar, além de sétimo juiz dos resíduos. A 10 de Março de 1567, Francisco de Maris (cf. genoveses (Os) e os Açores) foi nomeado provedor da fazenda real na ilha do Arcanjo, com o explícito encargo de proceder à cobrança do último terço dos 30.000 cruzados destinados à construção da fortaleza de S. Brás, em Ponta Delgada. O director daquela obra colossal foi outro italiano, o já referido engenheiro militar Tommaso Benedetto, que em 1567 tinha sido enviado pelo rei aos Açores e que em S. Miguel privou com certeza, em várias ocasiões, com Francisco de Maris. O polivalente Francisco, para além das múltiplas tarefas administrativas e judiciárias, foi também orientador da mina para a extracção da pedra-hume, com o encargo de feitor da coroa em S. Miguel. Depois de muitas vicissitudes e conflitos de gestão, a produção de alúmen encontrou em 1570 dificuldades burocráticas e financeiras, levando o inquieto provedor italiano Francisco de Maris a levantar ferro. Infelizmente, teria feito melhor ficando nos Açores: «... o provedor Francisco de Mares saiu com a sua mulher e toda a sua casa no mês de Março do dito ano (1571), e naquela viagem aconteceu o mais cruel desastre de quantos sejam jamais acontecidos nesta travessia das ilhas ao Reino, porque os piratas franceses se apoderaram do navio, mataram Francisco de Mares e muita outra gente ...». O mar que distinguia o seu eloquente apelido, foi também prematuro sepulcro de Francisco. Na Ribeira Grande, centro do setentrião da ilha, é aparentemente curioso observar o percurso de um mercador piemontês através, mais uma vez, de Gaspar Frutuoso, se não soubermos que os Sabóia, soberanos do Piemonte no Noroeste italiano, eram aparentados com a Casa Real de Portugal desde D. Afonso Henriques. Com a mulher Leonor Dias, natural do Algarve e de família honrada, João (Giovanni) da Piemonte mudou-se para S. Miguel na qualidade de mercador, trazendo mercadoria. O casal teve cinco filhos, que se distinguiram e perpetuaram com suas descendências o apelido do Monte, mais tarde Monte, neste caso específico de origem toponímica, provindo da contracção de «Pie-monte» (cf. Piemontês (Um) em São Miguel). Hoje em S. Miguel, uma companhia de transportes chama-se «Italiano», por acaso célebre apelido nobre genovês da Idade Moderna: não há pesquisa sobre a origem da curiosa denominação, que remonta todavia a fortunas mais recentes das dos mercadores da Idade do Ouro dos Açores. A ilha do Pico produz, ainda na actualidade, as maiores quantidades de vinho da região, depois que no século XIX enquanto começava a revelar-se a vocação baleeira dos ilhéus o oídio da videira e a filoxera destruíram a produção do celebre verdelho, um vinho que adquiriu e manteve por mais de 200 anos boa reputação internacional em vários países, nomeadamente Inglaterra, América e Rússia, onde se servia à mesa dos czares. O ilustre historiador António Ferreira da Serpa avançou a hipótese que as videiras do Pico, ao tempo do povoamento, fossem importadas da Sicília, com seus importadores italianos a enraizar-se como a vinha nas vertentes do vulcão. Ferreira da Serpa identificou de facto alguns nomes estrangeiros, nos registos municipais da Vila das Lajes, que na sua opinião podem ser de origem italiana. As Lajes precisava de um ferreiro e o município propôs aos colonos uma auto-taxação, para convencer Gonçalo Anes, mestre desse ofício, a ficar por 4 anos na vila, em troca de um salário, trigo e de uma grande casa, que devia ser construída por ele. Os apelidos dos taxados de 23 de Maio de 1506, que segundo o Serpa «emanam italianidade», são aqueles de João Muthi, Bento Maranna, Fernando de Nazuque, João de Massilia e Miguel Mazilia (procurador do município). Se sobre os restantes apelidos concordo com a hipótese do Serpa, sendo assim provável a presença de italianos no povoamento do Pico, tenho que desmenti-lo no que respeita aos dois Massilia e Mazilia, com certeza franceses de Marselha, como evidencia uma passagem de Domenico Gioffré: «Em 1519 contamos 58 embarcações que faziam