ilha de Jesus Cristo
Nome primitivo da actual Ilha Terceira. Este nome de Jesus Cristo faz parte da nomenclatura atribuída pelo infante D. Henrique, ou pelos navegadores que as descobriram, ao conjunto das ilhas dos Açores (Santa Maria, S. Miguel, Jesus Cristo, Graciosa, S. Jorge, S. Dinis, S. Luís, S. Tomás e Santa Iria) cujos nomes em parte se perderam e foram substituídos pelos outros, que hoje conhecemos. Só a de Jesus Cristo ou reduzidamente de Jesus, ficou entre os eruditos. Frei Francisco Brandão, na Monarquia Lusitana, numa interpretação tardia e manifestamente erudita, explica essas denominações henriquinas por serem ligados à Ordem de Cristo e especifica «a de Jesus Cristo por ser o título a que a Ordem é dedicada».
A carta portulano de Soligo, do século XV, talvez de cerca de 1460, tem a particularidade de fixar em paralelo com as ilhas ditas os falsos Açores e em posição geográfica correcta os verdadeiros Açores e entre eles a «ya de Jhs Xps» e as outras designações henriquinas.
Os documentos da época do Infante D. Henrique, tanto a carta de D. AfonsoV (2 de Setembro de 1460), confirmando a doação de D. Henrique ao sobrinho D. Fernando, quer a carta de D. Henrique (18 de Setembro de 1460) doando a espiritualidade da ilha à Ordem de Cristo, quer o testamento do Infante (13 de Novembro de 1460) falam sempre e só da ilha de Jesus Cristo, como ainda a carta régia de 3 de Dezembro de 1460, que fez a doação das ilhas dos Açores ao infante D. Fernando.
A pergunta é então quando se introduziu o nome de Terceira para a ilha de Jesus Cristo e porquê?
De certo, tal como para o Pico e o Faial, por via popular e para designar as suas características. Terceira, por ser a terceira a atingir quando se vinha do reino. Numa primeira fase designou-se mesmo ilha Terceira de Jesus Cristo, como na carta de D. Beatriz de doação da capitania de Angra a João Vaz Corte-Real (2 de Abril de 1474) e depois preferencialmente Terceira, como na carta de D. João II doando a Terceira e Graciosa ao duque D. Manuel (1 de Junho de 1589) onde se diz a ilha de Jesus Cristo «que ora se chama a ilha Terceira».
Na linguagem não oficial usou-se também abreviadamente ilha de Jesus, como por exemplo em João de Barros na Década I da Ásia, livro II, quando noticia que D. Afonso V confirmou a doação da «ilha de Jesus» e Graciosa feita por D. Henrique a D. Fernando.
Gaspar Frutuoso registou as explicações para o nome de Jesus Cristo. Segundo uns, diz ele, assim a chamaram por ser achada no 1.o de Janeiro em que se celebra a festa do Santo Nome, pelo que o cabido tem por armas e selo um menino Jesus. Pode, diz ele, ter esse nome por ser do mestrado de Cristo (que é a explicação de Frei Brandão, como vimos) e outros ainda dizem que por ser achada em dia do Corpo de Deus, ou em quinta-feira Santa, ou em sexta-feira Santa. Acrescenta que os da terra a chamam de Jesus Cristo e trazem por armas um crucifixo ou a figura de Cristo crucificado. Porém, o cronista, duvida sobre o calendário da descoberta em tempo de Inverno e por isso critica as explicações para o nome por ser descoberta em Janeiro ou na Semana Santa e opta pela festa do Corpo de Deus, que é o tempo mais quente e melhor. Tudo isto, porém, é já especulação erudita, sem qualquer apoio documental.
Assim, a mais conveniente explicação é realmente que a nomenclatura henriquina para os Açores está relacionada com as devoções da Ordem de Cristo e que a alteração de alguns nomes se deu por via popular, que acabou por se fixar com abandono dos nomes oficiais.
Na erudição continuou a usar-se ilha de Jesus Cristo ou só ilha de Jesus, para designar a Terceira e a denominação teve até uma recuperação mais insistente na linguagem literária e poética das primeiras décadas do século XX, entre os escritores e poetas do ultra-romantismo e do regionalismo literário. J. G. Reis Leite
Bibl. Arruda, M. M. V. (1932), Ensaio crítico. Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores. Ponta Delgada, Of. Artes Gráficas: XLIV, LXIX, XC, CXLVIII. Barros, J., Ásia, Década I, livro II. Frutuoso, G. (1963), Saudades da terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, livro 6, cap. I: 3-12. [Os documentos henriquinos e os outros citados podem ser consultados com mais facilidade em Colecção de documentos relativos ao descobrimento e povoamento dos Açores (1932), Ponta Delgada, Of. Artes Graficas: 129, 134, 138, 145, 173, 198].
