geomorfologia

Neologismo composto pelos vocábulos gregos «Gaia» (da deusa grega da Terra), «morphos» (forma) e «logos» (com o sentido de descrição, conhecimento), que significa literalmente conhecimento ou estudo da forma da Terra. A geomorfologia é, portanto, a ciência que estuda as formas do relevo terrestre, a sua relação com as rochas e a estrutura geológica subjacente, os processos que contribuíram para a criação das formas do terreno e a sua evolução no tempo. É um ramo da geologia na interface com a geografia física.

As formas do relevo resultam da acção dos agentes modeladores: os processos da geodinâmica interna (tectónica e vulcanismo) e da geodinâmica externa (agentes erosivos e processos sedimentares) sobre uma dada região, ao longo de um dado período de tempo. Reflectem, normalmente, a constituição geológica da região e os processos que sobre ela actuaram nos tempos mais recentes, embora por vezes exista uma herança morfológica de épocas passadas.

Nos Açores a geomorfologia é caracterizada por formas vulcânicas, essencialmente formas de construção, modificadas pela tectónica e pelos processos erosivos. Assim, a morfologia das ilhas é marcada fortemente pelos processos da geodinâmica interna: o vulcanismo e a tectónica.

A tectónica é o principal factor que condiciona a localização das ilhas, pois a actividade vulcânica está controlada pelos processos de tectónica de placas actuantes naquela região do Atlântico. As geoformas maiores são de origem vulcânica: os edifícios que constituem as ilhas e que foram sendo construídos por acumulação de produtos vulcânicos ao longo de milhões de anos, a partir do fundo oceânico. A partir do momento que o vulcão emerge passa a existir uma ilha cuja parte visível acima do nível do mar é uma porção reduzida do edifício vulcânico total.

As formas de origem vulcânica podem ser divididas em formas positivas ou convexas (relevos s.s.) e negativas ou côncavas (depressões). As formas positivas podem ser edifícios vulcânicos poligénicos, os grandes vulcões escudo ou estrato-vulcões, com diâmetros ao nível do mar da ordem da dezena de quilómetros e altitudes superiores a várias centenas de metros. Estes edifícios são formados por uma sucessão de numerosas erupções ao longo de períodos da ordem das centenas de milhares de anos. Constituem exemplos destes edifícios, o vulcão das Sete Cidades em S. Miguel, o Vulcão de Santa Bárbara na Terceira, a montanha do Pico ou a ilha do Corvo. Formas positivas menores são formadas pelos vulcões monogenéticos, ou seja aqueles que resultaram de uma única erupção, cuja duração oscila usualmente entre um a alguns meses. Estes pequenos vulcões apresentam diâmetros da base em geral inferiores a um quilómetro e alturas de algumas dezenas de metros (normalmente abaixo de 200 m). Exemplificam este tipo de formas os numerosos cones de bagacina (formados por erupções estrombolianas ou havaianas) conhecidos em todas as ilhas e particularmente abundantes em alguns sectores destas: por exemplo no planalto a oriente da montanha do Pico, na região norte da ilha Graciosa, ao longo de toda a zona axial ocidental da ilha de S. Jorge, no sector entre os grandes vulcões das Sete Cidades e do Fogo (ou de Água de Pau) em S. Miguel, etc.. Outros edifícios de pequena dimensão são formados por erupções submarinas que ocorrem a pequena profundidade, junto ao litoral das ilhas ou no topo de alguns relevos submarinos como o banco de D. João de Castro. Estas erupções, do tipo surtsiano, originam cones com dimensão geralmente um pouco superior à dos anteriores. O vulcão dos Capelinhos e o Monte da Guia, no Faial, o Monte Brasil e os Ilhéus das Cabras na Terceira, o Morro Grande das Velas de S. Jorge, ou o Ilhéu de Vila Franca, são exemplos deste tipo de formas. Os que ocorreram mais próximo da linha de costa uniram-se por istmos à ilha principal, os outros constituem ilhéus que progressivamente vão sendo destruídos pelo mar até que reste apenas um baixio. Esta evolução pode ser exemplificada pelo Ilhéu de Vila Franca, em que o cone está quase intacto, os Ilhéus das Cabras, num estado um pouco mais evoluído de erosão, os Ilhéus da Madalena, onde a forma do cone já não é reconhecida pela maioria das pessoas, e os baixios do Banco D. João de Castro, onde a acção do mar já arrasou o cone formado na erupção de 1720 até à profundidade de cerca de 10 m. Os domas ou domos, que se formam por acumulação de lavas muito viscosas sobre as condutas alimentadoras, são um outro tipo de forma vulcânica positiva. Estas estruturas, que ocorrem em várias ilhas do arquipélago, são particularmente abundantes na ilha Terceira.

