Homem

Da ilha Terceira – A partir de 1472, tendo desaparecido, em circunstâncias nunca completamente esclarecidas, o primeiro capitão do donatário da ilha Terceira, o flamengo Jácome de Bruges, iniciou-se um segundo período da política de administração e povoamento dessa ilha. Tinha morrido o infante D. Fernando, sobrinho e herdeiro do infante D. Henrique, e a sua viúva, a infanta D. Beatriz, actuava como tutora e curadora do seu filho D. Diogo, duque de Viseu. Esta senhora, invocando o vazio de poder criado pelo desaparecimento de Jácome de Bruges, mandou perguntar a Sancha de Tovar, sua mulher, qual era afinal o paradeiro do marido. Sancha de Tovar não conseguindo dar uma resposta satisfatória, forneceu ocasião a que D. Beatriz, ultrapassando os eventuais direitos sucessórios de Duarte Paim, genro de Jácome de Bruges, dividisse a Terceira em duas capitanias, à testa das quais colocou portugueses da confiança do seu falecido marido. O primeiro desses dois novos capitães do donatário a chegar à ilha Terceira foi Álvaro Martins *Homem, que tem sido referido como fidalgo da casa do duque de Viseu, como já o haveria sido da casa do pai deste último, o infante D. Fernando. Empregamos o condicional em relação a informações tradicionalmente aceites sobre os primeiros povoadores porquanto se os Açores são férteis em trabalhos genealógicos sobre as suas respectivas descendências, não tem sido realizada uma pesquisa sistemática nas fontes primárias continentais que vise identificar e enquadrar esses mesmos povoadores antes da sua passagem às ilhas, corrigindo, confirmando ou ampliando as informações dispersas que chegaram até nós. Isto mesmo se passa com Álvaro Martins Homem que os genealogistas açorianos referem apenas ter pertencido ao tronco dos Homem da Beira. Não ressalta claro se, aquando da sua chegada à Terceira, provavelmente ocorrida em 1473, já estariam criadas as duas capitanias. Tanto assim que é tradição que Álvaro Martins Homem se teria fixado inicialmente em Angra, à época um povoado incipiente cuja urbanização contribuiu para definir. É natural que apenas após a recepção da carta passada em Évora, a 17 de Fevereiro de 1474, pela qual lhe é atribuída a capitania da Praia, tenha mudado de residência. Mudança que terá sido precedida de conflitos com João Vaz Corte-Real, entretanto nomeado capitão de Angra, de que nos chegaram ecos. O primeiro capitão do donatário da Praia, que viera casado do continente com Inês Martins Cardoso, governou até 1482, ano da sua morte. Foi segundo capitão da Praia Antão Martins Homem, fidalgo da casa real, primogénito do casal antecedente, que teve a sua herança regularizada por carta régia, dada em Moura a 26 de Março de 1483. Casou, segundo alguns autores na ilha da Madeira, com D. Isabel Dornelas, filha do povoador das Lajes da Terceira Pedro Álvares da Câmara e de sua mulher D. Catarina Dornelas Saavedra. Fundou o mosteiro de Nossa Senhora da Luz, na Praia, onde morreu, com testamento aberto a 5 de Dezembro de 1531. Sucedeu-lhe, por renúncia do pai, Álvaro Martins Homem, o segundo do nome, terceiro capitão do donatário da jurisdição da Praia, de que recebeu carta régia de 10 de Outubro de 1522, fidalgo da casa real. Este terceiro capitão casou com D. Beatriz de Noronha que, para o efeito, havia sido dotada por escritura de 9 de Maio de 1513, com 900.000 réis por seus pais D. João de Noronha e D. Isabel de Abreu, madeirenses. Destes foi filho herdeiro Antão Martins Homem, quarto capitão da Praia por carta régia passada em Lisboa a 30 de Janeiro de 1533. Este quarto capitão juntou à casa paterna o morgado do Porto Martins, herdado de seu tio-avô João Dornelas da Câmara. Antão Martins Homem, a quem se ficou a dever a edificação, em 1540, da cadeia da vila da Praia, casou no reino com D. Joana de Mendonça, filha de Henrique Pinheiro Lobo, alcaide-mor de Barcelos, e de sua mulher D. Leonor de Mendonça e Gusmão. Já tinha morrido em 23 de Janeiro de 1578, data na qual D. Sebastião concedeu uma tença para sustento de sua viúva e filha solteira. Os quartos capitães da Praia não tiveram descendência masculina que pudesse herdar. Por esta razão Filipe I de Portugal terá feito mercê da capitania a quem viesse a casar com sua filha D. Clemência (ou Clementina) que, todavia, morreu solteira. Por esta ocasião regressou da Índia António de Noronha, irmão do quarto capitão Antão Martins Homem, que colocado perante a previsível falha sucessória do irmão, requereu a Filipe I a capitania da Praia em pagamento dos seus serviços. Mas morreu de peste antes de alcançar a mercê, acontecimento que permitiu ao monarca reunificar na pessoa de D. Cristóvão de Moura (e posteriormente na casa dos marqueses de Castelo Rodrigo), as duas capitanias da ilha Terceira, Angra e Praia.

