General Armstrong

Este brigue não é mais um navio corsário que no ano de 1814 tenha demandado o ancoradouro faialense para refrescar. Este corsário americano foi o protagonista de um episódio sangrento ocorrido naquele ano na baía da Horta, ilha do Faial, em resultado do confronto que, então, opunha a Grã-Bretanha aos Estados Unidos da América. A persistente afirmação de neutralidade por parte dos Estados Unidos da América, implicando a livre navegação e comércio no Atlântico, afectavam os interesses britânicos, já que o transporte de «mercadoria inimiga» com destino a portos de nações hostis, nomeadamente a França napoleónica, favorecia este país em guerra com a Grã-Bretanha. O frequente apresamento de navios americanos pela marinha britânica e o desembarque forçado de marinheiros americanos com a alegação de que seriam cidadãos britânicos, criaria uma situação insustentável que forçaria o governo americano a declarar guerra à sua antiga metrópole. O conflito ficou conhecido como *Guerra de 1812 e é no âmbito dos episódios envolvendo navios corsários que se situa o combate naval ocorrido na Horta entre o brigue General Armstrong e uma flotilha inglesa chegada ao porto da ilha do Faial ao fim da tarde de 26 de Setembro de 1814, integrando os navios de guerra Rota, Carnation e Plantagenet. Comandava a flotilha o comodoro Robert Lloyd e apesar da neutralidade portuguesa e do facto de o brigue americano se encontrar próximo do Castelo de Santa Cruz [ver forte de Santa Cruz], o comandante inglês não hesitou em mandar abordá-lo por quatro escaleres com homens armados. Do embate bastante violento, resultaria num elevado número de mortos de ambos os lados. O governador militar da ilha do Faial, Elias José Ribeiro, impotente para intervir militarmente, limitar-se-ia a um protesto formal junto do comodoro Lloyd, aliás sem consequências, e a relatar os factos ao capitão-general dos Açores desencadeando um longo processo com implicações diplomáticas envolvendo Portugal, a Inglaterra e os Estados Unidos da América. Localmente, resultou da refrega forte prejuízo em 28 moradias da vila da Horta.

O encerramento do caso, com a arbitragem de Luís Napoleão, apenas se verificou em 1851 a favor dos Estados Unidos da América.

Este episódio acabaria por se revelar de grande relevância no curso da guerra, uma vez que o atraso da flotilha inglesa, causado pelos danos e pela necessidade de assistir os feridos, permitiria o reforço da defesa de New Orleans sob o comando do general Andrew Jackson, impedindo a ocupação da Louisiana pelo almirante Cochrane.

Armado, em Nova York, com 7 peças de artilharia, este brigue de 246 toneladas rompeu o bloqueio inglês a 9 de Setembro de 1814 chegando à Horta ao meio-dia de 26 do mesmo mês onde teria desempenho notável no decorrer do combate que travou contra a flotilha inglesa a que se fez referência acima e que a história naval dos Estados Unidos da América regista.

Como resultado do seu desmantelamento no ancoradouro faialense, a figura de proa que o General Armstrong ostentava, foi oferecida à família Dabney em resultado do acolhimento oferecido aos tripulantes do navio. Permaneceu na posse da família, nos jardins da sua residência na Horta, a Bagatelle, até 1867, data em que Charles William *Dabney a ofereceu ao Museum of the Navy Yard, de Charleston.

O canhão Long Tom, uma peça de calibre 42, arrematado na Horta e colocado ao serviço do Castelo de Santa Cruz, na vila faialense, foi mais tarde oferecido, com a concordância do rei D. Carlos I, ao governo americano. A própria peça tem um historial acidentado. Pertencia originariamente ao navio francês Hoche e foi adquirido por um negociante americano que o enviou para Nova York. Inicialmente instalado a bordo do navio Samson utilizado na defesa do Haiti contra os franceses, acabaria por voltar a Nova York até fazer parte do armamento do General Armstrong. Ricardo Manuel Madruga da Costa

Bibl. Arquivo dos Açores (1983), ed. fac-similada da ed. de 1892. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, XII: 57-75. Dabney, R. L. (compil.) ([1899]), Annals of the Dabney family in Fayal. [Boston], ed. for private circulation. «General Armstrong» e o canhão «Long Tom». Victory at Fayal (s.d.). Horta, Direcção Regional de Turismo. Herald, New York, 19 de Abril de 1893. Lima, M. (1940), Anais do Município da Horta. Famalicão, Oficinas Minerva. Macedo, A. L. S. (1981), História das quatro ilhas que formam o distrito da Horta. 3 vols., Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura [Ed. fac-similada da ed. de 1871]. Reid, S. C. (1893), History of the wonderful battle of the brig Gen. Armstrong at Fayal. Azores. 1814. And the American flag. Boston, L. Barta & Co. Printers. Ribeiro, J. M. (2000), O papel dos Açores e da Madeira no relacionamento luso-americano nos finais do século XVIII e inícios do século XIX. V Colóquio internacional de História das Ilhas do Atlântico. O papel das ilhas do Atlântico na criação do contemporâneo. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da lha Terceira: 285-305. Silva, L. P. (1873), O Corsário General Armstrong in Almanak do Fayalense para 1874. Horta, Tip. Hortense: 45-59.