imprensa açoriana
1. A 14 de Fevereiro de 1829, aportou a Angra a galera americana James-Cropper, vinda de Plymouth, trazendo os materiais necessários para a montagem da primeira tipografia nas ilhas, adquiridos num leilão em Inglaterra, por ordem do Marquês de Palmela, para uso da Junta Provisória em nome da rainha D. Maria II. Era bispo da diocese D. Estêvão de Jesus Maria (1827-1870). Transportados os objectos para a Fortaleza de S. João Baptista, armaram aí a imprensa, no vestíbulo do palácio do governador. A direcção da estabelecida arte de impressão foi cometida ao alferes de Infantaria n.º 13, Pedro Alexandrino da Cunha, muito jovem mas de mérito já reconhecido. Chegados dois compositores de impressão, deu-se seguimento aos trabalhos tipográficos, começando a primeira tiragem por dois versos de Virgílio, dos quais o segundo, que se conservou por bastantes anos, era: «Semper honos nomenque tuum, laudesque manebunt», os quais foram fixados, num dos prumos do prelo para memória desta primeira tiragem, e um rótulo com a data 14 de Fevereiro de 1829. Nos seus ensaios tipográficos foram compostos, pequenos textos experimentais, dando-se primazia a novos artistas com algumas folhas avulsas que noticiassem acontecimentos. Foram empregados, entretanto, especialistas, recrutados das Forças Armadas e, com este pessoal, desenvolveram-se bastante os trabalhos tipográficos, que ficaram a dever-se aos primeiros técnicos: João António de Avelar, primeiro compositor, Simões e Portugal. Destes e do esforço e curiosidade de outros (especialistas?), saiu, em 17 de Abril de 1830, o primeiro número de A Chronica da Terceira, órgão oficial da Regência, redigido pelo académico Simão José da Luz, convite aceite a pedido do major Bernardo de Sá Nogueira, depois, Marquês de Sá da Bandeira. Simão Luz larga o jornal, pelo n.º 12 ou 13, começando, pois, a trabalhar nele os académicos Elias José de Morais, José Estêvão Coelho de Magalhães e, mais tarde, o tenente do batalhão de voluntários da rainha D. Maria II, João Eduardo de Abreu Tavares. Nos primeiros ensaios tipográficos, compuseram e imprimiram os homens desta nova arte, pequenas folhas avulsas, dando informações acerca dos emigrantes que regularmente partiam para o Canadá e os Estados Unidos da América, assentando arraiais sobretudo em Newark e Houston, gente de pescadores que passavam por Ellis Ireland (para vistoria médica, desparasitação e indicações sobre os rumos a tomar), os que sempre nos honraram (como ainda hoje) na sua convivência com os locais e na sua profissão. As notícias impressas chegavam com frequência sobre os nossos padres e missionários que se deslocavam para a América, além dos mais altos dignatários da Igreja que visitavam essas paragens e o Oriente, para onde se deslocavam missionários açorianos também: Índia, China, Japão e Indonésia. O Brasil situa-se igualmente dentro das paragens preferidas. De todas as publicações desta imprensa, as mais interessantes e hoje raríssimas, datam de 1830, a Folhinha da Terceira para 1831 e, como se se tratasse de um almanaque anual, a Folhinha da Terceira para 1832, ambas do tipo breviário, sendo boa a sua impressão. Aqui, encarregou-se da parte histórica José António Guerreiro; da geográfica, o major Bernardo de Sá Nogueira e da restante Simão José da Luz. Na parte da História, notam-se alusões à Igreja local e à sua diocese em Angra. Com os muitos afazeres da imprensa, coisa nova e de fácil e rápida propagação de notícias laicas e eclesiásticas, açoreanas e continentais, foi para ela requisitado o sargento ajudante João de Sousa Ribeiro e para revisor tipográfico o 1.º sargento de infantaria n.º 6 que servia no batalhão dos ingleses e ainda José Ezequiel da Costa Ricci, então, promovido a alferes. Como aprendizes, sem ordenado, foram admitidos à experiência, os jovens terceirenses João de Sousa Pereira e o seu irmão, Manuel de Sousa Pereira. Toda esta máquina viria a ser transportada para a ilha de S. Miguel, ficando nesta a aguardar ordens. Assim que foi criada a prefeitura dos Açores, com sede em Angra, tudo regressou ao ponto iniciático. Montada, então, na ermida da Boa-Nova, foi, precisamente, aí que, em 6 de Janeiro de 1833, se deu começo à publicação do n.º 1 de A Chronica dos Açores, que vingou até Dezembro desse ano, sendo a sua redacção confiada ao capitão João Eduardo de Abreu Tavares e onde colaboraram o académico António Joaquim Nunes de Vasconcelos e o bacharel António do Rego Faria Barbosa. No ano de 1834, publicou-se A Chronica Constitucional de Angra que terminou a 11 de Junho de 1835. Em 16 de Maio de 1836, deram à estampa a Sentinella Constitucional dos Açores, com este título até ao n.º 24, de 26 de Agosto seguinte, e a epígrafe Vitam impendere vero, e, do n.