infantaria
Na estrutura militar da Reconquista, por distinção com a Cavalaria, arma dos mais privilegiados que tinham posses para ter cavalo próprio (cavalaria da ordenança), ou que, pelo seu estatuto ou origem social (acontiados), recebiam privilégios que lhes permitiam tê-lo. Lanças, espadas ou bestas, e assim os cavaleiros se chamavam Lanças, Arneses ou Acobertados (usando estes uma armadura que os cobria e aos cavalos), Besteiros e Ginetes. D. Pedro II ordenou que a Cavalaria, mesmo os Couraceiros, se armassem com pistolas e clavinas.
De gente do povo se formava a Infantaria; usava lanças ou piques, espadas, bestas, dardos e fundas, e posteriormente espingardas, que começaram a ser introduzidas em Portugal no reinado de D. João I. Combatiam, obviamente, a pé; era a peonagem. Gente de baixo estatuto social, de baixo valor táctico era considerada no campo de batalha. Nem de forma diferente poderia ser: importava reforçar o valor dos cavaleiros, mormente daqueles saídos da Nobreza, que, como defensores ou bellatores, garantiam o estatuto de privilegiados, ou seja, o seu modo de vida.
Porém, à medida que se dão as transformações culturais e económicas que determinarão a morte do feudalismo e a entrada na época moderna, com limitação do poder das autarquias senhoriais detentoras de corpos militares próprios, produz-se a centralização régia do poder, chamando os reis, progressivamente, a si, a responsabilidade pela defesa integral do território, do Estado. Com a centralização do poder, com o aparecimento e evolução do armamento pirotécnico, um corpo nacional do exército, no qual a Infantaria adquire estatuto próprio e de primeiro plano, substitui a hoste régia.
Nos Açores, colonizados por gente laboriosa quando todas estas transformações estão em curso, sem uma classe social privilegiada suficientemente numerosa para garantir a constituição de um corpo de cavalaria credível, com condições de terreno que privilegiam a acção a pé e da artilharia esta para guarnição da *fortificação ou dos navios da Provedoria , é a Infantaria que tem lugar de destaque na organização defensiva do arquipélago. É ela que predomina nas forças mandadas levantar, em 1552, ao capitão-donatário de S. Miguel, Manuel da *Câmara, e, poucos anos depois ao corregedor Gaspar Ferraz, para a Terceira, e ainda nos corpos de Ordenanças mandados organizar pelo Regimento sebástico (cf. *exército). De Infantaria é a tropa de linha, soldados pagos, que, na sequência da Restauração de 1640 guarneceu o Castelo de S. João Baptista e os fortes de S. Brás e de Santa Cruz, com os artilheiros necessários ao exercício da artilharia grossa das mesmas fortificações.
A primeira unidade orgânica do Exército português a estacionar nas ilhas foi o 2.º Regimento de Infantaria do Porto, vindo com o primeiro capitão-general dos Açores, D. Antão de Almada, e que pelo Arquipélago se ficou até 1774. Pela mesma época foram criados os terços auxiliares, mais tarde denominados regimentos de *Milícias, na Terceira, São Miguel, Horta e São Jorge, tropas de 2.ª linha de infantaria.
Por decreto de 22 de Abril de 1797, foi criado o Batalhão de Infantaria com exercício de Artilharia do Castelo de S. João Baptista. Era formado pelo estado-maior comandante, ajudante e quartel-mestre e por quatro companhias. Cada companhia era composta por 1 capitão, 1 tenente, 1 alferes, 2 sargentos, 1 furriel, 5 cabos de esquadra, 1 tambor, 100 anspeçadas e soldados; a 1.ª companhia tinha, ainda, 1 porta-bandeira e dois pífaros, e a 2.ª, igualmente um porta-bandeira. Em síntese, 459 homens, 3 do estado-maior, 456 do corpo do Batalhão. Foi seu primeiro comandante o sargento-mor Gabriel António Franco de Castro, que fora 1.º tenente de artífices e pontoneiros de Regimento de Artilharia do Algarve, com exercício de comandante de companhia; ajudante, Pedro Aniceto Durão Padilha, sargento do Regimento de Artilharia da Corte; e quartel-mestre, o alferes João Bernardo de Almada, provido neste cargo por decreto de 17 de Dezembro de 1797 e vindo de soldado do Regimento de Infantaria de Almada. Para a sua constituição, para além do estado-maior, vieram do continente 2 capitães, 3 tenentes, 5 alferes, 6 sargentos, 4 furriéis, e quatro cabos de esquadra; os outros dois capitães, um era da companhia avulsa de pé-de-castelo da fortaleza de S. João Baptista e o outro da guarnição do forte de S. Brás em Ponta Delgada; dois tenentes eram, igualmente da companhia da guarnição do Castelo. Em 1810 passou a designar-se Batalhão de Artilharia de Linha da Cidade de Angra.
