horticultura

É a ciência e a arte de cultivar plantas para fins medicinais, para serem usadas na alimentação ou para ornamentação. A prática de horticultura teve o seu início em vários pontos da terra e em épocas diferentes. O Novo Mundo, foi uma das zonas do planeta, onde teve início a cultura de produtos hortícolas para a alimentação, mas, entre a introdução de uma cultura e outra, mediaram por vezes milénios. Exemplificando, a cultura de abóboras, feijoeiros e pimenteiros teve início por volta de 7.000 A.C., enquanto que a cultura do milho só se verificou por 2.500 A.C.. Outro núcleo importante de produção de alimentos teve início na China, junto do Rio Amarelo. Provavelmente outras zonas menos importantes ter-se-ão localizado noutras regiões. Os sacerdotes do velho Egipto, escreveram em papiro listas de plantas, principalmente medicinais mencionando o nome e os fins para que se poderiam utilizar. Na biblioteca do rei Assurbaníbal, que reinou na Assíria de 669 a 626 A.C., também existiram registos de plantas e das respectivas drogas, em placas de argila, semelhantes aos do Egipto. Mas, o estudo científico do reino vegetal só teve início na Grécia com Teofrasto (370-286 A.C.). Foi discípulo de Aristóteles, e, também o seu melhor amigo e colaborador. A ele se deve a divisão das plantas em árvores, arbustos, subarbustos e ervas. Ensinou no Lyceum que possuía biblioteca, museu e jardim. Os seus escritos estavam redigidos em grego, e, só no Renascimento foram traduzidos para latim. Por essa razão se atravessou toda a Idade Média na Europa acreditando que só existiam as plantas enumeradas pelos romanos Plínio e Dioscórides, ignorando os estudos dos gregos. As viagens dos portugueses e espanhóis puseram definitivamente fim a estas crenças e trouxeram ao conhecimento dos europeus numerosas plantas úteis. Não só recolhiam e transportavam sementes, raízes, flores e plantas nos seus barcos, como introduziram a cultura de numerosas plantas úteis noutros climas em que se tornou possível a sua adaptação. Garcia d’Orta assumiu uma posição relevante nos trabalhos de horticultura no Renascimento. A 10 de Abril de 1563 publicou em Goa o livro a que atribuiu o título Colóquios dos simples, drogas he cousas medicinais da India e assi dalguas frutas achadas nella onde se tratam alguas cousas tocantes a medicina pratica, e outras cousas boas para saber. Talvez por o título ser tão longo, esta obra é geralmente conhecida por Os Colóquios, designação pela qual passamos a fazer-lhe referência. A propósito de descobertas importantes no século XVI, relacionadas com a Horticultura afigura-se-nos pertinente relatar os seguintes factos: nas ilhas dos Açores, então recentemente povoadas, o trigo, foi inicialmente a cultura predominante. Os agricultores a determinada altura viram-se em sérias dificuldades. As terras cansadas, davam magríssimas produções de trigo. Gaspar Frutuoso (Saudades da Terra) dá-nos a imagem da situação então vivida: «Um Barão Fernandes que morava à Grota de João Bom, entre os Mosteiros e a Bretanha, no ano de 1550, pouco mais ou menos, foi o primeiro que inventou ou começou a atremoçar a terra, depois que enfraquecia, semeando os tremoços ao redor da sua seara de trigo, junto dos caminhos em uma leira ou carreiro deles, como nesta ilha costumaram depois muitos», mais adiante continua «depois deste homem, veiu um de Portugal, chamado Lopo Pessôa, o qual inventou os tremoços para proveito das terras, vendo que onde se semeavam um ano, para o ano seguinte lhe dava ali trigo forte e melhor». Na verdade, este hábito de «atremoçar» as terras estendeu-se ainda pelo século XX, e a ele se deve a manutenção da fertilidade das terras dos Açores. Resta indagar se teria sido uma invenção, ou uma prática já utilizada noutros lugares e introduzida em S. Miguel, de onde se teria estendido às restantes ilhas. De qualquer forma, o valor desta introdução permanece, principalmente quando pensamos que se efectuou há mais de 450 anos e a extraordinária ajuda que representou, durante perto de meio milénio, para os habitantes deste arquipélago. Representa também a compreensão e aplicação, numa época tão recuada, da rotação de culturas, ainda hoje, uma prática agrícola essencial e que se foi alargando, nestas ilhas, com a introdução de outras culturas como o linho, a fava e outros legumes, na rotação, como descreve o mesmo autor.

