Gonçalves, Rui

 [N. ilha de S. Miguel, séc. XVI] Alguns lhe chamam R. G. da Grã, mas pouco se sabe da sua biografia além de que foi licenciado em Direito Civil e nomeado lente de Instituta na Universidade de Coimbra, com posse a 27.10.1539.

É controversa a universidade onde se tenha licenciado, mas é provável tê-lo sido em Lisboa, nos Estudos Gerais que aí estiveram até 1537. Não consta da lista dos lentes de Coimbra formados em universidades estrangeiras e a recente biógrafa, Elisa Lopes da Costa, ao dizê-lo licenciado pela Universidade de Coimbra não apresenta qualquer documento.

Não se manteve muito tempo na docência em Coimbra, onde foi também lente de Digestus, pois regressou a Lisboa onde se fez advogado da Casa da Suplicação.

Sabemos que foi pai do poeta novilatino Pedro Fernandes que escreveu dois pequenos poemas de homenagem ao pai e editados no livro do progenitor.

Foi o primeiro açoriano a publicar um trabalho, Privilégios e prerrogativas que o genero feminino tem por direito comum e Ordenações do Reino, mais que o genero masculino, impresso em Lisboa em 1557.

Escreveu em vernáculo e não em latim, para que o vulgo o entendesse e dedicou o seu trabalho, que seria para uso dos alunos, à rainha D. Catarina, a quem elogia como a melhor soberana. A obra consta de duas partes, a primeira trata das nove virtudes, nas quais as mulheres são iguais ou superiores aos homens, dando exemplos. A segunda tem por base a vontade de demonstrar a igualdade entre homens e mulheres e contempla os privilégios e as prerrogativas, que a legislação atribui ao género feminino. Fica, assim, na história como o primeiro autor nacional a defender a igualdade dos sexos e por muito tempo um caso isolado e singular.

Da sua obra na edição do século XVI, que desde cedo despertou o interesse dos bibliófilos, conhecem-se hoje 11 exemplares, nenhum deles em bibliotecas açorianas. No século XVIII foi feita uma 2.a edição, datada de 1785, dedicada esta por J. A., capelão real, à rainha D. Maria I.

É atribuído a Rui Gonçalves o Tratado sobre a expedição dos perdões, que concedem os reis de Portugal, impresso anonimamente em Lisboa, sem data, por João Barreiro, mas ainda no século XVI. J. G. Reis Leite

Obras. (1557) Dos privilegios e praerogativas que ho genero feminino t0 por direito com6 e ordenações do reyno mais que ho genero masculino. Apud. I o honn0 Barreri6 Regium Typographum Anno Domini, 1557. 4.o de 108 pp. e mais 2 inumeradas. [2.a ed. é de 1785, Lisboa, por Filippe da Silva e Azevedo – esta edição conserva a ortografia da primeira, realizou-se por diligência de J. A. e é precedida de um prólogo do editor; (1992) 3.a ed., fac-similada da 1.a, Lisboa, Biblioteca Nacional, com apresentação de Elisa Maria Lopes da Costa].

 

Bibl. Literatura Açoriana – Ruy Gonçalves (1853), In Revista dos Açores. Ponta Delgada, ed. J. d’Oliveira Machado, I: 291. Costa, E. M. L. (1992), Apresentação da 3.a ed. dos Privilégios e prerrogativas. Lisboa, Biblioteca Nacional de Lisboa: 9-15. Dias, U. M. (1931), Literatos dos Açores. Vila Franca do Campo, Ed. do autor: 337-338. Silva, I. (1973), Dicionário Bibliográfico Português. 2.a ed., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, VII: 189; XVIII: 299 [«Dicionário de Inocêncio»].