Glacial

Suplemento de artes e letras publicado no jornal A União, em Angra do Heroísmo, com início a 15 de Julho de 1967. O movimento que se gerou à sua volta deu origem ao que se convencionou chamar «geração glacial» ou «literatura glacial e da guerra colonial». O suplemento foi dirigido por Carlos Faria e, depois de 1972, por uma direcção colectiva de José Henrique Santos Barros, Ivone Chinita e David Mestre (Angola). Foi impulsionado por um grupo de jovens nascidos nos anos Quarenta, a que se juntaram alguns de Cinquenta. Viveram a *guerra colonial e ao longo dos anos foram influenciados por leituras marxistas e outras de cariz revolucionário. Duma forma geral, contestaram o poder político antes e depois do 25 de Abril e transformaram-se num pólo dinamizador da cultura açoriana. A partir de Angra, rapidamente o suplemento obteve a colaboração de escritores, poetas, pintores e intelectuais de outras ilhas, continente e também de África, através de David Mestre. Nas suas páginas, para além de nomes já conhecidos, incluem-se textos de jovens escritores que vieram posteriormente a afirmar-se. Segundo João de Melo (1982: 77), «a existência de Glacial tem de ser tomada no seu todo significante: 1o – produz um considerável alargamento de sentido na redefinição de todo o objectivo cultural; 2o – congrega à sua volta o sujeito colectivo dessa produção, designando uma certa trajectória, que se estabelece a partir do solitário para o solidário; 3o – aproxima gerações etárias e conceptuais distintas, distribuindo entre elas um espaço de perfeita simetria: os chamados nomes feitos sempre alternaram com os mais novos, sem jamais se privilegiar uns em prejuízo dos outros». Foram impressos 108 números até Junho de 1973, altura em que a Igreja, proprietária do jornal, afastou o padre Cunha de Oliveira da sua direcção, conhecido pelas suas ideias mais avançadas. A equipa coordenadora do suplemento, solidarizou-se com o director do jornal, mas retomou o projecto publicando uma nova série, com 4 números policopiados, entre Fevereiro e Abril de 1974, coordenados por Carlos Faria, Santos Barros, David Mestre e, posteriormente, Ivone Chinita. Mas, o movimento Glacial foi mais além, iniciando também a publicação de alguns livros com a chancela Gávea/Glacial, a partir de 1970, numa altura em que o movimento editorial nas ilhas era praticamente inexistente. Na colecção entraram nomes já conhecidos como Emanuel Félix e Dias de Melo, mas também jovens como Ivone *Chinita, Rui Rodrigues, Santos *Barros e António José Cunha. A actividade desta geração prolongou-se com exposições, a fundação da Cooperativa Sextante, encerrada pela PIDE, recitais, teatro e ciclos de cinema. Carlos Enes

Bibl. Melo, J. (1978), Antologia panorâmica do conto açoriano. Lisboa, Editorial Vega: 24-25. Id. (1982), Toda e qualquer escrita. Lisboa, Editorial Vega: 76-78.