hebreus marroquinos

Entre os anos de 1818 e 1820, nas ilhas dos Açores, assistiu-se à entrada de vagas sucessivas de «Hebreus Marroquinos». A proximidade geográfica do arquipélago em relação ao Norte de África e Península Ibérica, bem como a sua proximidade económica em relação ao Reino Unido podem explicar essa imigração até sensivelmente ao último quartel de oitocentos. A «economia da laranja», então, sustentava e estimulava a vida económica das ilhas, criando expectativas de bons negócios, quer pelos crescentes fluxos da navegação internacional estabelecidos com base na produção agrícola insular, quer pelos aumentos substanciais da procura inglesa por citrinos.

Os primeiros judeus estabelecidos nas ilhas não competiram com os interesses da tradicional terratenente, pois eles vão praticar o pequeno comércio ambulante, oferecendo mercadorias de fraco valor acrescentado e artigos em segunda mão. No entanto, desde logo, eles motivaram a ira dos pequenos lojistas autóctones, porque definiram novas concorrências, quer pela abertura de novos mercados, quer pela liberalização dos preços. A imposição desses novos comportamentos e dessas novas práticas comerciais motivou disputas e conflitos que se arrastaram por cerca de trinta anos.

Percorrendo lugares recôndidos e viajando pelas diversas ilhas onde ofereciam, não só sortimentos variados e baratos, como concediam créditos favoráveis, esses comerciantes ambulantes redimensionaram o mercado insular, sendo responsáveis, quanto a nós, pela primeira tentativa de integração económica do arquipélago.

Uma política de vendas eficiente, integrando os campos e as ilhas pequenas e fixando baixas margens de lucro, motivou uma rápida circulação das existências e permitiu o abaixamento dos preços praticados, estimulando o aumento das vendas. Desta forma, os comerciantes judeus atraíram, não só os clientes dos seus concorrentes, como também os clientes, que, até então, pela escassez dos seus rendimentos e pelos elevados preços praticados no comércio retalhista local, não estavam integrados nos circuitos da distribuição e do consumo. Eis a razão por que a pequena comunidade israelita, que não ia muito além dos duzentos indivíduos distribuídos pelas várias ilhas e que não possuía tradição no seio do universo mercantil insular, se impôs no comércio de importação e de distribuição no arquipélago, então com uma população rondando as 185.230 pessoas. A comunidade mais numerosa sempre se localizou na cidade de Ponta Delgada que, apesar de ser a cidade maior do arquipélago no tempo, não albergava mais de catorze mil pessoas.

Contam-se, entre os pioneiros da imigração hebraica nos Açores, Abraão Bensaúde (irmão de Elias, pai de José e primo de Salomão Bensaúde), Salão Buzaglo, Aarão Benayom, Jacob Mataná, Isaac Semtob e Aarão Aflalo. Temos conhecimento deles, porque o Senado Municipal de Ponta Delgada, representado pela classe mercantil urbana, lhes não pretendia renovar as respectivas licenças para realizarem o comércio que vinham praticando. A argumentação, invocando leis antigas e não disfarçando os sentimentos de natureza xenófoba e racista, denunciava a falta de compensação no comércio praticado e a correlativa sangria de moeda. Os judeus alvitraram o seu não cumprimento da lei pelo desconhecimento da língua portuguesa, apelando para que a Câmara prorrogasse o prazo da sua licença por mais três meses para eles reaverem os dinheiros das fazendas já vendidas, venderem as existências possuídas e esperarem por um barco que os conduzisse para fora da ilha. As ditas licenças foram renovadas, porque, afinal, o seu «crime» era estarem vendendo mercadorias semelhantes às dos concorrentes, mas por preços mais baratos! E, assim, os judeus deixaram-se ficar nas ilhas durante várias décadas…

Entretanto, até aos anos cinquenta foram chegando outros judeus ao arquipélago, que, tal como os pioneiros, privilegiaram as cidades e as ilhas maiores, como S. Miguel, Terceira e Faial. De resto e para só mencionar as famílias mais proeminentes entre a comunidade judaica insular, os Bensaúde estabeleceram-se nas ilhas de S. Miguel e do Faial, enquanto os Buzaglo e os Azulay se ficaram apenas pela ilha de S. Miguel; os Bensabat e os Levy, na ilha Terceira, e os Benarús e os Bensabat, no Faial.