a carreira entre a Provença e Génova: destas, 22 são dadas como saídas directamente de Marsiglia e 3 de Arles; dos patrões só 5 são de Massilia e um de Toulon, os outros são genoveses». Os navios portugueses que penetravam no Mediterrâneo com o açúcar da Madeira, rumo a Génova e frequentemente à Sicília para carregar trigo, escalavam às vezes também Marselha, enlaçando assim a ilha italiana (na altura aragonesa) quer à Provença quer ao Atlântico. É assim possível que as videiras viessem quer da Sicília, quer da Provença, ou também da mais próxima ilha da Madeira; nada mais há sobre italianos no Pico. Nos dois longínquos, isolados torrões ocidentais das Flores e Corvo, ilhas então ligadas aos maiores portos dos Açores de maneira somente extemporânea, os vestígios da presença italiana na Idade Moderna são inconsistentes. Isto embora pareça que, como suspeitava Pedro da Silveira e como é deveras possível, o apelido português Corvelo, bem difundido também na ilha das Flores, seja uma verosímil contracção do florentino Corvinel (Corbinelli). Francisco Corbinelli, perito navegador com ilustres parentelas entre nobres mercadores de Florença em Lisboa, depois de uma estadia em S. Tomé participou em 1510 na conquista de Goa, sendo nomeado feitor da fazenda régia por Afonso de Albuquerque. Mais tarde geriu o comércio com a praça-forte de Arguim: seus sócios nesse negócio foram o rei português e o genovês de Castela Michele Pardo. Ainda na ilha das Flores e conforme Pedro da Silveira, o topónimo quinhentista Fajã Lagoarda pode derivar de um apelido italiano, registando-se o mesmo apelido Lagoarda também em Santa Maria. Outros italianos mais famosos passaram pelo arquipélago, deixando rastos mais ou menos consistentes, como o genovês Cristoforo Colombo, que não carece publicidade e que escalou Santa Maria no regresso da primeira viagem à América, e talvez o florentino Amerigo Vespucci (cf. florentinos (Os) e os Açores), que deu o seu nome ao continente novamente achado pelo genovês. O nobre veneziano Filippo Strozzi, comandante da frota francesa de apoio ao prior do Crato, perdeu a decisiva batalha que abriu as portas dos Açores aos castelhanos, a de Vila Franca (1582), onde actuaram cidadãos de vários estados italianos em ambas as armadas, enquanto que vários capitães italianos defenderam em vão a Terceira no seguinte ano de 1583. Já referimos do protagonismo na fortificação dos Açores do arquitecto pesares Tommaso Benedetto; da mesma cidade adriática de Pesaro provinha o cronista Pompeo *Arditi, que conhecia o arquitecto, quando em 1567 e por conta do rei de Portugal realizou uma viagem à Madeira e aos Açores, escrevendo um relato vivaz e importantíssimo sobre os dois arquipélagos atlânticos e designadamente sobre seis das nove ilhas açorianas. Outros viajantes italianos quinhentistas, menos divulgados, deixaram breves descrições das ilhas ou as mencionaram, como o bolonhês Ludovico de Varthema na parte final do seu espectacular Itinerário, ou o toscano Giovanni da Empoli, agente das principais casas florentinas de Lisboa. A imigração italiana continuou, muito esporadicamente, nos séculos XVII a XIX, deixando algum rasto importante como o da família Monjardino, com origens na Ligúria (Mongiardino) e que se afirmou na ilha Terceira. Desde a segunda metade do século XIX até começos do século XX, trazido por um vereador na Câmara de Santa Cruz das Flores e por um relojoeiro referenciado na ilha do Corvo, o apelido italiano Zerbone, hoje em aparência extinto no arquipélago, se notabilizou nas ilhas do grupo ocidental e mais tarde em toda a região. Realmente, das Flores e Corvo uns membros da família passaram à ilha do Faial, com destaque para Manuel Zerbone, uma das figuras mais interessantes da literatura e das artes açorianas do seu tempo, amigo íntimo e colaborador de Florêncio Terra, discípulo de Aloysius Bertrand e Baudelaire e autor, entre outras obras, das Crónicas Alegres. A 22 de Fevereiro de 1917, o Jornal-Radio n.º 190 de Santa Cruz das Flores refere que: «
