hospitais
Os hospitais, como instituições de assistência, tanto foram fundados por iniciativa régia, como por pessoas particulares, Câmaras Municipais, confrarias, etc. Sobreviveram com apoios oficiais, mas essencialmente foram as doações de particulares, através de esmolas em vida ou de legados expressos em testamento, que os sustentaram. A partir do século XIX, com o regime liberal, a assistência passou a ser encarada como uma função do Estado, embora tenha continuado a ser exercida por outras entidades. Nos Açores, a assistência hospitalar foi na sua quase totalidade exercida pelas Misericórdias, passando o Estado a contribuir para a sua manutenção, bem como as Câmaras Municipais e as Juntas Gerais Autónomas. Após o «25 de Abril», os hospitais passaram para a área da Secretaria Regional da Saúde, pelo que foram submetidos a uma reestruturação. Em 1994, existiam três hospitais, Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, 16 centros de saúde, dos quais três sem internamento, e 99 postos de saúde. Ou seja, os antigos hospitais dos diversos concelhos das ilhas, foram transformados em centros de saúde. Naquela data, os três hospitais tinham uma lotação de 619 camas e o número de internamentos rondou os 150 mil. Nas consultas externas foram atendidas 111 mil pessoas e na urgência 106 mil. A lotação de camas nos centros de saúde, com internamento, era de 339, o número de internamentos atingiu os 60 mil e as urgências rondaram os 13.500. Nos centros que não possuem internamento, foram atendidas em urgência 15 mil pessoas e realizadas 150 mil consultas. No total destas unidades hospitalares, trabalhavam, em 1994, 3.266 funcionários, das mais diversas categorias, dos quais 356 eram médicos e 746 enfermeiros. Apesar das melhorias registadas nos últimos anos, em instalações e número de funcionários, continuam a não existir muitos serviços especializados nos Açores nem meios para realizar determinado tipo de intervenções. Por isso, os doentes são enviados para o continente, com o apoio dos serviços sociais da região.
Numa breve resenha sobre os hospitais existentes nas ilhas, constata-se que as Misericórdias desempenharam um papel fundamental ao longo dos séculos. As Misericórdias, como confrarias de assistência pública, foram instituídas em Portugal por Frei Miguel Contreiras, sob o patrocínio de D. Leonor, mulher de D. João II, com fins diversificados, entre os quais a assistência aos presos e condenados, tratamento dos enfermos nos respectivos hospitais ou assistência no domicílio. Lutando sempre com enormes dificuldades, geriam o património que ia sendo legado, mas recorriam também a peditórios, cortejos de oferendas e outros meios para conseguirem prestar condignamente os serviços à população. Nalguns casos, foram elas as fundadoras dos hospitais, noutros a existência de um hospital levou à criação de irmandades para os gerirem.