Um factor que foi determinante no desenvolvimento da horticultura, foi a criação dos Jardins Botânicos. O primeiro de Portugal deveu-se ao Marquês de Pombal. Nos Estatutos Pombalinos ficou lavrado «além do Gabinete de História Natural instale-se no lugar que se considere mais próprio, um Jardim Botânico onde se cultive todo o tipo de plantas». O lugar escolhido foi Coimbra e inicia os trabalhos Domingos Vandelli. O seu sucessor foi Felix de Avellar Brotero nessa época refugiado em Paris, fugindo às perseguições religiosas, onde publicou o seu Compêndio de Botânica. Regressando a Portugal foi nomeado professor de Agricultura e Botânica na Universidade de Coimbra. Continuou os estudos das plantas a que se dedicara desde muito jovem, dos quais resultou a publicação da Flora Lusitânica (1804), e outros trabalhos notáveis. A instalação do jardim ficou a dever-se ao seu saber e empenhamento. Uma bela estátua de mármore, no Jardim Botânico de Coimbra, recorda a sua memória. Não podemos falar de horticultura, sem recordar o nome José do Canto (1820-1898). Nascido em Ponta Delgada, filho segundo do morgado José Caetano Dias do Canto Medeiros e da sua primeira mulher D. Margarida Isabel Botelho. Em 1842 casou com D. Maria Guilhermina Taveira Brum da Silveira, herdeira das vastas propriedades nas ilhas do grupo central. Excelente administrador Dispunha de largos meios que lhe permitiram alimentar a sua paixão pelas plantas e realizar um trabalho de aclimatação de plantas exóticas, verdadeiramente notável. As viagens, as prolongadas estadas em Paris, os conhecimentos de botânica, o gosto artístico e uma grande capacidade de trabalho, foram também contributos essenciais para o êxito dos seus trabalhos. No jardim de Santana, em Ponta Delgada, instalou uma estufa para aclimatação de plantas, contratou jardineiros recrutados nos jardins botânicos e nos melhores viveiristas da época. Em 1856, José do Canto sob o título Enumeração das principais plantas existentes no meu jardim de Santana indica 6.000 espécies. Estabelece contactos com os directores dos jardins botânicos de então, e com as diversas sociedades de aclimatação espalhadas pelo Mundo. A Sociedade Imperial de Aclimatação de Paris publica em 1868 o catálogo do seu Jardim Experimental. Nos Serviços de Biblioteca e Arquivo dos Reais Jardins Botânicos de Kew, existem onze cartas de José do Canto dirigidas a Joseph Dalton Hooker (1877-18881). Este apaixonado pela horticultura, tinha a noção real da importância dos jardins botânicos, e resolve dar apoio ao Jardim Botânico de Coimbra e ao Jardim Botânico da Faculdade de Ciências, oferecendo generosamente plantas exóticas da sua colecção particular o que considerou correctamente como «um serviço público e nacional» em carta particular de José do Canto para Jácome Correia, de 9 de Agosto de 1866. Envolveu-se na contratação de um novo jardineiro para Coimbra, aconselhado por Decaisne do Jardim de Plantas de Paris. Assim, foi contratado para Coimbra em 1866, Edmond Goeze, nessa altura ao serviço do Kew Garden. Nesse mesmo anno, Goeze, partiu para S. Miguel «para recolher os donativos de plantas que alguns cavalheiros da ilha resolveram prestar». O director do Jardim Botânico de Coimbra regista: «Quatro foram os cavalheiros que naquela ilha prestaram serviços ao jardim botânico: José do Canto, António Borges da Câmara, José Jácome Correia e Ernesto do Canto. O primeiro cedeu do seu jardim novecentas e tantas plantas e destas oitocentas espécies, dando além disso 16 grandes caixões que não deveriam custar menos