historiografia

Tem sido matéria de alguma polémica, bem menos acesa do que a da literatura, é verdade, a expressão historiografia açoriana por ela suscitar dúvidas a alguns puristas quanto à temática, à qualidade dos interventores e à quantidade da produção. Parece-me contudo que se pode e deve usar com propriedade a expressão porque ela tem conteúdo suficiente para ser sustentada. A historiografia é até a primeira e mais consistente manifestação cultural escrita de um pensamento organizado sobre os Açores. Não é só a temática histórica insular que preocupa os cronistas, mas antes uma visão teórica sobre a vida e o devir dos insulares, opondo-a quase sempre ao outro. Assim, é precisamente esta precocidade da temática, a sua preocupação de uma visão endógena do fenómeno histórico e a sua manifesta continuidade ao longo das gerações que me surge como o sustentáculo para a defesa da existência de essa historiografia açoriana.

A crítica que tem sido feita de que há antes uma ligação estreita ao projecto da historiografia nacional e mesmo àqueles outros de historiografia atlântica e que a temática insular tem bastas vezes interessado e até obtido maior êxito com historiadores não açorianos, não me parece muito consistente, porque se é óbvia a verdade dessas afirmações não é menos relevante que há por um lado uma notória diferença entre os temas tratados por uns e por outros historiadores e acima de tudo uma diferente perspectiva das temáticas. Tais diferenças, para quem ler com atenção os discursos historiográficos sucessivos, é bem notória e não pode por outro lado esquecer-se que não existem historiografias estanques, nem isso seria desejável. As mesmas limitações e preocupações que animaram os críticos à existência de uma historiografia açoriana podem em boa verdade existir para todas as historiografias pelo menos europeias e americanas e não invalidam as historiografias nacionais, as escolas historiográficas e outras afinidades particularistas nem tão pouco e aliás desiguais visões de conjunto de realidades sociais, económicas e culturais que são complementares e que só tem a ganhar com esforços conjuntos de investigação e de reflexão. Pode-se sempre negar a existência de uma historiografia portuguesa, francesa, inglesa ou italiana para a substituir por uma historiografia europeia ou por outro lado negar a existência da historiografia americana, brasileira ou cabo-verdiana para a substituir por uma inegável unidade historiográfica atlântica.

Não é também por haver não açorianos interessados e até com grande êxito como cultores da temática insular que se negará existir a decantada historiografia açoriana que pode sempre, como qualquer outra temática cultural, interessar todos os que nela encontrem matéria de reflexão e desafios de interpretação.

Sou pois dos que defendem que não existem incompatibilidades nem compartimentos estanques entre os temas locais, as preocupações universais, os gostos pelos grandes espaços e a paixão pelos particularismos. Tudo pode e deve ser integrado na mundividência e só a qualidade do produto final servirá de árbitro para rejeições.

Vejamos pois qual o panorama da historiografia açoriana tentando compreendê-la nas suas preocupações teóricas, na sua forma de apresentação e no seu sustentáculo documental, porque não existe história sem investigação e sem documentos, mas acima de tudo ela não existe sem um pensamento estruturado sobre o passado e a sua projecção no presente.

Com uma preocupação simplesmente didáctica pode-se dividir a historiografia açoriana em três períodos. Um primeiro dito dos cronistas e que abrange os séculos XVI, XVII e XVIII, um segundo romântico, para o século XIX, e por fim um terceiro para o século XX mais complexo e mais difícil de rotular.

O período dos *cronistas é essencial para entender o fenómeno historiográfico açoriano porque a plêiade de crónicas que ocupam esse longo período cronológico são matéria decisiva para se compreender o nascimento de alguns temas persistentes na visão que os açorianos tem de si próprios e do mundo exterior.

Pode-se afirmar que a historiografia açoriana nasce perfeita, porque a primeira das crónicas que transmite um pensamento insular neste particular, as Saudades da Terra, de Gaspar *Frutuoso é uma narrativa, não só de grande qualidade, mas servida por uma invejável investigação e uma notável preocupação de prudência interpretativa mas, acima de tudo, é a visão de um mundo atlântico com especificidade própria e que une nas linhas de força essenciais os arquipélagos da Macarronésia que dá à crónica de Frutuoso uma modernidade que ainda hoje nos encanta.

Tem se afirmado que os continuadores de Frutuoso todos eles presbíteros, como era de esperar em tempo de domínio cultural da Igreja Católica, foram acima de tudo continuadores que completaram a crónica fundadora de uma historiografia. Tanto Diogo das *Chagas, como Manuel Luís *Maldonado e António *Cordeiro não teriam tido nem o engenho, nem a arte, nem sequer a bagagem para inovarem o suficiente em relação a Frutuoso. Em parte é verdade isso mesmo, mas todos eles para além da narração mais ou menos feliz dos factos sentiram-se animados na explicação dos seus projectos e todos eles reinterpretaram a história revelando preocupações de uma sociedade insular, atlântica e arquipelágica. O caso de Diogo das Chagas com os protestos perante a indiferença ou o esquecimento do contributo açoriano para a Restauração manifestados pelos cronistas nacionais e ainda melhor o de António Cordeiro na revisão da sociedade açoriana de Seiscentos, saída da reorganização do império atlântico e do reequilíbrio das novas potências marítimas nas rotas de acesso ao mundo colonial, com profundas repercussões nos Açores, são exemplos a reter para a compreensão do que é a historiografia açoriana.

