Higginson, Thomaz Wentworth
[N. Cambridge, 22.12.1822 m. ?, 9.5.1911] Seria uma personagem totalmente alheia ao arquipélago dos Açores e, em particular, ao Faial, não fora o facto de em meados do século XIX ter dado resposta aos apelos do mar, alinhando com os hábitos muito em voga de realização de longas viagens em demanda do desconhecido em que a mera satisfação intelectual poderia ser resposta compensadora dos incómodos causados pelo desconforto de embarcações talhadas para fins mais compensadores ao serviço do comércio. As Western Islands já começavam, então, a surgir nos roteiros possíveis que as elites de além-Atlântico consideravam como objectivo ou escala de uma viagem de aventura destinada a gozar «health and pleasure».
É assim que Higginson chega ao Faial, em 1855, acompanhando um grupo de americanos em busca de um local de clima ameno e saudável como escape para os rigores do inverno da Nova Inglaterra e estados circundantes, de onde provinham. Todavia, não será este o motivo que torna notória a estada de Higginson no Faial, onde permaneceu alguns meses, nem o facto de ter privado com os Dabney cuja influência nestas e noutras deslocações não se demonstra mas se suspeita como muito provável.
O que torna extraordinária a presença de Higginson no Faial é o que dela resultou, dando à estampa um opúsculo a que deu o título de Fayal and the portuguese. Editado em 1871, na cidade de Boston, o pequeno livrinho (uma raridade que o zelo de João Dias Afonso descobriu nos escaparates de alfarrabistas dos Estados Unidos e ofereceu ao conhecimento de quantos se interessam por estas antigualhas) desenha com espantoso detalhe e sensibilidade de artista o quotidiano faialense.
Nas escassas páginas que escreveu para tão grande tarefa mesmo tratando-se de uma pequena ilha a meio do oceano Higginson consegue uma notável e pitoresca descrição reveladora da vida faialense de meados de Oitocentos, deixando elementos de grande utilidade para o conhecimento dos hábitos e costumes das gentes do Faial, para além de dados de valia para os estudiosos da história económica das ilhas açorianas. Fayal and the portuguese é, sem dúvida, uma peça notável entre as obras que a literatura de viagens dedica aos Açores.
O capítulo III das suas Letters and Journals compiladas por Mary Higginson dedica algumas páginas muito sugestivas à descrição da viagem que o levou ao Faial a bordo da barca Azor na qual viajava igualmente o casal Dabney. O primeiro encontro com a ilha do Faial é descrito com visível emoção.
Numa altura em que o livro dos irmãos Bullar já era conhecido em ambos os lados do Atlântico o próprio Higginson utilizou-o para organizar a sua viagem ao Faial é plausível que o seu impacto tenha sido positivo no reforço da divulgação do arquipélago, até pelo prestígio de que gozava o seu autor.
Além do seu labor literário, nomeadamente como editor dos poemas de Emily Dickinson e colaborador de jornais e revistas com inúmeros trabalhos, ficaria conhecido por ter comandado na Guerra Civil, entre 1861 e 1865, um regimento exclusivamente composto por negros de que faz relato no seu livro Army life in a black regiment, publicado em 1876. Ricardo Manuel Madruga da Costa
Bibl. Afonso, J. (1988), Açores - conhecimento de duas ilhas em «Atlantic Essays». Conhecimento dos Açores através da literatura, Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura: 139-148. Higginson, M. T. (ed.) (s.d.), Letters and Journals of Thomas Wentworth Higginson. 1846-1906.