º 25 em diante, A Sentinella, sob a epígrafe «civilização, liberdade e ordem pública», onde a religião não deixou de se intrometer, pois supervisionava, sem desleixo, a educação, a família e a escola. Outros se lhe seguiram, não dando, de então em diante, quaisquer tréguas à arte de impressão, nem aos seus técnicos. Uma vez que a imprensa, à data, estava por demais ligada a factos e propaganda políticos, em 1837, João de Sousa Ribeiro e Eduardo de Abreu Tavares montaram uma pequena imprensa na rua dos Canos Verdes, publicando a 6 de Junho de 1838 o n.º 1 de O Iris da Terceira que durou até 1842, sustentando polémica com o Angrense, de política setembrista, dado que o Iris era da política cartista, sendo seus redactores João Eduardo, Amâncio Leocádio Vieira e o padre terceirense Narciso António da Fonseca, comendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, professor do Seminário e Deão da Sé de Angra que trabalhou ainda no Clarim Terceirense.
2. A imprensa, assim recentemente instalada em Angra, estava, como facilmente se depreende, de mãos atadas ao poder político. Com o andar dos tempos, os trabalhos tipográficos desenvolveram-se bastante: publicaram-se livros, breviários, folhinhas e toda a sorte de folhetos das mais variadas origens. A Igreja, sem tipografia própria, nestes primeiros tempos e dada a localização do Seminário e da Sé bem próximos das oficinas, começa a editar os seus próprios jornais diários, semanários e folhas quinzenais e mensais. A atitude do poder laico foi sempre a de permitir à Igreja porque o facto lhe trazia vantagens a publicação das suas notícias próprias e de comentários às situações políticas que se iam vivendo, em curtos períodos de tempo, nas ilhas e também o que se noticiava no continente ou chegava de outros países, através de missionários açorianos espalhados pelo mundo que pudessem dar um bom contributo à razoabilidade, moderação e moralização que se pretendiam fazer transparecer no meio laico-religioso. O supérfluo e inconveniente ao espírito dos homens e das famílias que se alteravam com grande rapidez e facilidade eram limados ou mesmo cortados pela censura que vigoraria em Portugal até ao 26 de Abril de 1974, já fora do alcance da extinta PIDE-DGS. Matérias comuns a ambos os campos da imprensa e, ainda, à rádio e à televisão quer no continente quer nas ilhas açorianas, relacionavam-se com a população, em geral (a sua instrução, o trabalho, direitos vedados às mulheres, o sufrágio...), a economia (agricultura, propriedade, indústrias, comércio, transportes e comunicações, horários dos barcos e dos aviões quando os passou a haver), as crises económicas que, de um modo geral, podiam apenas sentir-se e depreender-se, mas era assunto proibido. Ainda as primeiras greves, com o desejo que se mostrava intempestivamente exigente de calar as vozes dos trabalhadores e não dar publicidade à questão e as tentativas de resolução de questões sociais (salários, horários e locais de trabalho). Mais: a religião, aliada à educação e à instrução e a guerra e as suas consequências sociais que não podiam ocultar-se. Em suma: dentro dos bons princípios, os noticiários laicos e religiosos soavam a patriotismo e exaltação da grei; a família, o chefe da família e a mulher, ou seja, três instituições que os bons princípios da sociedade e da sua moral deviam acatar segundo os divinos cânones; as questões meramente religiosas que apoiavam o Estado e causavam tão grande número de inesperadas consequências aos mais incautos e dissidentes, aos que, afinal, só pretendiam provar que tinham opinião própria e que a ciência, em variados campos, se sobrepunha ao Antigo Testamento; as medidas anticlericais que eram totalmente sonegadas e, a surgirem com algum reparo, teria o poder político de fazer a sua respectiva crítica e também ele de demonstrar que a boa moral, os bons costumes, as regras de convivência e até as de etiqueta, por todo o Reino ou Estado e nos Açores, onde havia um grande número de altos dignatários da Igreja e importantes membros da nobreza, advinham das ligações às palavras das encíclicas e estavam contidas nos catecismos, coloridos e infantilmente desenhados, para que chegassem facilmente à aceitação das crianças... o ensino, a ciência e as técnicas. O ensino era de fácil controle. Já a ciência era partilhada por vozes conflituantes que iam expondo os seus pontos de vista modernos e actuais, contradizendo o que estava comummente estabelecido de há séculos a esta parte como a teoria de Galileu, as origens do Homem, entre outras bem controversas. Mas, se a Igreja usava a imprensa para a feitura de jornais próprios, ela igualmente publicava, em diários e semanários laicos, notícias e apontamentos que achasse de interesse. As entidades clericais estenderam os seus tentáculos por todo o tipo de jornais e, mais tarde, por toda a comunicação social.
