inhame
1 Nome pelo qual são conhecidas as plantas da família das Aráceas (Monocotiledónea) pertencentes à espécie Colocasia esculenta (Palhinha, 1966; Schäfer, 2002) também conhecidas por cocos pelo menos nas ilhas do Faial, do Pico e de S. Jorge (Chagas, 1989: 482; Costa, s.d.: 196; Lima, 1957: 122). O termo «minhoto» usam-no em S. Miguel para qualificar todo o inhame pequeno, geralmente o produzido na Bretanha (Costa, 1948).
História Natural Segundo Franco e Afonso (2003) e Schäfer (2002) é uma geófito rizomatoso; planta robusta com tubérculo grande; folhas cordado-sagitadas peltadas, até 90 x 35 cm, glabras; pecíolo atingindo até 1,20 m; espata erecta, com até 55 cm de comprimento, lanceolada, a parte basal que envolve o espadice verde, a parte superior amarelo-alaranjado-baço, com as margens inferiores sobrepostas, não fundidas, distintamente comprimido; fruto baga com muitas sementes, amarelo.
Provavelmente nativa da Índia, ocorre em todas as ilhas do arquipélago para onde foi registada por Seubert (1844). Cultivada como ornamental e também devido aos tubérculos e pecíolos comestíveis, tornou-se subespontânea, invasiva, encontrando-se bem estabelecida em regiões de elevada pluviosidade, sobre as margens de cursos de água e pauis, em ravinas, valas e pastagens húmidas, geralmente abaixo de 300 m de altitude (Franco e Afonso, 2003; Palhinha, 1966; Schäfer, 2002).
Há cultivares de folhas totalmente verdes e outras com o pecíolo das folhas violeta e as nervuras e margens das folhas da mesma cor, em tonalidades mais ou menos escuras, a forma e dimensão das folhas também pode variar; em climas favoráveis, algumas variedades florescem, emitindo uma espadice com espata amarelo-pálida de 15-35 cm e produzindo frutos que são bagas verdes, mas, há variedades que não produzem flor nem fruto.
Costumam ser consideradas três variedades, inhame-branco, inhame-vermelho e inhame-roxo.
cultura Necessita de solo rico em matéria orgânica, pesado, com boa retenção de humidade, com pH 5,5-6,5.
Segundo Costa (1948), muito divulgada por todo o arquipélago, a cultura dos inhames tanto se pratica em terrenos de sequeiro como naqueles alagados, sendo os primeiros os mais saborosos. A cultura a seco costuma ter início em Fevereiro, com a abertura na terra, à distância de 60 a 70 cm, de «covoletas» de 10 cm de profundidade e outro tanto de diâmetro, nas quais se coloca um pouco de estrume e sobre este a parte superior da soca tuberosa do inhame, isto é, a denominada «coroa». A primeira sacha é feita no mês seguinte e, posteriormente, o inhame deve ser mantido livre de ervas daninhas. A colheita é feita em Fevereiro do ano seguinte.
A cultura em água tem início no mesmo mês de Fevereiro, no leito ou nas margens das ribeiras. É feita em «covoletas», como na de sequeiro, mas são usadas como plantas apenas as gemas da coroa, denominadas «inços» (cf. Serpa, 1987: 155). Se nas margens das ribeiras, a água é conduzida para elas enquanto dura a plantação. Nemésio (s.d.: 375) refere-se-lhe do modo seguinte: «Dos regueirões de uma grota brotavam largas folhas de um veludo verde-alga, destas plantas pelas quais ninguém dá quando aparecem nalgum jardim botânico ou particular do Continente, onde são curiosidade, mas que nas Ilhas gozam do privilégio do húmido, engrossando na terra basáltica os seus farinhentos tubérculos, os inhames».
O tubérculo é colhido no mesmo mês do segundo ano.
Esta cultura chegou a ser obrigatória não só como base da alimentação do povo mas também como produto sobre o qual incidia um dízimo. Foi por causa dessa obrigatoriedade e sobretudo por causa do dízimo que, no ano de 1694, se registou em S. Jorge uma revolta popular que ficou conhecida por motim da Calheta ou motim dos inhames [ver motim dos inhames]. Ainda continua a ser uma cultura importante, pois o inhame é largamente consumido e até exportado para o chamado «mercado da saudade».
gastronomia Até à introdução da cultura da batata, o inhame foi a base da alimentação dos escravos e dos desfavorecidos e, durante muito tempo, considerado a comida dos pobres. Os tubérculos, ricos em hidratos de carbono, depois de cozidos eram, frequentemente, migados em leite, constituindo um bom alimento. O inhame está ainda hoje presente na gastronomia de todas as ilhas como acompanhamento de vários pratos tradicionais. Deve ser cozido com a casca e em fogo lento para ficar mais saboroso (Gomes, 1982). É tradição comer linguiça frita acompanhada de inhames cozidos. Muito apreciado é também, depois de cozido, cortado às rodelas e aquecido em gordura na sertã (Barcelos, 2001). Depois de cozido e cortado às rodelas pode também ser servido como sobremesa ou polvilhado com açúcar e aromatizado com canela, sumo de limão ou de laranja ou acompanhado de mel de abelha (Costa, 1948; Gomes, 1982).
«A seguir ao choro dos animais, deu-se prova do inhame como tubérculo comestível» (Melo, 1987: 71).
Luís M. Arruda
2, s. Em linguagem familiar, pé grande (Medeiros, 1964).
João Saramago e José Bettencourt
Bibl. Barcelos, J. (2001), Falas da ilha das Flores, Vocabulário regional. S.l., ed. do autor. Collins, B. L. (1954), Lista de peixes dos mares dos Açores. Açoreana, 5, 2: 103-142. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. S.l., Secretaria Regional da Educação e Cultura/ Universidade dos Açores. Costa, F. C. (1948), O Inhame, apontamentos para a sua cultura nos Açores. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 8: 1-24. Id. (s.d.), Esboço histórico dos Açores. Ponta Delgada, Instituto Universitário dos Açores: 195. Franco, J. A. & Afonso, M. L. R. (2003), Nova Flora de Portugal (Continente e Açores). Volume III, fascículo III, Juncaceae Orchidaceae. Lisboa, Escolar Editora. Gomes, A. (1982), Cozinha tradicional da ilha Terceira. [Angra do Heroísmo], Direcção Regional dos Assuntos Culturais. Lima, M. (1957), Vocabulário regional das ilhas do Faial e do Pico. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 1, 2: 107-141. Melo, J. (1987), O meu mundo não é deste reino. Lisboa, Publicações D. Quixote. Nemésio, V. (s.d.), Mau Tempo no Canal. 3.ª ed., [Lisboa], Livraria Bertrand. Palhinha, R. T. (1966), Catálogo das plantas vasculares dos Açores. Lisboa, Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves. Schäfer, H. (2002), Flora of the
