hotéis
No início do século XIX, Gustave Hebbe numa visita aos Açores deixou registado que «no Fayal não há hospedaria alguma para as pessoas de certa classe (...) Os estrangeiros alugam uns máos aposentos aos particulares, mas a hospitalidade dos comerciantes lhes abre as principaes cazas da Villa». Uns anos depois (1838/1839), os irmãos Bullar passearam-se pelas ilhas e deixaram informações para quem estivesse interessado em visitá-las. Sobre alojamentos esclareciam que «há uma hospedaria em S. Miguel, Ponta Delgada, propriedade de um inglês, de nome Mason. Lá estivemos hospedados durante quinze dias, sendo muito bem tratados. É principalmente frequentada pelos capitães dos navios da laranja. As despesas são módicas: um dollar por dia e por pessoa. Há também uma pequena hospedaria dirigida por um português. Não há quartos de aluguel nem casas de hóspedes. Podem tomar-se casas de aluguel sem grande dificuldade». Em relação à Horta referiam que havia uma casa de hóspedes, propriedade de um particular, Tomás Joaquim de Castro, não havendo outros quartos nem pensões, embora fosse possível tomar casas de aluguer, mobiladas. Na viagem que Alice Baker fez ao arquipélago, cujo livro foi publicado em 1882, a autora já regista o Hotel Fayal, com acomodações aceitáveis, havendo ainda outro, o Hotel Central, pertença de portugueses, e que ambos são muito superiores aos das outras ilhas. Em relação a Angra, é bastante esclarecedora a sua descrição do Hotel Terceirense: a entrada «faz-se por um saguão que serve de taberna, cheio de barris poeirentos, lugar bafiento, azedo e mal cheiroso, com o qual, ai de nós, o resto da casa se harmoniza perfeitamente». Sobre este mesmo hotel Lyman Weeks, ironizava: «ostenta garrida e garbosa caiação de vermelho, azul e amarelo, o melhor que a arte pôde inventar». Em relação a São Miguel Alice Baker prefere não falar do Hotel Inglês, mas pode conseguir-se pensão por preços módicos em casas de famílias. Volvidos mais uns anos (1886), Kettle esclarece que em Ponta Delgada há alguma escassez de hotéis: «um inglês fará bem em ir para o de Mrs. Brown, nos Pinheiros, a 8 minutos de passeio do caes de desembarque». Mas para aqueles que «não desgostarem dos costumes portuguezes encontram bons commodos em casa do Sr. Silvano, ou no Hotel Azorean, ambos perto do caes, um pouco mais baratos». Estas são algumas das impressões de viagens feitas por estrangeiros, no século XIX, que evidenciam bem a situação hoteleira no arquipélago. Mas a mesma apreciação era feita também por açorianos nos jornais ou outras publicações. Apesar dos numerosos contactos com o mundo por razões de ordem comercial e da atracção que o arquipélago exercia sobre os estudiosos, o turismo não era ainda uma preocupação prioritária. Contudo, no final do século XIX, começaram a despertar os primeiros sinais e um certo entusiasmo acerca das possibilidades turísticas das ilhas, o que deu origem à criação, em Maio de 1899, da Sociedade Propagadora de Notícias Micaelenses que promoveu a edição de postais. A nível nacional a Sociedade de Propaganda de Portugal só foi fundada no continente, em 1906. Em finais do século XIX, empresários ingleses e alemãs entraram em contacto com autoridades locais para a instalação de hotéis, mas os projectos não se concretizaram. A própria Sociedade de Propaganda chegou a publicar anúncios na Révue des Hotels, Génova, para a construção de um bom hotel em São Miguel. As viagens de *Alberto I do Mónaco, a visita de D. Carlos, em 1901, foram momentos decisivos para que a propaganda dos Açores ganhasse algum incremento, mas foi essencialmente a partir da I Guerra Mundial que se organizaram visitas, muitas delas apoiadas por organismos regionais com objectivos propagandísticos: Leite de Vasconcelos, Raul Brandão, a «viagem dos intelectuais» em 1924, Ferreira de Castro, Maria Lamas, etc. Das suas penas saíram obras que tornaram os Açores mais conhecidos e admirados, embora as contrapartidas turísticas fossem escassas. Paralelamente, através da *Casa dos Açores, em Lisboa, fundada em 1927, iniciou-se outro tipo de propaganda no continente, promovendo as ilhas. Até à década de Trinta, os chamados hotéis nos Açores eram-no apenas na designação, dado que muitos deles não passavam de meras pensões. Com mais ou menos qualidade, encontram-se nas capitais de distrito algumas unidades que foram cumprindo a sua missão. Para Ponta Delgada, a partir de meados do século XIX, registe-se a existência dos hotéis Central, Aliança, Insular, Michaelense e o Hotel Jerónimo, nas Furnas (1854), que passou a designar-se Atlantic Hotel, em 