hospitaleiras
Dá-se o nome de Hospitaleiras a um conjunto de ordens ou congregações religiosas, quase todas femininas que, tendo como meta a vivência integral da mensagem evangélica, a procuram pôr em prática através da concretização das obras de misericórdia.
Embora algumas delas se especializem numa ou outra dessas obras, de um modo geral estão patentes nas constituições dos diversos organismos a prática das obras de misericórdia espirituais como «instruir, aconselhar, consolar, confortar» e as obras de misericórdia corporais «dar de comer a quem tem fome, vestir os nus, visitar doentes e presos, sepultar os mortos».
A necessidade da implementação de determinadas obras de misericórdia fez nascer muitos desses institutos cuja acção benéfica se prolongou pelos tempos e dos quais nos restam não só os testemunhos antigos, mas também as vivências presentes. Por isso apresentamos a história do passado e a da actualidade.
Na primeira situação avulta a quantidade de conventos e mosteiros, disseminados por todos os Açores, onde era patente a prática de obras de misericórdia, como o ensino e a instrução religiosa. Por vezes, a oferta de comida aos mais desprotegidos da sorte era também prática seguida.
Agregadas a esses conventos e colégios encontramos organizações conhecidas como ordens terceiras, no caso franciscano, ou confrarias, ligadas aos jesuítas, cujas metas se inserem plenamente na prática das referidas obras. Avulta quer numas quer noutras, o espírito de entreajuda de cariz espiritual e em muitos dos estatutos a oração pelos defuntos e o seu acompanhamento à última morada eram obrigatórios. Muito raramente, também poderiam socorrer «materialmente» os irmãos ou confrades, pois estas necessidades estariam cobertas pelas misericórdias, existentes nas grandes povoações.
É no entanto nas épocas mais próximas de nós que vamos encontrar organismos que se dedicam fundamentalmente a práticas de obras de misericórdia.
Deixando de lado a instrução ministrada ainda em alguns colégios como o de Santa Clara na ilha Terceira, dedicam-se essas congregações essencialmente às práticas de obras de misericórdia corporais.
De entre as congregações hospitaleiras cuja acção se estende aos Açores duas merecem especial atenção.
São elas a Congregação das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada Conceição e as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus.
Congregação das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada Conceição
É uma emanação das ordens terceiras de S. Francisco.
Foi fundada pelo Padre Raimundo dos Anjos Beirão, nascido em Lisboa a 8 de Março de 1810 e falecido na mesma cidade no convento das Trinas, a 12 de Julho de 1878 e pela irmã Maria Clara do Menino Jesus, conhecida na vida secular como Libânia do Carmo Mexia Galvão Teles de Albuquerque, nascida em Lisboa a 15 de Julho de 1845 e falecida na mesma cidade a 1 de Dezembro de 1899.
O primitivo nome da futura congregação foi o de Associação das Irmãs Hospitaleiras dos Pobres por Amor de Deus, aprovada pelo Governo Civil de Lisboa a 22 de Maio de 1874. Adopta o nome de Congregação Religiosa de Terceiras Franciscanas, quando é aprovada pela Santa Sé em 27 de Março de 1876. Hoje é conhecida como Congregação das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada Conceição.
Com o desenvolvimento que teve dividiu-se em várias províncias e sub-províncias.
Segundo as suas Constituições, aprovadas em 1990 «A Congregação das Irmãs Hospitaleiras da Imaculada Conceição é uma família religiosa na qual se faz profissão, perante a Igreja, de observar o Santo Evangelho segundo a Regra e Vida dos Irmãos e Irmãs da Terceira Ordem Regular de S. Francisco» (Constituições, 1990: 18).
A finalidade da vida desta congregação está patente no artigo seguinte: «acolher e servir todos com dedicação e amor, vendo em cada irmão o próprio Cristo» (ibidem, 1990: 20).
As Hospitaleiras da Imaculada Conceição estão nos Açores desde 8 de Julho de 1929. No entanto já antes dessa data, como nos informa Rema (1976, II), no Conselho Geral de 1908, se tinha apreciado um pedido da vinda de irmãs para São Miguel, que não pôde ser atendido por falta de pessoal.
Chegaram em 1929 e a sua benéfica acção estendeu-se a asilos, orfanatos, hospitais e colégios. Foram durante algum tempo uma sub-província, mas nos tempos mais próximos foram elevadas à categoria de província.