de oitenta mil réis e todas as despesas de empacotamento». De Santana saíram também algumas espécies para o Parque da Pena, oferecidas ao príncipe consorte D. Fernando que as considerou «um presente de príncipe: uma grande quantidade de plantas raras, avultando as do chá». Do seu arquivo constam centenas de notas de encomenda feitas aos viveiristas de Londres, Paris, Bruxelas ou Gand, facturas e guias de remessa que comprovam os envios de plantas; correspondência trocada com jardineiros, arquitectos, directores de jardins botânicos e sociedades de aclimatação ... Todas as espécies estavam devidamente identificadas e a sua origem constava da documentação. A sua biblioteca de cerca de 18.000 títulos permite-nos compreender os seus interesses e preocupações, as suas fontes de informação e até o extraordinário trabalho desenvolvido. Ainda hoje, quando se contemplam as árvores do jardim de Santana, plantadas no tempo de José do Canto, não podemos deixar de admirar o seu desenvolvimento correcto, assumindo a forma natural da espécie, as plantas raras, o bom gosto e saber na implantação, cada uma no local mais adequado, e não podemos deixar de pensar que naquele tempo, aquele jardim, foi na verdade um jardim botânico, que conduziu ao amor pelas plantas, a sua geração, e continua a ser fonte de inspiração, até ao presente, auxiliou os principais jardins do país e efectuou-se um trabalho de investigação notável, uma vez que além da adaptação de tantas espécies ornamentais, e plantas úteis, ali se estudou também o tipo de estufa a usar na cultura do ananás e a cultura do chá. Foram esses estudos que permitiram lançar com êxito essas duas culturas, quando terminou a exportação da laranja. Contribuições notáveis para o desenvolvimento da Horticultura em Portugal no século XX: António Xavier Pereira Coutinho (1913) publicando A Flora de Portugal; João de Carvalho e Vasconcellos com a publicação de numerosos e valiosos trabalhos de botãnica; João do Amaral Franco em 1971 publica o primeiro volume de A Nova Flora de Portugal (Continente e Açores), actualmente já alargada a cinco volumes. Com o apoio financeiro das entidades regionais surgem publicações do maior interesse. Ruy Telles Palhinha deixou os apontamentos que deram origem à publicação Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores em 1966; Edição da Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves, subsidiada pelas Juntas Gerais dos Distritos Autónomos de Ponta Delgada e Angra do Heroísmo; de Erik  Sjogren publicou-se Açores Flores com boas ilustrações e textos em quatro línguas, edição da Direcção Regional de Turismo,  recentemente editada; Iconographia Selecta Florae Azoricae, elaborada pela Sociedade Broteriana e com o apoio do Museu, Laboratório e Jardim Botânico da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, editada pela Secretaria Regional de Educação e Cultura. Esta obra publicada em fascículos, alargou o número de espécies iconografadas, da vegetação dos Açores de quinze para oitenta e duas, e, além dos primorosos desenhos, reúne a investigação botânica, a descrição, a ecologia, distribuição nos Açores e área geográfica, ou seja, um conjunto de informação ímpar que só se pode desejar ver alargado a um maior número de espécies. A Universidade dos Açores, através do Herbário, em parte herdado de Fernando Coderniz Fagundes, alargado e cuidado por Eduardo Dias e a teses de Doutoramento vem contribuindo também para o aprofundamento dos estudos das Ciências Hortícolas [veja-se também a entrada ciências hortícolas].