Os primeiros capitães da Praia, Álvaro Martins Homem e Inês Martins Cardoso, tiveram outro filho, Luís Martins Homem, mas morreu solteiro. E também uma filha, D. Catarina Martins Cardoso, que casou à sua vontade com João de Galegos, primeiro contador da Fazenda de Angra. Deste casal nasceu Sebastião Cardoso Homem que nessa ilha (Fontainhas) veio a casar com Catarina de França, fundadora da capela-mor da igreja do convento de S. Francisco da Praia, onde deixaram geração.

O segundo capitão da Praia, Antão Martins Homem, teve de sua mulher Isabel Dornelas um filho clérigo, Pedro Álvares da Câmara, vigário nas Lajes e na matriz da Praia, de quem ficou geração ilegítima. E um terceiro filho, chamado Domingos Martins Homem, que em meados do século XVI fundou o convento das Chagas na vila da Praia, e que casou com Rosa de Macedo, filha do capitão Jos d’Utra, da ilha do Faial, com geração extinta. E ainda João Homem da Câmara, falecido em África sem geração. Os segundos capitães da Praia tiveram também duas outras filhas que chegaram à maioridade. A primeira, D. Catarina da Câmara Homem, segunda mulher de Diogo Paim, filho de Duarte Paim e de D. Antónia Dias d’Arce (esta filha do primeiro capitão Jácome de Bruges, casamento que reuniu a descendência dos capitães Jácome de Bruges e Álvaro Martins Homem) de que descendem, entre muitos outros ramos ilustres, os condes da Praia da Vitória. A segunda filha, D. Inês Dornelas, casou com Manuel de Sousa de quem teve descendência. Um outro ramo deste apelido passou igualmente à ilha Terceira no século XV na pessoa de João Vaz Homem, casado com Catarina da Costa, deixando descendência que veio a aliar-se, entre outros, com os Mesquita Pimentel, os Mendes de Vasconcelos e os Sampaio.

Um terceiro ramo passou do continente aos Açores com os irmãos João Álvares Homem e Heitor Álvares Homem. O primeiro fixou-se em S. Roque dos Altares na ilha Terceira tendo casado duas vezes. A primeira com Ana Luís da Costa, e a segunda com Isabel Valadão, com geração de ambos. Do segundo casamento procederam, entre outros, os Borges do Porto Judeu e ramos de Teixeira e Cabaço. Heitor Álvares Homem residiu no Varadouro, Vila Nova, onde instituiu em 1527 um vínculo com a capela de Nossa Senhora da Ajuda. Casou com Beatriz Afonso (da Costa Columbreiro) e foram os progenitores dos Homem da Costa da ilha Terceira. Manuel Lamas