1901. Na Horta, o Americano, o Faial, o Bostons Friends e o Silvs Hotel. Em Angra do Heroísmo, o Tercirense, o Angrense, o Brazileiro, o Central e o Açoriano. Muitos deles acabaram por não sobreviver, encerrando definitivamente ou temporariamente. Foi o caso do Hotel Faial, encerrado em 1908, para voltar a reabrir, ou o Central, em Angra, aberto em 1916, e encerrado em 1924, para voltar a reabrir. Apesar das dificuldades, nos anos Vinte constata-se algum esforço para criar unidades modernas. Foi esse o objectivo da Companhia dos Grandes Hotéis Açorianos que tentou organizar-se, em 1920, abrindo uma subscrição pública de capital em todo o arquipélago (A União, 8.3.1920). Como o projecto não passou do papel, uns anos depois algumas entidades públicas tentaram dinamizar outras iniciativas. A Câmara Municipal de Angra e a Junta Geral deliberaram, em 1927, aceitar propostas para a instalação de um hotel na cidade, contribuindo com subsídios, sem qualquer resultado. Uns anos depois (1932), coube à Junta Geral de Ponta Delgada encetar uma grande campanha pró-turismo, de que resultou a seguir a criação da Sociedade Terra Nostra (Enes, 1993). Ligada à família Bensaúde, beneficiou do apoio do Estado Novo e das possibilidades que a empresa tinha para implementar um projecto estruturante. Proprietária dos transportes marítimos que faziam a ligação às ilhas, montou um conjunto de infra-estruturas, nomeadamente em São Miguel. A partir de então, o turismo passou a estar presente com mais frequência nas páginas dos jornais e foi largamente debatido no I Congresso Açoriano, realizado em Lisboa em 1938. A legislação entretanto publicada, impunha uma série de regras mais apertadas à existência de hotéis e algumas unidades foram desclassificadas. Deste modo, até aos anos Sessenta só se manteve, em Angra, o Hotel Central; na Horta o Americano, o Central e o Hotel Faial; em São Miguel, o Atlântico, o Brown, o Central e duas novas unidades Terra Nostra, nas Furnas e na cidade. Em Santa Maria, com a construção do aeroporto, surgiu uma unidade hoteleira que foi adquirida pelos Bensaúde em 1963. Foi a partir dos anos Sessenta, que o sector prosperou com uma intervenção mais eficaz das comissões regionais de turismo e com o empenhamento do próprio Estado. Através dos Planos de Fomento, foi dada uma maior atenção ao turismo, considerando as suas vastas potencialidades, que até então não tinham tido relevância na economia do arquipélago. Deste modo, se verificou um novo impulso em São Miguel com a abertura do Hotel Infante (1962), São Pedro (1965) e o Avenida (1977). Em Angra, foi inaugurado o Hotel de Angra (1970) e, na Horta, o Hotel Faial transferiu-se para novas instalações (1973). Foi, contudo, a partir dos anos Noventa, que os hotéis se alastraram não só pelas antigas cidades como também por outras ilhas. Em São Miguel, surgiram grandes unidades hoteleiras como o Baía Palace e a Vinha da Areia, em Vila Franca do Campo; o Monte Palace, nas Sete Cidades; o Caloura, em Água de Pau; o Talisman, o Ponta Delgada, o Colégio, o Hotel/Residencial Canadiano e o São Miguel Parque, todos em Ponta Delgada. Em Angra, o Beira-Mar, o Caracol, o Terceira e, na Praia da Vitória, o Hotel/Residencial Teresinha. Na Horta, foi construído o Hotel Caravelas. Nas ilhas mais pequenas, destaque-se os hotéis Pico e Caravelas, na Madalena do Pico; o Hotel São Jorge, nas Velas; o Praia de Lobos, em Santa Maria, e o Hotel Ocidental, nas Flores. A atenção dada pelos sucessivos governos regionais à promoção do turismo, como factor fundamental para o desenvolvimento das ilhas, propiciou assim a instalação de novas unidades, apesar de serem consideradas ainda insuficientes para as potencialidades da região. Carlos Enes
Bibl. Baker, A. (1958), « Um Verão nos Açores e a Madeira de relance». Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 16: 142-81 e 17 (1959): 107-151. Bullar, J. e Bullar, H. (1986), Um Inverno nos Açores e um Verão no vale das Furnas. 2.a ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada: 429 e 433. Enes, C. (1993), «Ponta Delgada: um movimento de contestação à política do Estado Novo, em 1932-33», Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XLVIII: 507-536. Hebbe, J. G. (1982), «Descripção das ilhas dos Açores». Arquivo dos Açores, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, X: 537. Kettle, Mr. W. R., «Noticia da ilha de S. Miguel, 1886», (1982). Arquivo dos Açores, Universidade dos Açores, IX: 11-12. Weeks, L. H. (1958-1959), «Nos Açores». Insulana, XIV (1.o e 2.o e semestres): 83-124 e 235-254 e XV (1.o semestre): 49-91.