Na Terceira, foi fundado o Hospital de Santo Espírito, em Angra, a 15 de Março de 1492, sendo gerido por uma irmandade do Espírito Santo. A Misericórdia, criada em 3 de Agosto de 1508, só em 1556 tomou conta do hospital, que foi protegido por D. João II e lhe deu privilégios semelhantes a outros do país. Até 1833, esteve instalado num edifício junto à Alfândega, mas com a extinção do convento das religiosas da Conceição, naquela data, passou a ocupar as novas instalações. Nos finais do século XIX, possuía 8 enfermarias, com 120 camas, enfermarias para inválidos, 9 quartos particulares, pequena sala de operações e farmácia. O movimento anual de entradas e saídas não atingia as 500 pessoas. O grande suporte deste hospital foi durante muitos anos o contributo da *Caixa Económica da Misericórdia de Angra. Permaneceu no antigo convento da Conceição até ser construído um novo hospital em 1961, muito mais amplo, mas que se revelou exíguo para o crescimento constante dos utentes. Tem sofrido várias remodelações, estando projectado um novo hospital, já em fase de concurso. Em Angra foi fundado antes de 1644, o Hospital Militar da Boa Nova, próximo da fortaleza de São João Baptista. Foi reformado em 1766, com enfermarias para os diversos escalões da hierarquia militar, e esteve em funcionamento até 1937, passando apenas a uma enfermaria que esteve em exercício até 1956. Um outro Hospital Militar foi instalado na freguesia da Terra Chã, em 1943. Na altura prestava também assistência às forças militares inglesas e americanas da Base das Lajes, passando a Hospital da Base Aérea 4. Funcionou até aos anos 70, com algum movimento no período da *Guerra Colonial. Em Angra, existiu também o chamado Hospital do Isolamento, fundado pela Junta Geral, em 1908, por ocasião da peste bubónica que grassou pela ilha. Passadas as várias epidemias, foi gradualmente alterando as suas funções prestando assistência aos tuberculosos. Na Praia da Vitória, o hospital terá sido erguido por volta de 1499, por Gonçalo Vaz Homem, com administração a cargo da Câmara Municipal, tendo sido transferido para a Santa Casa da Misericórdia, em 1521, quando esta se constituiu. Em 1833, foi doado o convento da Luz para substituir as velhas instalações. Em 1840, já estava adaptado para esse fim, mas um sismo ocorrido na Praia, em 1841, danificou as novas instalações. Voltou, por isso, às primitivas instalações, menos atingidas. Com menores dimensões do que o de Angra, tinha apenas uma enfermaria para cada sexo, uma pequena sala de operações, serviço de banco e farmácia. O serviço de Raio X, começou a funcionar em 1937, com um aparelho oferecido pelos irmãos Goulart, bem como o apetrechamento para um pavilhão de tuberculosos. Em 1962, os americanos, através do programa People To People, ofereceram um novo aparelho de Raio X. No ano seguinte, foi inaugurado um bloco operatório com melhores condições. Foi o primeiro hospital da região a fazer o uso do clorofórmio, em 1857. Foi transferido para um novo edifício, em 2002, onde se instalou o Centro de Saúde da Praia. Na mesma vila existiu também o Hospital dos Lázaros, criado em 1520 por Gonçalo Vaz Homem, que esteve dependente do Hospital de Angra até 1565, altura em que lhe foi dado regulamento próprio.
Em São Miguel, o mais antigo hospital foi erguido em Vila Franca do Campo, antes de 1483, por um legado de Isabel Gonçalves, a que se seguiu depois a criação da Misericórdia. O de Ponta Delgada terá surgido um pouco antes de 1513 e o da Ribeira Grande, por volta de 1538, ligados às respectivas misericórdias, cujas datas de fundação são desconhecidas. Os das vilas do Nordeste e Povoação são mais recentes. O primeiro foi criado em 1912, formando-se ao mesmo tempo uma irmandade para o gerir. Só ficou instalado em casa própria em 1928, num edifício cedido pela Câmara. O segundo foi fundado em 1930, juntamente com a Misericórdia, iniciando a actividade dois anos depois. Beneficiou da criação de uma Caixa Económica que lhe proporcionou alguns rendimentos. O Hospital da Maia, foi uma iniciativa do médico Guilherme Fraga Gomes, natural da Madeira. Em 1919, constituiu-se uma comissão para promover a construção do hospital que viu lançada a primeira pedra em 1943 e ficou concluído em Setembro de 1944. Em 1946, a Santa Casa da Misericórdia da Maia comprou a farmácia. Recentemente, o edifício foi remodelado, e transformado para outros serviços: Casa do Povo, serviço materno-infantil, serviços médicos sociais, creche, jardim de infância e lar da terceira idade. Nas Furnas também existiu um pequeno hospital, nos finais do século XIX, para doentes pobres, devido à beneficência micaelense, mas só funcionava nos meses de Julho e Agosto. De todos eles, o de Ponta Delgada foi o mais importante. Até 1837, esteve instalado no local duma casa onde havia nascido Margarida *Chaves, passando depois para o convento de São Francisco. Naquela altura ostentava o nome de João Francisco Cabral, um benemérito micaelense, enriquecido no Brasil. Sujeito a obras por volta de 1860, possuía então 6 enfermarias, com 300 camas e uma média anual de 3 mil enfermos, tendo o serviço de banco atendido, em 1862/1863, cerca de 2.300 indivíduos. Em 1896, foi inaugurada a casa de operações Conde Jácome Correia, em 1898 o gabinete de radioscopia, criado pelo Barão da Fonte Bella, e, em 1924, o instituto de radiologia. Possuía, ainda um gabinete de bacteriologia e uma instalação hidroterapêutica. Foi remodelado em 1966, mas um novo hospital foi construído de raiz no final do século XX, com o nome de Hospital do Espírito Santo. O internamento de alienados era feito inicialmente em hospitais com essa designação. O de Ponta Delgada, é anterior a 1910, mas a Junta Geral adquiriu nessa altura os terrenos da propriedade Egipto, para o instalar condignamente. A partir de 1928, passou a ser gerido pela irmandade de São João de Deus, como aconteceu em Angra do Heroísmo (ver Casas de Saúde).