Os derrames lávicos e as coberturas piroclásticas contribuem para preencher zonas deprimidas da topografia, concorrendo para a regularização do terreno em que se depositam. As escoadas lávicas, quando atingem o litoral, podem também contribuir para aumentar a superfície da ilha através da criação de fajãs.

As formas negativas podem ser de três tipos: as crateras, as caldeiras e as cicatrizes de escorregamento. As mais comuns são as crateras, presentes no topo da maioria dos vulcões, qualquer que seja a sua dimensão. A cratera é uma depressão, originalmente com a forma de um cone invertido, que resulta do próprio processo eruptivo explosivo que não permite a deposição de material piroclástico naquele local. Com o tempo, aquelas depressões tomam formas mais adoçadas, hemisféricas, em resultado da deposição de materiais, removidos das vertentes interiores, no fundo da cratera. Algumas crateras formam-se sem estar na dependência de um cone. Isto sucede particularmente em erupções freáticas ou freato-magmáticas em que o processo explosivo cria uma cratera na superfície topográfica, em torno da qual se acumula um anel, em geral pouco elevado, de materiais piroclásticos. Várias crateras da região planáltica da ilha das Flores, como as «caldeiras» Negra, Comprida, Seca e Funda, bem como as crateras das lagoas do Congro, de Santiago ou Rasa, em S. Miguel, exemplificam este processo. Outras formas deprimidas são as caldeiras e crateras de abatimento (crateras poço) que resultam do afundamento da parte superior do edifício vulcânico por esvaziamento parcial de bolsadas magmáticas existentes no interior do próprio edifício. Normalmente este fenómeno ocorre na sequência de erupções de grande magnitude, em que a remoção de grandes volumes de magma do interior do vulcão provocam a perda de capacidade de sustentação da zona central do edifício que se afunda para o interior dele próprio. As caldeiras dos vulcões açorianos estão relacionadas com erupções plinianas de magnitude importante e, frequentemente, múltiplos eventos desse tipo originam caldeiras coalescentes, aumentando progressivamente a dimensão da caldeira. Quase todos os grandes vulcões dos Açores exibem caldeira no topo; a excepção é o vulcão do Pico onde, em vez de caldeira, existe uma cratera poço com cerca de 500 m de diâmetro. Todos os outros vulcões poligénicos apresentam caldeira mais ou menos complexa. Em S. Miguel existem caldeiras nos vulcões da Povoação (cuja génese está ainda mal compreendida), Furnas, Fogo e Sete Cidades, na Terceira encontram-se as caldeiras do vulcão da Serra do Cume, a maior dos Açores com cerca de 7 km de diâmetro, de Guilherme Moniz, do Pico Alto (esta dificilmente reconhecível como tal por estar quase totalmente preenchida por domas traquíticos) e de Santa Bárbara, existindo também na Graciosa, no Faial e no Corvo, a caldeira do Caldeirão. A existência de caldeiras na ilha das Flores não é consensual. As dimensões destas depressões vulcânicas (embora não constituam uma característica diagnosticante pois a distinção entre estas estruturas deve ser genética) são normalmente bastante superiores às de uma cratera. Nos Açores as caldeiras apresentam diâmetros que variam entre os 7 km da caldeira da Serra do Cume e os 2 por 1 km da caldeira da Graciosa. As profundidades são também consideravelmente superiores às de uma cratera, podendo atingir algumas centenas de metros. Podem mencionar-se, a título de exemplo, os cerca de 600 m da Caldeira das Sete Cidades, os 370 m da Caldeira do Fogo, os 620 m da Caldeira das Furnas ou os 510 m da Caldeira do Faial, que ultrapassam largamente as poucas dezenas de metros de profundidade de qualquer cratera.