3. Apenas, a título de exemplo, comecemos, por S. Miguel e pelo Archivo dos Açores, publicação periódica destinada à vulgarização dos elementos indispensáveis a todos os ramos da história açoriana. O n.º 1 saiu em Maio de 1878, contando com inúmera colaboração de clérigos que escrevem sobre os mais variados assuntos; o Archivo Açoriano, jornal religioso e literário que começou a publicar-se em 1 de Outubro de 1856; A Caridade, semanário religioso, literário e noticioso, cujo primeiro número data de 24 de Agosto de 1883; A Civilização, periódico hebdomadário consagrado a todos os interesses religiosos e sociais: o n.º 1 foi editado a 13 de Novembro de 1875. A Gazeta Açoriana, jornal doutrinário, com o primeiro número saído a 10 de Janeiro de 1883; O Melrinho, estranho à política, era um periódico para os pobres da ilha de S. Miguel e foi fundado a 3 de Fevereiro de 1853; O Mensageiro Seráfico, revista mensal consagrada à propagação da venerável Ordem Terceira de S. Francisco de Assis: saiu em Janeiro de 1885; A Missão, jornal eminentemente, religioso, com o seu n.º 1, datado de 1 de Março de 1867; O Templo, jornal religioso, moral e literário. O n.º 1 data de 15 de Setembro de 1856. A Tribuna Cristã, publicação quinzenal religiosa, com o seu n.º 1 de 15 de Maio de 1873; e A Voz da Verdade, semanário religioso, literário e político, com o n.º 1, a datar de 18 de Agosto de 1867. Passando por Santa Maria, ao que parece, nada houve, nesta epígrafe, que tivesse a sua origem nos órgãos da Igreja. Na ilha Terceira, encontramos: Os Açores, folha mista consagrada aos interesses açorianos, cujo primeiro número data de 10 de Agosto de 1879; O Album, publicação laico-religiosa dos alunos do liceu de Angra do Heroísmo, com o n.º 1, datando de 1 de Dezembro de 1876; O Amigo das Famílias, publicação quinzenal de propaganda católica, dedicada à Virgem Imaculada, com o seu primeiro número saído a 24 de Maio de 1885; Boletim do Governo Eclesiástico dos Açores, com o n.º 1 de 21 de Dezembro de 1872; O Católico, folha terceirense consagrada a todos os interesses religiosos e sociais; O Católico Terceirense, jornal religioso e literário, com o seu primeiro número de 15 de Janeiro de 1857; Isis da Terceira, jornal político e religioso, com o n.º 1 datado de 6 de Junho de 1838; Religião e Pátria, (o papado e a revolução): curiosa colecção de escritos e documentos históricos, com o seu n.º 1, de Julho de 1861; da Graciosa, não há um único de propaganda religiosa. Passando à ilha de S. Jorge, contamos com dois de cariz misto: O Jorgense, quinzenal, com o n.º 1, de 15 de Fevereiro de 1871 e A Verdade, semanal independente, dedicado a todos os interesses sociais, com o n.º 1, saído a 30 de Abril de 1882. Da ilha do Faial, entre um ou outro de carácter misto, contamos com o Archivo, semanal religioso, redigido por sacerdotes, com o seu n.º 1 datado de 1 de Dezembro de 1875. Do Pico e das Flores, não encontrámos referências a nenhum.
