guerra da secessão americana
Conflito opondo alguns estados do Sul e do Norte dos Estados Unidos da América, resultando de diferentes visões sobre a sociedade escravocrata defendida pelos estados confederados, como obstáculo de monta à realização plena da unidade nacional, é improvável que a Guerra da Secessão Americana (1861-1865) constituísse tema a justificar inclusão em obra de abrangência açoriana não fosse, uma vez mais, a projecção do conflito no espaço oceânico. Em causa, de novo, o Atlântico e por via dele o envolvimento do arquipélago dos Açores, ainda que meramente acidental.
De facto, a par dos episódios trágicos do apresamento de navios yankees e sua destruição nas águas açorianas, em que a ilha das Flores se revelou como escala providente no socorro a considerável número de tripulantes e passageiros aprisionados pelo célebre navio confederado *Alabama, que ainda sob a designação de 290 armaria na ilha Terceira depois de sair dos estaleiros de Birkenhead, em Inglaterra. De facto, em virtude da neutralidade inglesa, o navio teve de partir de Inglaterra desarmado, navegando então para os Açores, chegando à Praia da Vitória a 10 de Agosto de 1862 onde receberia o armamento, munições e carvão. A 30 de Agosto, no navio Bahama, chegaria ao mesmo porto açoriano o capitão Semmes para assumir o comando do navio bem como alguns tripulantes. No dia 24 de Agosto, agora sob o pavilhão da Confederação, partiu para cumprir a missão que lhe cabia, ou seja, causar à marinha do Norte o maior dano possível. A partir de 5 de Setembro de 1862, ao largo das Flores iniciou uma verdadeira caça de que resultou um elevado número de presas: o Ocmulgee, Starlight, Ocean Rover, Alert, Weather Gauge, Altamaha, Benjamin Tucker, Courser, Virginia, Elisha Dunbar, contam-se entre as embarcações que veriam o seu fim no mar das Flores e que as contas do lado do Alabama estimam num prejuízo da ordem dos 230.000 dólares. Uma boa parte dos navios destruídos eram navios à caça de cetáceos, transportando considerável quantidade de azeite de baleia, mas as embarcações transportando cereais dos Estados Unidos para a Europa seriam igualmente alvos preferidos.
Os Açores mostrar-se-iam ainda úteis no plano da informação, havendo também indícios claros de que o porto da Horta terá sido da maior utilidade na obtenção de informações pelo navio da União, o Kearsarge na sua perseguição ao famoso predador dos mares, o pirata confederado, como era referido o Alabama. Menos visível terá sido a criação de dificuldades à navegação dos confederados pela intervenção do cônsul Dabney [ver Charles William Dabney], instruindo os vice-cônsules nas restantes ilhas para não lhe prestarem qualquer auxilio, nomeadamente no que tinha a ver com o abastecimento de carvão, já que a Secretaria de Estado do governo americano informara o consulado no Faial de que tinha conhecimento do transporte de carvão para os Açores com destino a navios confederados. Aliás, da leitura dos Annals of the Dabney family in Fayal resulta claro que o consulado americano nos Açores, com sede na Horta, fazia um acompanhamento de todos os movimentos do Alabama e da devastação que causava à navegação do Norte. Esta circunstância terá determinado a decisão do cônsul Dabney, armador da barca Azor que operava regularmente entre o porto da Horta e os portos do Leste americano, a embandeirar aquele navio com pavilhão inglês e a alterar o seu nome para Fredonia.
Importa referir, a este propósito, que o Kearsarge, no decorrer da sua perseguição ao Alabama, fundeou na Horta a 12 de Outubro de 1862 partindo a 15 do mesmo mês, sendo que regressaria àquele porto a 5 de Abril de 1863, vindo de Cadiz, onde o aguardava o capitão Winslow para assumir o seu comando. Parte de novo a 12 de Abril mas ainda neste ano volta à Horta entre 31 de Julho e 6 de Agosto para revisitar a baía faialense a 21 de Agosto. Depreendemos que esta permanência em águas dos Açores se relacione com eventuais informações dando como possível a presença do Alabama, já que as rotas transatlânticas têm na Horta escala de valia, nomeadamente para a navegação a vapor.
Em 2 de Setembro de 1863 o Kearsarge parte da ilha do Faial para uma viagem decisiva que o levaria a Cherbourg ao encontro do inimigo tão persistentemente procurado.
Entretanto, depois de um cruzeiro de cerca de seis meses ao Oriente o Alabama volta ao Atlântico contornando o Cabo em Março de 1864 depois de ter já destruído mais de 65 navios. Cherbourg é o destino e 11 de Junho desse ano é a data em que fundeará naquele porto. Três dias depois também o Kearsarge está à vista da costa francesa. Sob o olhar dos tripulantes do yacht inglês Deerhound os dois navios confrontam-se ao largo da costa. O poder de fogo era idêntico mas, a 19 de Junho de 1864, o Kearsarge afundava o Alabama.
Mera casualidade ou movido por necessidade de reabastecimento, o Kearsarge escalaria o Faial em 20 de Agosto de 1864 trazendo a notícia do desfecho do combate naval travado contra o Alabama e do seu afundamento.
Sem qualquer relevância merecedora de menção para esclarecimento dos episódios em apreço, mas apenas elucidativo das surpresas que a aventura da emigração açoriana por vezes revelava, refira-se que a bordo do Kearsarge estavam alistados marinheiros portugueses, um dos quais, Francis Viannah, nascido na ilha do Faial e que o anterior embarque nos navios baleeiros americanos afeiçoara às lides do mar. Ricardo Manuel Madruga da Costa
Bibl. Commager, H. S. (ed.) (1994), The Blue and the Gray. The story of the Civil War as told by participants, 2 vols.. [
