Gularte
Dos Açores Adoptamos a grafia Gularte, tal como a encontramos nos primeiros registos paroquiais, sendo a versão Goulart, como é conhecido, uma grafia posterior. Isto, não obstante termos sido informados, de que nos arquivos flamengos se encontram Goularts antigos. Não vimos esses originais, e ignoramos se a sua transcrição não será, também ela, um galicismo mais ou menos tardio.
Não está ainda satisfatoriamente resolvida a ligação entre os diferentes ramos dos Gularte das ilhas do Faial, S. Jorge, Pico e Terceira, onde se encontram, a avaliar pelos paroquiais mais antigos, implantados desde o começo do povoamento, embora seja segura a descendência de um tronco comum. Começando pela ilha de S. Jorge, o foco da sua dispersão parece ter sido a vila do Topo, onde o erudito investigador Padre Azevedo da Cunha [ver Cunha, Manuel de Azevedo da (pe.)] admitiu que procedessem de um Joz Gularte que, em 1562, sendo já falecida a sua mulher Maria Álvares, instituiu um foro de oito alqueires de trigo a favor da confraria de Nossa Senhora do Rosário da vila do Topo. Este Joz Gularte, genearca dos Gularte e Gularte Álvares de Oliveira da vila do Topo, na ilha de S. Jorge, possivelmente nascido antes de 1500, certamente filho, ou neto, de Gouvart Luís, tronco de todos os deste apelido, que era mestre do cultivo do «pastel», planta tintureira da maior importância nas exportações açorianas dos séculos XV e XVI. Este Gouvart Luís, natural da Flandres, veio fixar-se na ilha do Faial, no tempo do 1.º capitão do donatário, Joz (ou Josse) Van Hurtere, nos finais do século XV.
A descendência de Gouvart Luís, no que toca à ilha do Faial, aparece com António Anes, homem principal da ilha do Faial, casado com Isabel de Vargas, que tiveram um filho chamado Jorge Gularte que veio a casar com Rosa Pereira Garcia, filha de Aires de Porras e de sua mulher Isabel Dias, esta filha de Garcia Gonçalves Madruga, primeiro capitão-mor das Lages na ilha do Pico.
Aquele Jorge Gularte, e sua mulher, foram pais de Tomás de Porras Pereira, falecido no Faial a 28 de Abril de 1629, que casou com Aldonça Martins, filha de Belchior Borero de sua mulher Catarina da Silveira, esta filha de Jorge Gomes de Ávila, da Graciosa e de uma filha de Guilherme da Silveira chamada Catarina da Silveira. E também de António Gularte, casado com outra Catarina da Silveira, eventualmente irmã de sua cunhada Aldonça Martins, acima, que tiveram, pelo menos um filho, também chamado António Gularte.
Possível filha de Jorge Gularte e de sua mulher Rosa Garcia Pereira, acima, teria sido Isabel Pereira Gularte, nascida ao redor de 1590, que casou com António da Terra e Silveira, filho de Jorge da Terra e Silveira e de Maria de Porras; neto paterno de Jorge da Terra (Josse Van Aertrickje) e de Margarida da Silveira; neto materno de Tomas de Porras e de Isabel dUtra. Este casal teve Pedro Gularte da Silveira e Maria de Montojos, mulher do capitão-mor Jorge Gularte Pimentel, com geração conhecida.
Outro ramo faialense do começo do século XVI, é o de Isabel Gularte da Silveira, nascida ao redor de 1510, e casada com João Garcia Pereira que os genealogistas fazem filho de João Garcia Pereira e de Isabel Pereira, com ilustre descendência, alguma da qual usou o apelido Gularte.
Não é claro qual pudesse ser a origem desta antiga ligação ente os Silveiras, necessariamente na geração dos filhos de Wilhelm Van der Haghen e de sua mulher Margarida Sabuyo, uma vez que não consta da descendência conhecida de nenhum dos seus filhos, embora seja admissível, visto que não é conhecida a descendência integral de todos os filhos e filhas.
Mas, logo nas gerações seguintes, e na mesma ilha do Faial, surge Margarida Gularte, nascida ao redor de 1554, e portanto uma ou duas gerações mais nova do que os primeiros, que casou, nos Flamengos, com Tomé Jorge da Silveira, com descendência que seguiu o apelido Madruga.
Na vizinha ilha do Pico, mais concretamente em S. Roque, são visíveis as ligações ao Faial e a S. Jorge, pois encontramos Beatriz Gularte de Faria, que julgamos de ascendência faialense ligada aos Terras Silveiras e aos Lemos de Faria, nascida cerca de 1559, e casada com Amaro Luís, de quem teve Pedro Gularte de Faria, casado em S. Roque do Pico a 2 de Outubro de 1607, com Bárbara Gato, filha de Melchior Esteves e de Maria Toste, que suponho oriundos da Calheta ou Ribeira Seca, na fronteira ilha de S. Jorge. Este casal teve: Isabel Gularte, casada em S. Roque, a 14 de Julho de 1627, com Lázaro Leal, filho de Domingos Afonso Leal, certamente de S. Jorge, e descendente dos Leais de Valença; Gaspar; Amaro; Roque da Terra Gularte; Maria Gularte de Faria; Jorge Gularte de Faria e Manuel Gularte.