Podemos enumerar, segundo o livro atrás mencionado a existência de hospitaleiras da Imaculada Conceição em diferentes hospitais de Ponta Delgada e Povoação em São Miguel, hospital da Misericórdia, na Horta, de Santa Cruz na ilha Graciosa e no de Velas em São Jorge.
Além desses hospitais dirigiam dois colégios, o de Santa Clara, no Pico da Urze, em Angra do Heroísmo e o Colégio/Casa da Infância de Santo António, na cidade da Horta.
Como casas de acolhimento social, quer como asilos de idosos ou da infância desvalida temos o já mencionado colégio de Santo António, bem como a casa de São José na Candelária do Pico, a casa de Nossa Senhora do Livramento e enfermaria Abrigo, em Angra do Heroísmo, a casa de Repouso nas Velas, ilha de São Jorge, e o Lar de S. Francisco na cidade da Horta. O número de irmãs residentes em cada uma dessas instituições é sempre variável de acordo com a disponibilidade de pessoal que se torna sempre pouco para acorrer a todas as necessidades.
As reformas que se vêm verificando na sociedade e na própria Igreja trouxeram também adaptações aos institutos religiosos com as consequências nos nomes, que não no espírito.
Assim as Irmãs Hospitaleiras da Imaculada Conceição reorganizaram-se e os Açores constituíram uma província com várias «fraternidades», nome comum às diferentes casas onde habitam e de onde irradia a sua prática de obras de misericórdia.
Segundo dados fornecidos pela irmã Elvira Maria Berbereia Toledo, superiora do Colégio de Santa Clara, a situação é a seguinte.
Há presentemente, em 2004, na província dos Açores 81 irmãs divididas por 10 «fraternidades», espalhadas por 5 ilhas, distribuídas do seguinte modo.
Na Ilha Terceira existem três fraternidades, todas elas na cidade de Angra do Heroísmo. A de S. Francisco, sede da Cúria Provincial, acolhe ainda a pastoral paroquial e diocesana, sendo também local de acolhimento para idosas e doentes e encontros de formação. Vivem aí 36 irmãs. A da Mãe Clara serve para formação das aspirantes e conta com 4 residentes. A de Santa Clara, com 9 irmãs é o colégio do mesmo nome, que, além de alunas do 1.o e 2.o ciclos do ensino básico, acolhe ainda a obra social Madre Maria Clara.
Em São Jorge há duas fraternidades, ambas na vila das Velas. A de S. José é um centro de saúde pastoral social e paroquial e nela vivem 4 irmãs. Na de Nossa Senhora do Carmo albergam-se idosos e conta com 5 irmãs.
Na ilha do Pico encontram-se duas fraternidades. Na Madalena, a de Santa Maria Madalena é um lar de idosos e vivem nela 4 irmãs. Na freguesia da Candelária há um centro de acolhimento para crianças e também de pastoral social e paroquial. Encontram-se nesse centro 7 irmãs.
Na ilha do Faial e na cidade da Horta encontramos duas fraternidades. A de Nossa Senhora da Conceição é um lar de idosos, e as irmãs que nele habitam são também professoras de moral na escola básica e praticam igualmente pastoral social e paroquial. Todo este trabalho é desenvolvido por 3 irmãs. Na de Santo António, antigo colégio, 4 irmãs, aí residentes, dedicam-se a jovens em risco e à pastoral social e paroquial.
Finalmente na ilha de São Miguel há somente 1 fraternidade, na vila da Povoação. As cinco irmãs dedicam-se à educação moral nas escolas, coadjuvando na pastoral social e paroquial.
Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus
Foram fundadas por S. Bento Menni (1841-1914) sacerdote italiano da Ordem de S. João de Deus, em 1881. Em 1884 entram em Portugal e em breve se espalharam pelas diferentes dioceses do país. Hoje estendem-se por todos os continentes, exceptuando o australiano.
Aos Açores chegaram em 1967, para a casa de S. Rafael, nos subúrbios de Angra de Heroísmo.
A sua actividade inicial esteve ligada às doenças mentais, mas hoje expandem-se por diversas valências nas duas casas que gerem nos Açores: a casa de saúde do Espírito Santo, em Angra do Heroísmo, e a de Nossa Senhora da Conceição, em Ponta Delgada.