Em 1818, foi criado para Angra o Batalhão de Infantaria N.º 1 dos Açores. A tropa paga ou pé-de-castelo dos fortes de São Brás e do forte de Santa Cruz passou a 2.º Batalhão de Infantaria dos Açores e a Companhia de Infantaria da Horta, respectivamente, todas estas, forças da guarnição da Capitania-Geral. O Batalhão de Infantaria N.º 1 foi dissolvido em 1822, enquanto o Batalhão de Ponta Delgada e a Companhia da Horta seriam extintos com a tomada das ilhas de São Miguel e do Faial pelas tropas liberais (1831).
Em 1823, o Batalhão de *Caçadores N.º 5 chegou a S. Miguel acompanhando o general Stockler, com o efectivo de 1 ajudante, 1 quartel-mestre, 1 sargento-de-brigada, 1 quartel-mestre sargento, 1 cirurgião-mor, 1 ajudante de cirurgia, 1 espingardeiro, 12 músicos, 6 capitães, 6 tenentes, 6 alferes, 20 sargentos e furriéis, 5 corneteiros, 237 cabos e soldados, e instalou-se no forte de S. Brás. Logo, porém, seguiu com o general para a Terceira um destacamento de 1 capitão, 2 subalternos, 4 sargentos, 1 corneteiro e 80 cabos e soldados, sob o comando interino do major José Bernardino de Oliveira. Só em meados de 1824, a maior parte do contingente de Caçadores 5 chegou a Angra, deixando um destacamento em Ponta Delgada e destacando uma companhia para a Horta. O castelo de S. João Baptista passou a ser a sede de Caçadores 5 em 1825, quando o estado-maior do batalhão aqui se instalou.
Em 1829, durante a organização do *Exército Libertador, foi formado o Batalhão Provisório de Caçadores com as praças adidas ao Batalhão de Caçadores 5, para defesa da ilha, que, depois, passou a ser designado Batalhão de Leais Fuzileiros da Ilha Terceira.
Embarcado o Exército Libertador, nos Açores apenas ficou o Batalhão de Leais Fuzileiros da Ilha Terceira, de que saiu o Regimento de Infantaria N.º 4 (1833), que a curto prazo se foi juntar ao dito Exército Libertador. Depois de terem constituído o suporte principal na formação da força militar que desembarcou no Mindelo, os infantes açorianos continuavam a alimentar as fileiras liberais. Em Angra começou a ser levantado um batalhão provisório de Infantaria, organizado oficialmente por portaria de 11 de Novembro de 1834.
Em 1836, por decretos do governo de Sá da Bandeira, de 26 e 30 de Novembro, face à situação de crise política que se vivia e que exigia a tomada de medidas prontas e de grande energia, foi ordenado um recrutamento em todo o Reino, incluindo expressamente os distritos Administrativos dos Açores e da Madeira, de um efectivo de 8.700 homens. O Batalhão Provisório de Infantaria deu origem ao Batalhão de Infantaria (de Linha) N.º 21 (entre 1837 e 1842 a Infantaria não teve regimentos como unidades orgânicas, mas apenas batalhões) e para Ponta Delgada foi criado o Batalhão de Caçadores N.º 1.
Na organização dos Corpos de Infantaria, operada por força do decreto de 28 de Novembro de 1842, o Batalhão de Infantaria de Linha N.º 21, de Angra do Heroísmo, passou a Regimento de Infantaria N.º 5. O Batalhão de Caçadores N.º 1 de Ponta Delgada manteve-se até 1843, data em que migrou para o Continente. De 1843 a 1864, passaram a estar destacados em Ponta Delgada batalhões de Caçadores ou regimentais idos do Continente ou do Regimento de Infantaria 5.
A Organização Militar, constante da Carta de Lei de 23 de Junho de 1864, vem introduzir reformas anunciadas desde finais dos anos quarenta na organização da Secretaria da Guerra e na do Exército. Relativamente à Arma de Infantaria nos Açores, foi criado para Angra o Batalhão de Caçadores N.º 10, ocupando o lugar de unidade territorial deixado pela transferência para o Continente do Regimento de Infantaria N.º 5, em 1857, e para Ponta Delgada, o Batalhão de Caçadores N.º 11, ambos com 6 companhias cada, com um efectivo, igualmente cada um, de 678 homens e três cavalos. Desde então foram atribuídas em contínuo Unidades de Infantaria ao arquipélago dos Açores, percursoras dos actuais *Regimento de Guarnição de Angra do Heroísmo e *Regimento de Guarnição de Ponta Delgada.
