guerra de 1812
Questões menos bem resolvidas nas diligências que selariam a pacificação entre a Inglaterra e as suas antigas colónias de além-Atlântico dariam lugar a um longo e desgastante conflito cuja solução seria encontrada no desfecho da Guerra de 1812 e que alguns historiadores designam como a 2.ª guerra da independência. Em causa, essencialmente, o exercício da livre navegação pela marinha de comércio da jovem república americana ao abrigo de um estatuto de neutralidade solenemente proclamado, num tempo em que as lutas europeias opondo a Grã-Bretanha à França napoleónica colocavam em jogo interesses que afectavam as partes em conflito. De facto, num contexto de guerra e face às políticas de bloqueio praticadas por ambas as partes, que os decretos napoleónicos de Berlim e de Milão no ano de 1806 agudizam, a liberdade de comércio pretendida pelos americanos podia pôr em causa a eficácia das medidas de bloqueio e favorecer qualquer uma das partes do conflito. O apresamento de navios americanos por parte de unidades da marinha inglesa e a prática em larga escala do impressment (desembarque forçado de marinheiros tripulando navios americanos com a alegação de que seriam marinheiros de Sua Majestade Britânica), agravaria o relacionamento entre o governo americano e a antiga metrópole. Uma sucessão de medidas de natureza restritiva ao nível das relações comerciais, embargando as trocas comerciais com a Inglaterra, adoptadas desde 1806 pelo Congresso americano, provaria ser de eficácia duvidosa. Perante a persistência do conflito e face à pacificação das relações com a França, permitindo isolar apenas um inimigo a enfrentar, os E.U.A. declararam guerra à Inglaterra em 1812. Será necessário aguardar o ano de 1814 para celebrar uma paz duradoura entre as duas partes.
É neste quadro brevemente esboçado que os Açores, uma vez mais, servem de pano de fundo para alguns episódios que são parte integrante do conflito.
Na fase que antecede a guerra de 1812, mas que é dela prenúncio, por ocasião dos embargos declarados pela América, sobretudo no decorrer do período 1809-1810, o porto da Horta provaria a sua utilidade ao servir de porto de baldeação de mercadorias de origem americana, transportadas por navios desta nacionalidade, e de facto destinadas a Inglaterra, que os navios britânicos reembarcavam para portos de Inglaterra. O número de navios envolvidos neste comércio entre as duas nações, que neste período frequentaram o porto da Horta, atinge as centenas, sublinhando, uma vez mais, a valia estratégica dos Açores. Era uma forma de legitimar um comércio que as nações desavindas, de forma directa, estavam impedidas de realizar por decisão dos E.U.A.
Passada esta fase, as águas açorianas e os seus portos, permaneceram úteis a ambas as partes. A relevância das rotas transatlânticas e a escala frequente de embarcações mercantes pelo arquipélago, justificavam os apetites de um corso muito activo que nas proximidades das ilhas tinha campo privilegiado para a obtenção de presas. Santa Maria e Flores seriam as áreas mais procuradas. De um lado a rota entre a Inglaterra e o porto de Ponta Delgada com vista ao comércio da laranja e, de outro, as Flores e a sua posição de excepção nas rotas de regresso das Américas. Com a declaração de guerra, a actividade corsária intensificou-se com diversos episódios a suscitar protestos de ambos os lados junto das autoridades portuguesas em virtude do estatuto de neutralidade de Portugal e das pretensas violações verificadas em portos açorianos.
Já no findar do conflito, com repercussões importantes no próprio curso da guerra em território americano, designadamente na posse estratégica de New Orleans, ocorreu no porto da Horta um combate naval entre um navio corsário americano ancorado neste porto, o *General Armstrong sob o comando do capitão Read, e uma flotilha inglesa comandada pelo comodoro Robert Lloyd, em clara violação da neutralidade portuguesa. Apesar da desproporção das forças e do afundamento do corsário, as perdas do lado inglês e o elevado número de feridos, obrigariam à retenção da flotilha na Horta, inviabilizando o reforço das tropas britânicas no cerco a New Orleans entretanto fortificada e defendida por tropas sob o comando do general Andrew Jackson. Este episódio teve largas repercussões diplomáticas com um desfecho que só teria lugar no ano de 1851. Ricardo Manuel Madruga da Costa
Bibl. Arquivo dos Açores (1983), ed. fac-similada da ed. de 1892. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, XII: 57-75. Dabney, R. L. (compil.) ([1899]), Annals of the Dabney family in Fayal. [