O espírito destas actividades está bem expresso nas palavras da Irmã Emília Nogueira, superiora religiosa da casa de Angra «Por força do seu Carisma ser transparência da Misericórdia do Coração de Jesus junto dos pobres e necessitados, particularmente por pessoas afectadas por doenças do foro psíquico acolhe nas casas que tem espalhadas por todo o mundo, muitos milhares de pessoas portadoras dessas patologias».
Ou ainda esta outra faceta explicitada pela mesma superiora: «procura-se rentabilizar ao máximo os escassos recursos económicos, para enriquecer os quadros de pessoal, melhorar as instalações, etc. etc., com o fim de tornar eficientes cada vez mais os cuidados que prestamos e humanizar as condições de vida das pessoas assistidas, que são O CENTRO DE TODA A ATENÇÃO E PREOCUPAÇÕES, assim como promover a justiça com os colaboradores».
Casa da Saúde do Espírito Santo
A vinda para a Terceira das Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus ocorreu no ano de 1967. Até essa data as doentes mentais, passado aquele período em que eram tratadas em conjunto com outros doentes, estavam aos cuidados dos Irmãos Hospitaleiros da S. João de Deus, que acumulavam o tratamento dos homens com os das mulheres, embora os cuidados às doentes fossem prestados por senhoras.
A vinda das irmãs possibilitou a separação em duas casas, vivendo na mesma quinta.
A casa de Saúde do Espírito Santo é constituída hoje por uma comunidade de seis irmãs, sendo três enfermeiras, uma educadora social, uma auxiliar de enfermeira e uma professora. Além deste grupo há muitos leigos colaborantes: psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de reabilitação física, educadores sociais, monitores vários e pessoal auxiliar.
Todos estes serviços actuam por equipas multidisciplinares cujo objectivo principal se pode sintetizar na «prevenção, cura e reabilitação».
A colaboração com diversas entidades ligadas de algum modo à área da saúde é também um facto marcante. Assim oferecem-se estágios a alunos da Escola de Enfermagem de Angra, ou da Animação Cultural, bem como de Secretariado. Os alunos da Escola Básica, necessitados de consulta nestas áreas da saúde mental, encontram aí também um centro de apoio.
Durante algum tempo, e por protocolo com outras instituições governamentais e apoio monetário do Fundo Social Europeu, foram desenvolvidos cursos de marcenaria, pintura, cozinha, artesanato, (tapeçaria e empalhamento), dirigidos sobretudo a pessoas com desvios comportamentais e das classes mais desfavorecidas da Ilha Terceira.
Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição
Desde 1943 que as doentes mentais eram tratadas na casa de S. Miguel, dos irmãos hospitaleiros de São João de Deus, embora por pessoal feminino preparado para tal.
Em 1966 chegaram as Irmãs do Sagrado Coração, e pensou-se em autonomizar a sua actividade. Para isso foi construída uma casa situada nas cercanias de Ponta Delgada, nos Arrifes.
Iniciou a sua actividade em 1973.
Insere-se nos mesmos objectivos já traçados para a Casa de Saúde do Espírito Santo de Angra do Heroísmo.
A comunidade religiosa é composta por nove irmãs que desempenham os diversos ofícios: assessora, chefe de secretaria, assistente espiritual, auxiliar de serviços gerais, chefe de escritório, encarregada de unidade, enfermeira supervisora e duas chefes de enfermagem.
Como na casa de Angra do Heroísmo muitos são os colaboradores, desde psicólogos a médicos, enfermeiros e diverso pessoal.
Igualmente mantém protocolos de colaboração com várias entidades e presta serviço de assistência a toda a ilha de São Miguel e Santa Maria.
Tem capacidade para 175 enfermas, distribuídas por seis unidades, umas de internamento breve, outras para médio e longo internamento.
A Directora desta casa é uma não religiosa, a Dra. Raquel Coelho, que teve a amabilidade de fornecer todos estes dados. José M. Teixeira Dias
Bibl. Constituições das Irmãs Franciscanas hospitaleiras do Imaculado Coração (1990). Braga, C.I.F.H.I.C. Rema, H. P. (1976), Crónica do Centenário da Congregação das Irmãs Hospitaleiras do Imaculado Coração. Braga, Edições Franciscanas.