4. A rádio, a televisão e a imprensa, em suma, os órgão de comunicação social, os media, designação por que são hoje todos conhecidos, só puderam transmitir com maior rigor e sustentabilidade científica, laboratorial e prática, após os novos tempos com a revolução de Abril. Esta chegou mais lentamente às ilhas, mas também aqui foi fácil notar que não era conveniente andar dez passos atrás das novas ideias, métodos e princípios adoptados e aceites no continente. Rápido, a Igreja e o Estado nos Açores se preocuparam em estar a par com as instituições continentais. Mas a situação que hoje aí se vive, como já se depreendeu, não foi como antigamente. Na Parede, a poucos quilómetros da capital, o Rádio Clube Português foi a primeira estação a comunicar em 1928, dada a iniciativa de Jorge Botelho Moniz, Alberto Lima Basto e Anthero Paulo Silva de Sousa com o grande jornalista Fernando Pessa que estagiou, durante a guerra, na BBC, em Londres. Será a futura Rádio Comercial, com contactos directos com a Emissora Açoriana. A União Europeia de Radiodifusão aporta aos Açores sob o título de Eurovisão e Mundovisão, com sede em Genève, desde 1950. A Emissora Nacional, associada, mais tarde, a um sem-número de emissores radiofónicos, dá origem à Radiodifusão Portuguesa, EP (RDP), a que os Açores tanto ficaram a dever, através das notícias emitidas e dos modelos de programação. A estes e outros postos teve a Igreja constante acesso. Missas dominicais, o terço às vésperas, mensagens de Roma, do Bispado e da Igreja local; sermões e notas das encíclicas... As célebres cerimónias anuais do Senhor Santo Cristo dos Milagres, o culto do Espírito Santo e os seus Impérios, as Cavalhadas; as opiniões episcopais contra as «mascaradas», em S. Jorge e no Faial... Aconteceu o mesmo com a Rádio Televisão Portuguesa (Rádio Televisão Açores), cada vez mais autónoma, mas dando à Igreja, espaço aberto para poder dirigir-se às populações, numa terra em que 90% destas é crente e praticante. Fundada em 1955, nacionalizada em 1975, a primeira emissão no continente datou de Setembro de 1956 (emissão experimental) e, em Março de 1957, iniciou as emissões regulares, para dois anos depois vir a tornar-se membro da União Europeia de Radiodifusão. É assim que a vamos encontrar, em 1975, na chamada RTP-Açores, transmitindo, além de notícias religiosas, todos os demais factos e actos acima citados. Em 1982, os programas surgiam a cores: o Estado e a Igreja impressionavam a população por demais, com outros meios evoluídos de transmissão. Mas até chegarmos aos dias de hoje, com técnicas avançadas informatizadas, notícias ao segundo através de e-mails e programas para todos os gostos com canais múltiplos... a imprensa reduzia-se à matéria divulgada por escrito, a mais antiga, normalmente a reboque do aparelho político de que a Igreja não podia desligar-se. A Lei da Separação veio a ser promulgada cedo, mas não desligou ambas as instituições que cá e lá cumpriam os desideratos do Estado e da Igreja.
João Silva de Sousa
Fontes. Arquivo da RTP Av. 5 de Outubro, Lisboa (actualmente, no Parque das Nações, Lisboa). B.N.L., Secção dos Periódicos e Secção dos Reservados. Diário de Notícias, Lisboa, arquivo e notícias acerca de «Os Açores».
Bibl. Arquivo dos Açores (1981-1983), Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IV: 333-342; V: 377 e segss; IX: 19 e segss; X: 362 e segs.; XI: 39 e segs.; XII: 89 e segs., 473 e ss.. Marques, A. H. O. (1981), História de Portugal. 6.ª ed., Lisboa, Palas Editores, III: 77-141. Nova Enciclopédia Larousse (1994). Lisboa, Círculo de leitores e Larousse, 19: 5840-5847. Pereira, J. A. (1939), Padres Açoreanos. Bispos Publicistas Religiosos. Angra do Heroísmo, União Gráfica Angrense. Id. (1950), A Diocese de Angra na História dos seus Prelados. Angra do Heroísmo, ed. da Livraria Editora Andrade.