Por noticias particulares soube-se ter falecido em New Bedford o sr. António Zerbone, logo depois do fallecimento dum seu filho. O sr. Zerbone contava 84 anos, foi vice-cônsul de Portugal em New Bedford onde era muito estimado. Era natural desta ilha, mano da sr.ª D. Ana Zerbone, e tio da sr.ª D. Maria Zerbone, ex.mª consorte do sr. José J. Armas do Amaral. Os nossos pêzames à exm.ª família enlutada». No último quartel do século XIX, o cruzeiro do Corsaro aos Açores transformou-se num livro, recheado de testemunhos sobre a vivência nas ilhas, por exemplo sobre Ponta Delgada em 1886, escrito pelo protagonista do mesmo cruzeiro e comandante do veleiro Corsaro, o genovês Capitão dAlbertis. O Capitão, eminente figura dos círculos culturais e científicos de Génova em finais de Oitocentos, historiador, navegador destemido e fundador do primeiro Clube Naval italiano em 1879, deixou um vasto repertório de relatos de viagens, estudos e ensaios. Nos séculos XIX e XX, os Açores deixaram-se arrastar cada vez mais pela quimera do continente americano, polarizador da diáspora, mas o europeu voltou a atraí-los desde a Revolução do 25 de Abril (1974), curiosamente o mesmo Dia da Liberdade de Itália, que teve origem, porém, em 1945. Sobretudo desde a adesão de Portugal à UE (à data, CEE), em 1986, que proporcionou intercâmbios culturais e financeiros, a economia e a cultura italianas se institucionalizaram na Região Autónoma dos Açores. No campo económico, saliente-se a construção por uma firma lombarda (Telettra) de duas antenas de telecomunicações no Faial e nas Flores, que pela tecnologia italiana viriam fornecer, pela primeira vez em 1986, alguma qualidade de recepção televisiva e telefónica às duas ilhas do grupo ocidental. Mas tem sido graças às aquisições de atum açoriano, promovido na península pela sua excelente qualidade, que a Itália se tornou, nas últimas décadas do século XX, o maior parceiro comercial dos Açores. A gastronomia, como aconteceu em muitos outros países, revelou-se veículo preferencial de divulgação da cultura italiana, com a abertura de um ou outro restaurante genuíno e de muitos restaurantes pseudo-italianos, ou inspirados na culinária peninsular, em algumas ilhas. Em finais de milénio, a literatura italiana divulga e promove os Açores por iniciativa própria, através do alargado sucesso de obras de ficção como A Mulher de Porto Pim (1983) de António Tabucchi, cuja vasta produção literária foi amplamente inspirada por Portugal, ou histórico-turísticas como o primeiro roteiro na Itália sobre a região autónoma (Portogallo-Azzorre, 1988), por Pierluigi Bragaglia, residente na ilha das Flores, e a publicação de romances como os de Romana Petri (O Baleeiro dos Montes, 1993, dedicado à ilha das Flores e A Senhora dos Açores, 2003). No alvorecer do século XXI, o legado da cultura peninsular se perpetua também no Departamento de Línguas da Universidade dos Açores, através do funcionamento de um Curso de Italiano ministrado há anos por Cátia Benedetti e que funciona também como pólo cultural em Ponta Delgada, ocasionalmente promotor da organização de eventos. Saliente-se também a criação de um cônsul honorário na mesma cidade e a frequente contratação de professores de música italianos, espalhados pelos conservatórios da região. Apesar da sua relativa expressividade, não se pode concluir que a imigração italiana contemporânea no arquipélago seja consistente, quer pelos seus próprios números cerca de três dezenas de indivíduos ao todo no inteiro arquipélago, quer se a compararmos com a de cidadãos de outros estados, replicando-se aliás os atributos da imigração italiana nos Açores na Idade Moderna: pouca gente, muito qualificada. Pierluigi Bragaglia
Fontes. Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Ponta Delgada, Manuscriptos, III, fl. 96. Id., Manuscriptos, VIII, fl. 216. Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, Livro do Tombo de São Francisco, fls. 123-127 [Testamento de Dona Iria Cotta].
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