iberismo nos Açores

É bem significativa a discussão em torno da questão ibérica na imprensa açoriana da década de sessenta do século XIX. Com efeito, em 1861, um jornal angrense publicava um poema em que o patriotismo e o anti-iberismo estão bem patentes, o que poderá também querer significar que as ideias de união ou federação peninsular circulariam já nas ilhas (cf. O Angrense, Angra do Heroísmo, 15.7.1861). Nesse mesmo sentido encontramos muitos outros artigos na imprensa regional, em que são afirmados com veemência os sentimentos patrióticos do povo açoriano e relembrados os serviços prestados à pátria em defesa da independência nacional e na resistência ao domínio filipino. Ainda assim, um jornal defensor das teses republicanas federalistas, mesmo que não defendendo abertamente a união ibérica, mostrava-se aberto à constituição de uma «república federativa», pois daí não resultaria «a mínima desonra nem o mínimo perigo» para a independência nacional (cf. O Eco Liberal, Ponta Delgada, 17.6.1869). Pode, porém, afirmar-se que as teses iberistas não cativaram a simpatia da opinião pública açoriana, servindo, antes, como despoletadoras de empoladas afirmações patrióticas publicadas na imprensa e também como motivadoras do debate acerca do futuro dos Açores, caso se verificasse a união ibérica. A questão fundamental, ponto de partida do debate jornalístico, era formulada nos seguintes termos: em caso de se tornar uma realidade a união de Portugal e da Espanha, poderiam os Açores subtrair-se-lhe? (cf. A Persuasão, Ponta Delgada, 10.2.1869). Este mesmo jornal defendia a resposta afirmativa à questão – tratando-se a federação de um contrato livremente estabelecido entre duas partes, só dos açorianos dependeria a aceitação ou denegação do acordo a tal proposta.

Havia, pois, que abrir o debate sobre o futuro político dos Açores caso se concretizasse a união ibérica. E ainda que houvesse a nítida consciência da incapacidade de o arquipélago poder vir a constituir uma nova realidade política com direito ao pleno exercício da soberania, quer assumindo-se como o legítimo depositário da soberania portuguesa, quer transformando-se em Estado independente, o certo é que desta percepção da realidade não resultaria a convicção da inevitabilidade da dependência dos Açores dos destinos do continente português, nomeadamente no contexto do futuro político peninsular em discussão. Pelo contrário: entendia-se que, em tais circunstâncias, o estatuto de protectorado, ainda que contestado por alguns, poderia ser uma das soluções para o futuro dos Açores. Outra hipótese seria a da integração das ilhas, como estado federado, na República Norte-Americana.

Que concluir, então, desta tão significativa intervenção da imprensa açoriana sobre um projecto que, além de não ter tido qualquer concretização histórica, não concitou à sua volta o mínimo entusiasmo popular?

Do que transparece dos textos, será, certamente, de levantar a hipótese de, mais do que a questão em si, se ter tratado do aproveitamento da conjuntura – marcada também pelo pessimismo sobre a situação portuguesa no contexto internacional – para dirigir fortes críticas ao esquecimento do poder central relativamente aos problemas que afectavam a sociedade açoriana – a «Metrópole portuguesa […] mesquinha madrasta dos povos açorianos» (O Independente da Terceira, Angra do Heroísmo, 17.2.1871) e da reclamação do direito de o povo açoriano se pronunciar sobre matérias de tão relevante interesse nacional, como era o caso da possibilidade de união ibérica. Carlos Cordeiro

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