Em Santa Maria, o hospital é anterior a 1569, anexo à Misericórdia, cujos estatutos foram aprovados em 1609. Nas Flores, o Hospital da Misericórdia, em Santa Cruz, foi instituído por testamento de António Vicente Peixoto Pimentel, em 1878. Instalado no antigo convento de São Boaventura, sofreu remodelações em 1945 e 1969. Nas Lajes das Flores, existe um posto clínico desde 1962. No Pico, a Santa Casa da Misericórdia da Madalena foi criada em 1956 e o hospital entrou em funcionamento em Junho de 1959. O de São Roque foi aberto 1955, com serviço de urgências em 1977. Nas Lajes, embora a Misericórdia seja de 1592, o hospital só existe desde 1960. No Faial, a Santa Casa foi fundada por volta de 1520, conjuntamente com um hospício. Em 1835, o hospital foi transferido para o convento franciscano, que sofreu um incêndio em 1899, pelo que foi obrigado a mudar de instalações. Neste hospital, em 1873, para além de quartos particulares, havia enfermarias para estrangeiros, com 21 camas, cujos preços eram mais elevadas dos que eram cobrados aos portugueses. Após o incêndio construiu-se então um novo hospital, em várias fases, ficando concluído em 1908. Em São Jorge, a Santa Casa da Misericórdia das Velas foi fundada em 1543 e o respectivo hospital, instituído por Beatriz de Melo, em 1682. Foi instalado no convento franciscano em Outubro de 1848, sofrendo várias remodelações no período do Estado Novo, sendo a última em 1970. Na Graciosa, a Misericórdia de Santa Cruz data de 1557 e o hospital foi fundado em 1600 pelo capitão-mor Manuel Quadros Machado; na Praia, a Misericórdia surgiu por volta de 1639, a que se seguiu a instalação do hospital. Um hospital com a categoria sub-regional foi inaugurado a 21 de Maio de 1960, passando depois à categoria de centro de saúde. Carlos Enes
Bibl. Açores Situação socioeconómica, 1994, DREPA 8/96. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública. Dias, U. M. (1940), A assistência pública no distrito de Ponta Delgada. Vila Franca do Campo, Empresa Tip. Lda. Gomes, F. (1997), A Ilha das Flores: da resdescoberta à actualidade (subsídios para a sua história). Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores. Merelim, P. (1974), As 18 Paróquias de Angra sumário histórico. Angra do Heroísmo, Tip Minerva Comercial. Id. (1983), Freguesias da Praia. 2.o volume. Angra do Heroísmo, Direcção Regional de Orientação Pedagógica da Secretaria de Educação e Cultura. Monterey, G. (1979-1981), 5 guias sobre as ilhas dos Açores. Porto, Edição do Autor. Sampaio, A. S. (1904), Memória sobre a ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Imprensa Municipal.