Importantes contingentes de Infantaria de Unidades continentais estacionaram nos Açores em reforço da guarnição das Ilhas, durante a II Grande Guerra. Foram eles:
Faial
- Batalhão de Infantaria N.º 66
- Batalhão de Infantaria N.º 8
- Batalhão de Infantaria N.º 1
Terceira
- Batalhão de Infantaria N.º 10
- Companhia de Atiradores do Regimento de Infantaria N.º 11
- Batalhão de Infantaria N.º 4
São Miguel
- Batalhão de Infantaria N.º 9
- Batalhão de Infantaria N.º 12
- Batalhão de Infantaria N.º 14
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 21
- Batalhão de Infantaria N.º 3
- Batalhão de Infantaria N.º 4
- Batalhão de Infantaria N.º 16
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 22
- Batalhão de Metralhadoras N.º 2. Manuel Faria
Fontes. Almanaque do Exército 1850, 1855 e 1858. Lisboa, Imprensa Nacional. Arquivo Histórico Militar, 3.ª Div., Sec. 43.ª, Caixa 97, Docs. 19-26. Ibidem, 3.ª Div. Sec. 45.ª, Caixa 21, Docs. 36-49. Arquivo Histórico Ultramarino, Açores, 1799, Caixa 29, Docs. 9, 11 e 13; Caixa 71, Doc. 7.
Bibl. Barroca, M. J. (2003), História das Campanhas, Nova História Militar de Portugal. Lisboa, Círculo dos Leitores e Autores, I. Cid, A. J. A. B. (1957), Unidades de Artilharia Sua Evolução. Revista de Artilharia, 2.ª Série, 53, 377-378. Collecção dos Documentos Officiaes Relativos aos Ultimos Acontecimentos nas Ilhas dos Açores, 1831, Angra, Imprensa do Governo. Localização dos Corpos do Exército de Portugal Continental e Insular 1640-1994 (1994). Caderno de História Militar n.º 24, Lisboa, Direcção de Documentação e História Militar/EME. Macedo, A. L. S. (1981), História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, III: 42 [Fac-simil. da ed. de 1871]. Matos, L. S. (2004), Estado Novo, Nova História Militar de Portugal. Lisboa, Círculo dos Leitores e Autores, IV. Menezes, M. S. (1987), A Defesa dos Açores no Período da 2.ª Grande Guerra (1939-1945). Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 55: 1399-1511. Ordens do Exército 1.ª Série (1828 a 2004). Pires, S. e Amaro, G. (1908), Caçadores 5 de El-Rei. Lisboa, Typographia Universal de Coelho da Cunha, Brito & C.ª. Ventura, A. (2004), Da Revolução de 1820 ao Fim das Guerras Civis, Nova História Militar de Portugal. Lisboa, Círculo dos Leitores e Autores, III.
Quadro 1 Relação das Unidades Expedicionárias ou com tropas deslocadas do território continental
Faial
- Batalhão de Infantaria N.º 66
- Batalhão de Infantaria N.º 8
- Batalhão de Infantaria N.º 20
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 20
- Companhia de Acompanhamento Regimental N.º 20
- Companhia de Reforço ao Batalhão de Infantaria N.º 66
- Batalhão de Infantaria N.º 1
- Bateria de Artilharia Ligeira 7,5 m/917
- Divisão de Montanha 7 M m/904
- 4.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 9,4
- 7.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 40
- 6.ª Divisão de Referenciação
- Defesa Contra Aeronaves
- 2.ª Companhia de Sapadores Mineiros
- Esquadrilha de Caça N.º 1
Terceira
- Batalhão de Infantaria N.º 10
- Companhia de Atiradores do Regimento de Infantaria N.º 11
- Batalhão de Infantaria N.º 4
- Companhia de Acompanhamento Regimental
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 17
- 1.ª Bateria de Artilharia Ligeira 7,5 m/917
- Bateria de Artilharia de Montanha 7,5
- 3.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 9,4
- 5.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 40 cm
- 4.ª Divisão de Referenciação
- 5.ª Divisão de Referenciação
- 2.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 40
- 1.ª Companhia de Sapadores Mineiros
- Destacamento de Engenharia da Escola Prática de Engenharia
S. Miguel
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 18
- Batalhão de Infantaria N.º 9
- Batalhão de Infantaria N.º 12
- Batalhão de Infantaria N.º 14
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 21
- Batalhão de Infantaria N.º 3
- Batalhão de Infantaria N.º 4
- Batalhão de Infantaria N.º 16
- Comando do Regimento de Infantaria N.º 22
- Batalhão de Metralhadoras N.º 2
- 1.º Grupo de Baterias de Obuses 10,5
- Bateria Ligeira de 7,5
- 1.ª e 3.ª Divisões de Artilharia de Montanha 7 cm
- Bateria Independente de Defesa de Costa N.º 1
- 1.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 7,5
- 5.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 9,4
- 9.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 9,4
- 1.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 40
- 4.ª Bateria de Artilharia Antiaérea 40
- 1.ª, 2.ª e 3.ª Divisões de Referenciação
- Grupo Contra Aeronaves N.º 4
- Defesa Contra Aeronaves
- Batalhão de Sapadores Mineiros