A horticultura como arte, tem a sua expressão mais elevada nos jardins e tem raízes muito antigas. A partir de 4.000 A.C., foram-se escolhendo e reunindo plantas ornamentais em jardins, dos quais ficaram para sempre famosos os jardins suspensos da rainha Semiramis em Babilónia. Nos jardins orientais a natureza foi física e visivelmente emoldurada por uma parede rectangular e atribui-se-lhes a designação «pairi-daeza» do persa antigo que significa um lugar fechado, donde derivou a palavra grega «paradeisos» com o significado de parque ou parque animal, que deu origem a «paraíso». Os jardins orientais diferiam apenas no tipo e no grau de artifício. Na antiga Pérsia o jardim era dividido em quatro partes iguais por cursos de água artificiais, muito próxima do Jardim do Paraíso, descrito na Bíblia Sagrada. O jardim japonês é considerado como um cenário natural criado pelo homem. Os árabes, deixaram em Espanha, junto do palácio e fortaleza de Granada, última residência real na Europa, um jardim cujos jogos de água, todos conseguidos por gravidade, provam a mestria daquele povo e conseguem uma frescura e beleza, inexcedível até aos dias de hoje. Outro tipo de jardim que continua a ser famoso é o «jardin à la française», que teve a sua origem em Île-de-France. A fama do jardim clássico francês espalhou-se por todo o mundo e influenciou a arte de jardinagem até aos nossos dias. Pode ser muito variado, mas conserva-se clássico e romântico. A Inglaterra também criou o seu jardim romântico, bastante semelhante à linda paisagem natural da Grã-Bretanha. Associado a este jardim veio o «mixed border», ou seja, um canteiro repleto de flores e folhagem, harmonizando-se quer pelo seu porte, dando o efeito de um cenário, quer pelo conjunto de cores. Misturam-se plantas vivazes e anuais, por forma a conseguir durante todo o ano colorido, folhagem e flores. É tão despretensioso e simples que bem se adapta à vida moderna, donde resulta talvez a sua popularidade. Merece também especial referência «o jardim português» citado em todos os bons livros de jardinagem pela sua beleza, e pelos seus azulejos, únicos nos jardins de todo o mundo. Destacaremos – a Quinta dos Azulejos, situada em Lisboa, no Lumiar. Muitos outros jardins no Norte e no Sul do país, demonstram o gosto dos portugueses pela jardinagem. Para terminar esta breve digressão pelos jardins de Portugal, desejamos fazer uma referência a jardins da Madeira, com especial destaque para a Quinta Palheiro-Ferreiro, onde se cultivaram pela primeira vez próteas em Portugal, e para o Jardim Botânico, onde além de um ambiente aprazível, podemos admirar plantas raras e lindas paisagens.

Nos Açores, na ilha de S. Miguel, temos que realçar o jardim do palácio de Santana que embora tenha perdido a dinâmica de investigação que José do Canto lhe tinha imprimido, continua a ser notável pelas espécies raras que nele se encontram, e pelo porte imponente das árvores e distribuição acertada das espécies que o povoam. O Vale dos Fetos, também obra de José do Canto, junto da Lagoa das Furnas é verdadeiramente impressionante quer pela diversidade de espécies, quer pelo extraordinário desenvolvimento que atingiram e que demonstram o conhecimento daquele microclima nas margens da Lagoa das Furnas e da possibilidade de cultivar plantas que normalmente na Europa, só existem em estufas. As cameleiras, as variadas coníferas exóticas atestam os gostos e a variedade dos interesses de José do Canto que legou à posteridade um trabalho de adaptação de espécies verdadeiramente extraordinário, e do qual todos os açorianos beneficiaram. O Parque Terra Nostra, cuja construção foi iniciada pelo primeiro cônsul americano nos Açores, Thomas Hickling, em 1770 também junto à linda Lagoa das Furnas, nesse microclima raro que permite o desenvolvimento de plantas difíceis de cultivar em regiões que não possuam a temperatura amena e a humidade que as caracterizam. Uma recente reestruturação sabiamente conduzida, conseguiu torná-lo ainda mais belo. Há ainda outros jardins notáveis. Na ilha Terceira o Jardim Público, o Jardim Duque da Terceira, situado no Centro Histórico de Angra do Heroísmo, no local onde existiu a cerca dos franciscanos, da qual herdou um estilo clássico formal, e uma vegetação com exemplares antigos e de grande beleza. Espalhados pelas ilhas existem jardins e hortas ajardinadas que seriam certamente atractivas se recuperadas. Também algumas praças ajardinadas e quintas constituem lugares de convívio e lazer, importantes para o bem estar das populações, de entre as quais merecem uma referência a Quinta Matos Souto, na ilha do Pico, o Largo do Infante, na ilha do Faial, a praça ajardinada da vila das Velas, na ilha de S. Jorge e o largo junto ao mar ornamentado com araucárias, na vila de Santa Cruz, na ilha Graciosa. Raquel Costa e Silva

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