Intrigante é o caso de Bárbara de Matos de Faria, certamente parente da anterior, mas quase seguramente ligada aos Matos da Silveira, da Vila Nova do Topo, que nasceu ao redor de 1568 e casou com Gaspar Pereira Cardoso, de quem teve: Manuel, baptizado em S. Roque do Pico a 24 de Agosto de 1588, e Bárbara Gularte de Faria, que casou em S. Roque, em 1614, com Manuel Ferreira, filho de Simão Ferreira Alemão e de Catarina Manuel. E ainda, Maria Gularte, nascida cerca de 1569 e casada com Domingos Romano, de quem teve: João Gularte, casado em S. Roque, a 27 de Maio de 1613, com Águeda Cerqueira, filha de António Rodrigues e de Graça Cerqueira; Joana; Águeda Gularte, casada em S. Roque, a 5 do Novembro de 1612 com Baltazar Gato, filho de Melchior Fernandes e de Catarina Lourenço Fagundes; e Leonor.
Acontece que, no que respeita à vila do Topo, na ilha de S. Jorge, quase todos os Gulartes comprovadamente nascidos entre os finais do século XVI, e os primeiros anos do século XVII, têm descendentes que, além do apelido Gularte, seguem os apelidos Álvares de Oliveira, ou Oliveira Gularte. Esta circunstância remete-nos, de novo, para os Silveiras. Com efeito, a segunda filha de Guilherme da Silveira (Wilhelm Van der Hagen), chamou-se Luzia da Silveira, casada em S. Jorge com o tabelião André Fernandes de Vila Lobos, que seguramente ainda era vivo em 1548, e talvez o fosse ainda em 1560. Deste casal foi filho Guilherme da Silveira o das Velas , falecido a 3 de Agosto de 1582, que casou com Águeda Baleeiro, filha de Gaspar Gonçalves Baleeiro e de sua mulher Catarina Quadrado, da ilha de S. Jorge. Foi filha deste último casal Maria da Silveira, que foi primeira mulher de Belchior Gonçalves de Ávila, da ilha Graciosa, filho de Damião Dias Picanço e de sua mulher Filipa Gonçalves de Ávila, ambos seguramente entroncados nos Correias Picanços e Bettencourt e Ávila, da ilha Graciosa.
E é na descendência deste último casal que surge a única aliança que conhecemos entre Gulartes e Oliveiras na ilha de S. Jorge. Mais precisamente através da sua filha Paula Correia de Ávila (a quem o padre Azevedo da Cunha, quanto a nós erradamente, chama Paula Correia de Ávila Gularte, uma vez que a sua ascendência conhecida não usou o apelido Gularte), que casou na vila das Velas, ilha de S. Jorge, entre 1560 e 1570, com João do Amarante de Oliveira, mamposteiro dos cativos e juiz da vila das Velas em 1629, que testou em 29 de Janeiro, e morreu a 31 do mesmo mês de 1631. Este João do Amarante de Oliveira era filho de Gonçalo de Amarante o velho , capitão-mor da vila das Velas entre 1580 e 1582, provedor da Santa Casa da Misericórdia dessa vila em 1594, e juiz ordinário em 1595, e de sua mulher Francisca de Oliveira, que suponho fosse Gularte.
João de Amarante de Oliveira e sua mulher Paula Correia de Ávila tiveram descendência, que seguiu os apelidos Gularte e Oliveira (por exemplo Pedro Correia Gularte, casado 3 vezes com geração em S. Jorge, e Francisco de Oliveira, casado com Vitória da Cunha, filha de Amaro Fernandes Barroso e de sua mulher Margarida Álvares Teixeira, que suponho originária do Topo, ou da Calheta), alguns dos quais comprovadamente casaram na Calheta de S. Jorge, e outros terão vivido no Topo. Seria tentador arrumar esta questão admitindo que a mãe de João de Amarante de Oliveira, Francisca de Oliveira, seria descendente de Joz Gularte e de sua mulher Maria Álvares, acima mencionados, e que os Álvares de Oliveira e Oliveira Gularte do Topo, procederiam dos Amarantes de Oliveira da vila das Velas.
Infelizmente essa descendência não só não está entroncada como subsistem outros problemas.
Antes do mais o Belchior Gonçalves de Ávila, da ilha Graciosa, não casou apenas com Maria da Silveira, teve uma segunda mulher, chamada Luzia Pereira Homem, e uma terceira, chamada Isabel Fernandes de Almeida, esta última seguramente jorgense. O apelido Gularte, que o pe. Azevedo da Cunha atribui a Paula Correia de Ávila poderia, em boa verdade, provir da segunda ou da terceira mulher de Belchior Gonçalves de Ávila se a Paula Correia de Ávila não fosse filha do primeiro casamento, o que é admissível, dado o laconismo das fontes.
Acresce que subsistem problemas de cronologia. Seguramente pertencente ao tronco dos Gulartes, o mais antigo membro desta estirpe que encontro, documentalmente referenciado, na jurisdição da vila do Topo, é Bárbara Gularte nascida cerca de 1580 e falecida no Topo a 1 de Janeiro de 1649.
Avaliando a partir da idade estimada dos filhos deve ter casado antes de 1600 com António Luís Barreto, nascido cerca de 1570 e falecido a 1 de Janeiro de 1651, na mesma vila do Topo. Alguns descendentes deste casal, seguiram os apelidos Gularte de Oliveira. Se, em boa verdade, Bárbara Gularte poderia cronologicamente ser filha de João de Amarante de Oliveira e sua mulher Paula Correia de Ávila (embora não referida, como outros, aliás, na respectiva descendência) já parece difícil compatibilizá-la com o ramo de Gulartes do Topo, de quem era certamente parente em grau próximo, dado que a Vila Nova Topo nesse final do século XVI tinha apenas 60 fogos. Manuel Lamas
