Hospitaleiros de S. João de Deus

Em 1495, em Montemor-o-Novo, nascia um menino a quem puseram o nome de João Cidade. A pobreza dos pais não lhe permitia grandes sonhos. Aos oito anos de idade foge para Castela, pastoreia gado e aos 22 alista-se nos exércitos, mas a sua atenção viria a fixar-se nos pobres doentes. «Sentia grande pena quando via os cavalos dos nobres, gordos e luzidios bem tratados e os pobres quase nus e sem forças» (Gouveia, 1996)

Seduzido por ideais nobres funda em Granada um hospital, em 1539, que sustentava, pedindo esmolas pela rua.

A sua caridade tornou-se notória a ponto de os habitantes o terem começado a apelidar de João de Deus.

A obra cresceu e veio a tornar-se uma ordem religiosa, a Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, aprovada por Pio V em 1 de Janeiro de 1572.

A ordem espalhou-se pelo mundo e em Portugal dirige neste momento várias casas de acolhimento de doentes, salientando-se a sua acção sobretudo nos chamados doentes mentais.

O espírito da Ordem está sinteticamente expresso num parágrafo das suas Constituições: «A nossa Ordem Hospitaleira nasce […] do evangelho da misericórdia como o viveu em plenitude, S. João de Deus, que precisamente por esta característica com razão consideramos nosso Fundador.

Ele efectivamente compreendeu que o sinal mais evidente da passagem da morte para a vida é o amor dos irmãos posto em prática não só por palavras, mas também por obras e em verdade» (Constituições, 1985: 13-14).

Nos Açores, os Hospitaleiros de S. João de Deus dirigem duas casas: a de São Rafael, em Angra do Heroísmo e a de S. Miguel, nas cercanias de Ponta Delgada.

 

Casa de São Rafael

Tal como em muitas cidades os doentes mentais de Angra do Heroísmo e das ilhas centrais e ocidentais, tinham acolhimento no hospital no Pavilhão dos «alienados», onde a assistência segundo um médico da época era uma das «mais mal cuidadas».

Em 28 de Junho de 1926, o Presidente da Junta Geral de Angra, Amadeu Monjardino, solicitou os bons serviços dos irmãos de S. João de Deus, que já possuíam a casa do Telhal, no continente, e uma casa no Funchal.

A 30 de Novembro fazia-se a consagração canónica da comunidade, e a 2 de Julho de 1927 celebrava-se o acordo entre a Ordem e a Junta.

Naturalmente que desde essa data até ao presente muitas modificações se vêm dando, quer nas próprias estruturas físicas do edifício, melhor dizendo dos edifícios, e sobretudo no modo e processo de lidar com os enfermos.

Em 1957, segundo o livro Status Praesens – Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, São Rafael «é uma das casas onde a ergoterapia se encontra em pleno desenvolvimento e organização com oficinas próprias para os doentes ainda há pouco inauguradas» (Ibid: 13).

Mais nos informa o dito livro que tendo começado com 40 doentes, em 1957 subia o número a cerca de 180.

Em 1946 criou-se a secção feminina, separada da masculina.

Rende o livro uma homenagem muito gratificante ao Dr. Bartolomeu Flores «Nunca exigiu qualquer remuneração pelo seu trabalho clínico e patrocinava a casa e os seus doentes com carinho verdadeiramente invulgar» (Ibid.).

Nessa ocasião havia dez irmãos de S. João de Deus, com muitos colaboradores entre os quais se salientava o Dr. Hélio Flores Brasil, sobrinho do Dr. Bartolomeu.

Situação presente.

Como afirma Margarida Gordo em Instituto S. João de Deus, Memória 1977-2002: «nesta casa de Saúde, como em outras da Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira, continua a avançar-se, no domínio da cada vez melhor e mais humanizada assistência a pessoas com doença mental, através de serviços sempre actualizados e dinâmicos» (Ibid.: 75).

Ainda segundo a mesma autora trabalham nesta casa em 2003, 92 colaboradores, disseminados pelos diversos serviços de enfermagem, psicologias, serviço social, terapia ocupacional, medicina, administração, manutenção, pastoral social e animação.

A casa de São Rafael está inteiramente aberta à comunidade, colaborando com a sociedade em seminários, palestras e encontros de cariz científico, relacionados naturalmente com as doenças mentais.

A casa encontra-se dividida em várias «unidades», cada qual com as suas especificidades, geriatria, longo e breve internamento e neste momento dirige as suas actividades para assistência a necessidades sociais como a droga e o alcoolismo.

 

Casa de S. Miguel

No seu livro Assistência Pública no Distrito de Ponta Delgada, Urbano de Mendonça Dias traça um breve panorama do tratamento dos doentes do foro psíquico, neste distrito, mas que, sem dúvida, podemos estender a todos os Açores.

Depois de nos dizer que esses doentes eram recebidos em conjunto com outros enfermos nos hospitais existentes, faz a seguinte afirmação: «os doentes eram ali recebidos em condições muito precárias sempre a título provisório, na esperança em que todos estavam dos nossos poderes públicos tomarem conta dessa obrigação, solucionando assim um dos mais importantes problemas do Distrito» (Dias, 1940: 289).

O problema conheceu um certo avanço quando em 1910, a Junta Geral de então comprou uma propriedade, conhecida com o nome de Egipto, onde não tardaram a começar as obras do hospital dos alienados, como então se dizia. Mas vários problemas fizeram que estas demorassem mais do que o previsto e se fossem degradando por falta de uso e acompanhamento. E em 1926, apesar de gastos largos milhares de escudos, as casas estavam em ruínas e os esforços de alguns dedicados médicos como o Dr. Henrique Maria de Aguiar pareciam surtir pouco efeito.

É nestas condições, que o presidente da Junta, Luiz Bettencourt Medeiros e Câmara, propõe a entrega da casa, depois de arranjada, aos Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus.

Em 1927 é inaugurada com a vinda de 20 doentes até à data internados no hospital de Ponta Delgada.

Em fins de 1956 albergava cerca de 230 doentes e era dirigida, clinicamente pelo Dr. José Maria de Medeiros. Constituíam a comunidade 8 irmãos.

As casas sofreram diversos melhoramentos, entre os quais se salienta a construção de uma capela autónoma, dedicada a S. João de Deus

Na actualidade é directora clínica a Dra. Suzete Frias que vem exercendo uma actividade notável, não só em relação aos doentes mentais, mas também na assistência social a alcoólicos e toxicodependentes.

A comunidade é, neste ano de 2004, constituída por seis irmãos, sendo um sacerdote, 4 enfermeiros diplomados e 1 animador cultural.

Tal como em S. Rafael, são inúmeros os colaboradores «seculares», que desempenham hoje um papel determinante.

As actividades, tal como em São Rafael repartem-se por diversas actividades relacionados com o grau de doença dos internados. José M. Teixeira Dias

Bibl. Constituições da Ordem de S. João de Deus (1985). Telhal, Editorial Hospitalidade. Dias, U. M. (1940), Assistência Pública no Distrito de Ponta Delgada. Vila Franca do Campo, Emp. Tip. e Litográfica. Gordo, M. (coordenação de) (2002), Instituto S. João de Deus, Memória, 1977-2002. Telhal, Editorial Hospitalidade. Gouveia, A. (1996), Vida e Morte de S. João de Deus. Lisboa, Távola Redonda, Hospitalidade. Tomás, C. (organização de) (2002), S. Rafael, um coração que bate. Lisboa, Edições Hospitalidade.