ignimbrito
Etimologicamente a palavra ignimbrito significa chuva de fogo. O termo é usado actualmente para designar depósitos vulcânicos de escoadas ou fluxos piroclásticos de cinzas e pedra-pomes (pumice and ash flows). Estes depósitos são constituídos por uma massa de cinzas contendo fragmentos de pedra-pomes e de rochas densas arrancadas às condutas (fragmentos líticos). Os fragmentos encontram-se envoltos e suportados pelas cinzas, com a pedra-pomes, em geral, dispersa por todo o depósito e os fragmentos líticos concentrado principalmente na base. O depósito pode apresentar-se soldado ou não. A soldadura resulta da temperatura que a massa de cinzas e pedra-pomes ainda apresenta depois de parar e do peso da coluna litostática suprajacente. Neste processo, os fragmentos de pedra-pomes sofrem achatamento mais ou menos acentuado, perdendo vesicularidade e podendo transformar-se numa lentícula de vidro de cor escura no seio das cinzas soldadas. A estas lentes de vidro dá-se o nome de fiamme, palavra italiana que significa chama. No conceito original, a designação de ignimbrito era aplicada apenas a depósitos densamente soldados, mas actualmente é usado também para depósitos não soldados.
Os vulcões açorianos que apresentam vulcanismo traquítico podem produzir, e produziram no passado, no decurso de erupções plinianas, fluxos piroclásticos com a deposição de ignimbritos. Alguns destes depósitos são bem conhecidos da literatura geológica regional, como o Ignimbrito da Povoação, emitido por uma erupção do Vulcão das Furnas há cerca de 30.000 anos (Guest et al., 1999). Na ilha Terceira conhecem-se vários depósitos deste tipo como os ignimbritos das Lajes e de Angra datados respectivamente de há 21.000 a 19.000 anos e 23.000 anos (Self, 1971, 1974, 1976, 1982; Self & Gunn, 1976; Calvert et al., 2006). Qualquer dos ignimbritos anteriores apresenta fácies soldadas típicas. No Faial, um importante ignimbrito relacionado com o episódio mais recente de abatimento da caldeira foi datado de há cerca de 1200 anos (Madeira et al., 1985; Madeira, 1998). O depósito, que se apresenta não consolidado, cobre cerca de 65 km2 (cerca de 37% da superfície da ilha), sobretudo nas encostas dos lados norte e leste, no interior do Graben das Lajes.
José Madeira
Bibl. Calvert, A. T.; Moore, R. B.; McGeehin, J. P. & Rodrigues da Silva, A. (2006), Volcanic history and 40Ar/39Ar and 14C geochronology of Terceira Island, Azores, Portugal. Journal of Volcanology and Geothermal Research, 156: 103-115. Guest, J. E.; Gaspar, J. L.; Cole, P. D.; Queiroz, G.; Duncan, A. M:; Wallenstein, N.; Ferreira, T. & Pacheco, J. M. (1999), Volcanic geology of Furnas Volcano, São Miguel, Azores. Journal of Volcanology and Geothermal Research, 92: 1-29. Madeira, J.; Monge Soares, A. M.; Brum da Silveira, A. & Serralheiro, A. (1995), Radiocarbon dating recent volcanic activity on Faial island, Azores. Radiocarbon, 37(2), 139-147. Madeira, J. (1998), Estudos de Neotectónica nas ilhas do Faial, Pico e S. Jorge: uma contribuição para o conhecimento geodinâmico da junção tripla dos Açores. Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa. Self, S. (1971), The Lajes Ignimbrite, Terceira, Azores. Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal, 55: 165-184. Id. (1974), Recent volcanism on Terceira, Azores. Tese de Doutoramento, Imperial College de Londres.
