ilha dos Amores
Extenso episódio (IX, 18 a X, 143) que cerra a acção de Os Lusíadas, fazendo convergir, para coroamento do «peito ilustre lusitano», os três grandes planos em que se foi desenrolando a narrativa da epopeia: a viagem dos portugueses comandados por Vasco da Gama, a História de Portugal e a intriga mitológica.
O episódio, fundado no tema da ilha bem-aventurada, tão presente no imaginário das novelas e lendas medievais, tem modelos literários incontestáveis, que remontam a Homero e passam por outros escritores da Antiguidade e do Renascimento italiano. Num primeiro momento da sua urdidura (IX, 18-50), encontra-se a preparação da Ilha imaginada por Vénus, com o auxílio de Cupido, como recompensa a dar aos nautas portugueses que regressam já à Pátria e, ao mesmo tempo, como possibilidade de, através deles, repor a ordem universal do Amor e de combater os desconcertos do Mundo, entendidos como pecados contra o Amor. Segundo os planos de Vénus, deste encontro do mar e da terra, nascerá um Novo Reino, isto é, uma geração de homens novos, capazes de impor «leis melhores».
Por isso, a Ilha é desde logo apresentada como espaço em que reinará o Amor, concebido, de acordo com a doutrina neoplatónica que dá significado ao episódio e que, de uma forma mais geral, se estende a toda a obra , como princípio unificador, garantia da harmonia e da lei inscritas por Deus no universo. A sua descrição, tributária do tópico do locus amoenus, desenvolve-se num registo sensorial muito forte, que culmina com a presença das ninfas que virão a entregar-se amorosamente aos nautas, em quadro de amor pleno e exaltação renascentista dos sentidos. A esse encontro amoroso seguir-se-á um banquete (X, 1-72).
A ascensão divinizadora dos Portugueses, metonimicamente representados em Vasco da Gama e nos companheiros, culmina quando Tétis desvenda a máquina do mundo e profetiza outros feitos heróicos da nação, permitindo assim a contemplação de segredos vedados aos mortais.
Perante o fundo simbolismo e as ressonâncias épicas do episódio, torna-se marginal para a sua interpretação a identificação de um referente real, de uma ilha efectivamente existente que se possa rever na descrição camoniana. Todavia, num gesto de natural curiosidade e erudição, e por vezes mesmo com o ardor de um certo positivismo, alguns escoliastas de Os Lusíadas procuraram localizar a ilha que entendiam ser o modelo camoniano, analisando rotas marítimas, indicações astronómicas e pormenores da orografia, da flora e da fauna que pareciam justificar a sua eleição. Por uma questão de curiosidade, e porque os Açores não ficaram fora dessas identificações, referiremos sucintamente as mais aceites e discutidas.
Num primeiro grupo, encontram-se ilhas do Índico. Faria e Sousa, no século XVII, desenvolve páginas preciosas de informação nos comentários da sua edição de Os Lusíadas (ver sobretudo os comentários a X, 53), e descobre na descrição camoniana a ilha de Angediva. Zanzibar foi apontada por Gomes Monteiro, a ilha de Ceilão por Freire de Carvalho, enquanto a ilha de Bombaim, a surpreendente propriedade de Garcia de Orta, foi defendida por Cunha Gonçalves.
Entre as ilhas atlânticas, o arquipélago de Cabo Verde foi já apontado, mas é, sem dúvida, a ilha de Santa Helena, a que os Portugueses costumavam aportar alegremente no regresso da Índia, a hipótese mais considerada, e logo a partir do século XVI, segundo diz Manuel Correia, ele próprio defensor de que a ilha é um «fingimento» criado pelo poeta e, portanto, impossível de localizar no planisfério (edição comentada de Os Lusíadas de 1613). A favor de Santa Helena, pronunciaram-se recentemente, partindo de pressupostos diferentes, Costa Ramalho e António Cirurgião.
Finalmente, também a ilha Terceira é indicada. Teófilo apoia-se em estudos de Teixeira Soares sobre a rota das armadas no regresso da Índia ao reino, apela a Humboldt a propósito da flora da ilha e secunda a opinião do Padre Jerónimo Emiliano de Andrade e de Moniz Barreto Corte Real, para rever os pormenores da descrição da «Ínsula divina» e reafirmar o que julga evidência: «a ilha Terceira foi o elemento objectivo que serviu a Camões para acentuar alguns traços descritivos da Ilha dos Amores». Em tempos mais próximos, a hipótese foi defendida por A. Sousa Gomes.
Maria do Céu Fraga
Bibl. Sobre a interpretação do episódio: Finazzi-Agro, E. (1980), A epifania do herói na Ilha dos Amores. Brotéria, 110, n.os 7/8/9. Moura, V. G. (1980), Camões: Alguns desafios. Lisboa, Editorial Vega. Reckert, S. (1980), A ilha dos Amores (iconografia de um arquétipo). Arquivos do Centro Cultural Português, XV. Silva, V. A. (1994), Função e significado do episódio da Ilha dos Amores na estrutura de Os Lusíadas, In Camões: Labirintos e Fascínios. Lisboa, Cotovia.
Em múltiplas edições comentadas de Os Lusíadas encontram-se opiniões sobre a localização da Ilha. Braga, T. (1875), História de Camões, Parte II, Eschola de Camões Os poetas épicos. Porto, Imprensa Portuguesa. Cirurgião, A. (1976), Fernão Álvares do Oriente. O homem e a obra. Paris, Fundação Calouste Gulbenkian. Gomes, A. S. (1967), Notas Camonianas. Ilha dos Amores. Lisboa, s.e.. História da Literatura, 2, Renascença. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda: 19. Ramalho, A. C. (2000), Reflexões camonianas, In Para a História do Humanismo em Portugal. Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