A historiografia romântica, com as suas preocupações de positivismo científico, de amor às novas fontes documentais, da busca incessante da verdade fundamentada e de uma preocupação de laicismo cultural inspirado nas filosofias políticas do liberalismo individualista e libertador encontrou nos Açores um clima propício ao seu desenvolvimento. Os cultores da nova escola multiplicaram-se por todo o lado, uns com maior êxito do que outros. São multifacetados os interesses, as preocupações e as leituras da sociedade açoriana e por isso difícil de sintetizar, mas podemos destacar duas grandes orientações. Uma de inventariação e coleccionismo de fontes que tem a sua expressão máxima em José de Torres, em as Variedades Açorianas e em Ernesto do *Canto com o incontornável *Archivo dos Açores, ambos ainda hoje muito úteis e que em boa verdade não são inócuos pois a recolha dos documentos e das publicações raras sobre os Açores trazem a marca do regionalismo açoriano militante.

A outra orientação traduz-se na escrita da própria história com preocupações interpretativas à luz das filosofias positivistas e liberais, história crítica, militante e sempre reinterpretativa do passado. Perde-se contudo a visão de conjunto do arquipélago e até a sua integração nos grandes espaços, passando-se às leituras sociais, políticas e económicas dos pequenos espaços, de uma ilha, ou até de um concelho, quando muito um conjunto de ilhas, tudo fruto das preocupações político-administrativas dos Açores no século XIX. O expoente máximo desta escola romântica é sem dúvida Francisco Ferreira *Drumond com os Anais da Ilha Terceira onde as características fundamentais do cientifismo histórico, do laicismo, das opções políticas liberais e da paixão pelos documentos estão bem patentes num certo açorianismo mais ou menos agressivo em relação às importações de uma pátria madrasta sempre pronta em esquecer os Açores.

A historiografia do século XX corresponde a uma época de afirmação cultural com um conjunto variado de realizações públicas integradas nas esperanças de uma regeneração da vida cívica dos Açores, saídas dos entusiasmos de um segundo movimento autonomista dos anos vinte e da afirmação do regionalismo. Mantém-se a divisão distrital como os seus três pólos de actividade e a consequente triplicidade de iniciativas com destaque para o lançamento de novas publicações académicas, a criação dos Institutos, o *Instituto Histórico da Ilha Terceira, o *Instituto Cultural de Ponta Delgada e o Núcleo Cultural da Horta, todos eles dinamizadores da vida cultural açoriana e responsáveis pela face visível de um regionalismo açoriano no campo da cultura que pretende ser uma expressão de açorianidade. Paralelamente criam-se os Arquivos Distritais acoplados às Bibliotecas e que são geradores de novos entusiasmos de investigação e de reinterpretação da história insular.

É um bom exemplo deste movimento cultural a escola historiográfica do Instituto Histórico da Ilha Terceira onde a temática do nacionalismo pelo prisma do regionalismo fica bem expresso na comemoração das efemérides, na heroicidade das figuras emblemáticas e na temática preferencial das datas definidoras do lusitanismo expansionista e da libertação da Pátria. Manuel Coelho Baptista de *Lima, Luís Ribeiro, José *Agostinho, na Terceira, Velho *Arruda, Carreira da *Costa ou João Bernardo de Oliveira *Rodrigues, em S. Miguel, e Marcelino *Lima no Faial são bem os corifeus destes movimentos regionalistas de exaltação da açorianidade como quinta essência do portuguesismo.

A partir dos anos sessenta a historiografia açoriana inicia um novo caminho alicerçado numa geração universitária que defende a integração da história dos Açores nas escolas europeias e americana que definem o Atlântico como uma unidade de análise e consequentemente valoriza a integração das ilhas nas rotas marítimas e nos mercados da globalização iniciada com o colonialismo. Podemos apontar a historiografia de Julião *Azevedo, Hélder *Lima e Maria Olímpia da Rcoha *Gil como exemplos notáveis.

Não divergindo deste esforço, a criação da Universidade dos Açores e dos órgãos de governo próprio da Região Autónoma a partir de 1976 trouxe um novo alento à historiografia açoriana dando-lhe um suporte científico e académico, novos meios financeiros e humanos, abrindo perspectivas de integração em redes alargadas universitárias, alargando os horizontes temáticos e criando um clima propício de abandono da insularização para dar lugar à dimensão arquipelágica no mundo atlântico. O arranque deste novo programa e desta nova caminhada pode ser emblematicamente fixado na criação do Departamento de História da Universidade dos Açores, em 1977, e na programação que lhe foi traçada por Artur Teodoro de *Matos e continuada por Avelino Freitas de *Meneses. J. G. Reis Leite

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