Os judeus tomaram de renda prédios urbanos, localizados nas principais artérias da cidade – casas sempre telhadas e sobradadas e com espaço no rés-do-chão onde destinavam abrir a loja de comércio. Também alienaram algumas de minúsculas quintas (designação dos pomares, nos Açores) nos arredores próximos e, até, no interior das cidades. Note-se, contudo, que nem Elias nem Salomão, os comerciantes judeus que alcançaram mais sucesso económico na comunidade, só adquiriram quintas, após terem alcançado uma posição de primazia económica… A produção e a exportação da laranja não foram, portanto, o fundamento do seu sucesso, embora, a longo prazo, esse investimento tivesse vindo consolidar a fortuna, entretanto alcançada.

A relativa prosperidade da comunidade israelita micaelense manifestou-se, por exemplo, na compra de um imóvel para edificar uma sinagoga, conforme reza a escritura notarial de 21 de Dezembro de 1836. Abraão Bensaúde, Salão Buzaglo, Fortunato Abecassis, Isaac Zafrany, José Azulay, Elias Bensaúde e Salomão Bensaúde desembolsaram, então, um conto de réis. A família Bensaúde, através de Abraão, Elias e Salomão, revelava, desta forma, o seu desafogo económico traduzido na imobilização de capital sem fins lucrativos ou económicos. A sinagoga, denominda «Sahar Hassamain», localizada no centro da cidade e o cemitério, localizado no extremo poente da cidade, representavam, doravante, o indispensável instrumento de coesão, de solidariedade e de união desta minoria religiosa.

A ética do trabalho, a poupança e a frugalidade parecem ter caracterizado os judeus açorianos que, partindo do comércio retalhista, cedo, apostaram no comércio de importação – o chamado comércio de «grosso trato». A importação massiva de bens manufacturados da Grã-Bretanha, durante a estação alta da fruta, seguia um circuito fixo: distribuição na ilha de S. Miguel e redistribuição pelas demais ilhas açorianas. As importações eram pagas em numerário e através de endosso de letras de câmbio na posse dos exportadores de laranja. Desde cedo, foram procuradas actividades de compensação nas ilhas, podendo defender-se que os comerciantes judeus contribuíram para a primeira tentativa de integração económica das ilhas, ainda que por via do consumo.

A redistribuição das mercadorias inglesas pelas demais ilhas motivava uma certa divisão regional do trabalho, estimulando as trocas entre as ilhas e a comercialização dos excedentes agrícolas locais, doravante canalizados para o mercado internacional, porque propiciador das maiores mais-valias.

A comunidade judaica açoriana nunca deixou de preservar a solidariedade e a endogamia do grupo, apesar da sua progressiva integração no tecido social insular. Os judeus dos Açores conservaram as suas ligações familiares e as suas relações comerciais com o Norte de África, o porto de Gibraltar, a metrópole e o Reino Unido – locais privilegiados da diáspora israelita. Essas ligações não só sedimentavam as alianças familiares, como também contribuíam para negócios vantajosos!

Finalmente, registe-se que a prática creditícia nunca caracterizou os seus negócios.

A partir dos anos sessenta, contudo, iniciou-se a debandada generalizada da comunidade israelita açoriana.

Entre os poucos que não partiram, os Bensaúde, os Benarús e os Delmar parecem ter sido os únicos a conservarem o seu tradicional estilo de vida burguês, porquanto os demais membros da comunidade vão levar uma vida bastante modesta e, por vezes, até precária, embora a actividade comercial tivesse continuado a caracterizar os seus negócios. Fátima Sequeira Dias

Bibl. Dias, F. S. (1999), Uma estratégia de sucesso numa economia. A casa Bensaúde e os Açores, 1800-1873. 2ª ed., Ponta Delgada, Ribeiro & Caravana. Id. (1995), A Fábrica de Tabaco Micaelense, 1866-1995. Ponta Delgada, Jornal de Cultura. Id. (1996), Os empresários micaelenses no século XIX: o exemplo de sucesso de Elias Bensaúde (1807-1868). Análise Social, XXXI, 136-137: 437-464. Id. (1995), As razões da penetração comercial da empresa ‘Salomão Bensaúde e Companhia’ (1835-1847) na ilha do Faial. Actas do I Colóquio Internacional O Faial e a Periferia Açoriana nos século XV a XIX. Núcleo Cultural da Horta: 115-137. Id. (1989), Moisés Sabat – Um caso de insucesso na comunidade hebraica de Ponta Delgada no século XIX (...-1864). Arquipélago (História), XI: 195-211.