O terceiro tipo de forma deprimida resulta de colapso gravítico de porções dos flancos de grandes edifícios vulcânicos. Este processo ocorre em resposta a solicitações sísmicas, a deformações de natureza vulcânica ou tectónica, em resultado do enfraquecimento das rochas por acção de alteração hidrotermal, ou simplesmente por crescimento para além do ângulo de repouso das matérias constituintes do vulcão. Quando uma daquelas circunstâncias provoca instabilidade nas vertentes de um grande vulcão, este pode sofrer deslizamentos de grandes proporções que criam grandiosas depressões em anfiteatro. Sabe-se actualmente que este é um processo comum na evolução dos grandes edifícios vulcânicos, em particular dos vulcões insulares, estando particularmente bem estudado nas ilhas do arquipélago havaiano e nas Canárias. Os vulcões dos Açores não são excepção, conhecendo-se cicatrizes de grandes escorregamentos na ilha do Pico, nos vulcões do Topo (na região do Arrife-Terra Chã) e do Pico (vertente sobre S. Mateus e S. Caetano), ou nas arribas litorais do edifício vulcânico da ilha das Flores (de que a Fajã Grande constitui o exemplo mais desenvolvido).

Os vulcões que constituem as ilhas são continuamente deformados pela tectónica activa actuante na região. A deformação tectónica caracteriza-se essencialmente pela ocorrência de sismos que resultam da libertação súbita da energia elástica acumulada pelas rochas e causam deslocamentos nos planos de falha que geraram os sismos. Quanto a rotura no plano de falha se propaga até à superfície topográfica, esta é deslocada formando-se uma vertente. Estas vertentes são chamadas escarpas de falha. A dimensão do deslocamento ao longo do plano de falha depende da magnitude do sismo e da profundidade do foco. Em geral, sismos superficiais de magnitude M = 6 ou superior podem causar rotura da falha até à superfície. Tomando como exemplo os sismos de magnitude moderada a alta característicos dos Açores (M = 6 a 7), verifica-se que um evento de magnitude M = 6 pode provocar um deslocamento superficial máximo da ordem de 10 a 15 cm, enquanto que um sismo de magnitude M = 7 provocará um deslizamento em torno de 2 m. É a acumulação de múltiplos deslocamentos superficiais que origina as escarpas de falha de dimensões significativas que se observam nalgumas ilhas. São exemplo deste tipo de formas, as imponentes escarpas de falha da ilha do Faial (as «lombas» da toponímia local, entre outras vertentes): Lomba da Ribeirinha ou dos Espalhafatos, Lomba Grande, Lomba dos Frades, Lomba do Meio, Lomba de Baixo, etc.. Também a ilha Terceira exibe escarpas de falha de dimensão importante como a que constitui a vertente sudoeste da Serra de Santiago (escarpa da Falha das Lajes) ou a vertente voltada a nordeste das Fontinhas, que em conjunto definem o Graben das Lajes.

Estas formas construtivas, geradas por acção dos agentes da geodinâmica interna, são continuamente actuadas pelos agentes da erosão. Os agentes erosivos, a chuva, a neve, o gelo, o vento e o mar através da acção das ondas, tendem a reduzir o relevo ao remover e transportar os produtos da erosão das zonas mais elevadas para as mais deprimidas. Nos vulcões insulares, como é o caso dos vulcões açorianos, o agente erosivo mais eficiente é o mar, cuja rapidez pode ser verificada pela evolução do vulcão dos Capelinhos nos 50 anos que decorreram desde a sua formação. Mais de dois terços do volume do vulcão foram removidos pela erosão marinha, que já atingiu a cratera do cone central. Os rochedos dos Capelinhos, que tinham sido englobados pelo novo cone em 1957, encontram-se já expostos nas arribas do lado sul. Este processo constitui uma evidência da acção oposta do vulcanismo e da erosão marinha, que destrói o que aquele constrói. Assim, as ilhas existirão enquanto a actividade vulcânica suplantar a acção erosiva do mar. Quando o vulcanismo cessar, as ilhas sofrerão uma redução inexorável sob acção dos avanços da erosão marinha, até que finalmente serão totalmente arrasadas e constituirão apenas um baixio.

José Madeira