gabinetes de leitura
A criação dos chamados gabinetes de leitura insere-se no movimento cultural que cobriu todo o país, a partir da segunda metade do século XIX. Ou se constituíram associações com essa designação ou os gabinetes se incorporaram noutras instituições com espaços reservados à leitura. Deste modo, numerosas colectividades nos Açores seguiram essa moda, impulsionada por gente quase sempre ligada à maçonaria e que dominava as várias colectividades. Acreditando que a libertação do homem e o progresso da humanidade passava pela sua ilustração, empenharam-se a fundo em diversos projectos, desde a fundação de bibliotecas, a promoção de aulas gratuitas, dinamização do teatro ou a realização de saraus literários. Como afirmou Ernesto Rebello, também maçon, «Nas obras da civilização a semente uma vez lançada à terra, mesmo que seja pequeníssima, adquire raízes de incrível tenacidade e vem mais tarde à superfície». Com este espírito e com a esperança de que a «primavera romperá um dia festiva», os membros da maçonaria dinamizavam várias associações, emprestavam temporariamente os seus livros e jornais, chegando noutros casos a oferecê-los. O sonho quase sempre esbarrava na dura realidade, mas nem por isso deixaram de promover iniciativas. Como referiu Ernesto Rebelo «certas instituições literárias, mesmo as mais profícuas, carecem de muita dedicação para arrostar com o gelo siberiano da indiferença pública, não no primeiro período da sua existência, que é sempre próspero, mas mais tarde, quando o calor da inovação já cessou e que as dificuldades se alevantam a cada passo». Apesar de todas as dificuldades, é possível constatar algum movimento cultural espalhado por várias ilhas, em torno dos gabinetes de leitura. Em São Miguel, uma das suas mais antigas associações, a Sociedade da Agricultura Micaelense, fundada em 1843, para além de outras actividades possuía um gabinete de leitura. O exemplo foi seguido por outras colectividades da cidade, como o *Club Micaelense (1857), a Sociedade Recreativa (1856), o Grémio Recreativo das Classes Laboriosas (1860), tendo sido fundado na Ribeira Grande, em 1880, um Gabinete de Estudo. Em 1874, havia em Ponta Delgada, um gabinete do Jornal de Notícias para os seus assinantes e outro de Nuno Cordeiro, com cerca de 2 mil volumes. No Faial, a loja maçónica *Amor da Pátria fundou a Sociedade Amor da Pátria (1859) e a associação Grémio Literário Artista Faialense (1878), nos quais havia um gabinete para os seus associados com livros e jornais nacionais e estrangeiros. Esta iniciativa foi seguida pelo Grémio Literário Faialense (1878), nome profano da Loja Luz e Caridade, e pela Sociedade Humanitária de Litteratura e Agricultura (1879), nome profano da Loja A Regeneração. Na mesma ilha, Thomaz José Brum da Terra, criou um gabinete Camoneano, na sequência das comemorações do tri-centenário do poeta, em 1880. Coleccionou livros, manuscritos, jornais, fotografias, medalhas, etc., que estavam acessíveis a um público estudioso daquela temática. O Gabinete de Leitura Faialense (1873), com cerca de mil volumes, facilitava leitura de livros, mas também a aquisição de exemplares nacionais ou estrangeiros. Na Terceira, a *Assembleia Angrense (1835), a Associação Comercial (1852), o Grémio Literário de Angra (1866), o Club Popular Angrense (1868), entre outros, abriram nas suas salas espaços para leitura. O Gabinete de Leitura Terceirense (1871), propriedade de A. Gil, não só proporcionava a leitura gratuita na sede, como alugava, vendia e comprava livros nacionais e estrangeiros, através de um catálogo. O movimento mensal aproximava-se dos 250 leitores. Na Praia da Vitória foi inaugurado a 11 de Maio de 1890 o Grémio Serpa Pinto, associação de jogos lícitos e gabinete de leitura. No Pico, várias iniciativas do género espalharam-se pela ilha. Em 1876, por iniciativa de Manuel dAzevedo e Castro, apoiado por outros, formou-se o Gabinete de Leitura das Lagens do Pico. Para além da cota mensal dos associados, a Câmara Municipal concedeu um subsídio anual e os livros eram no início emprestados pelos sócios. Quando já estava a estudar em Coimbra, João Paulino conseguiu arrecadar centenas de livros que foram enviados para o Gabinete. Este gabinete foi incorporado, em 1895, no Grémio Literário Lajense, instituição cultural e recreativa. Em 1882, foi inaugurado o Gabinete de Leitura Marquês de Pombal, em São Roque. Uma iniciativa do micaelense João Afonso Botelho Andrade, que doou livros e jornais para comemorar o centenário do estadista. A ele se associaram outras pessoas da vila, com destaque para o proprietário do jornal O Picaroto, Manuel Ernesto Tomaz da Silva, onde o gabinete chegou a estar instalado antes de conseguir uma sede própria. No ano seguinte o gabinete foi incorporado numa sociedade recreativa que manteve a designação. Em 1894, foi fundado o Gabinete de Leitura Camilo Castelo Branco, na freguesia de São Mateus, também no Pico, que promoveu aulas de um curso nocturno, a partir de 1894. Ainda na mesma freguesia, em 1917, a Associação Humanitária de Recreio e Estudo Juventude Católica Bento XV preocupou-se com a formação dos jovens promovendo sessões de leitura. É muito provável que noutras ilhas a mesma atitude tenha sido tomada pelas diversas associações, como forma de compensar a falta de bibliotecas públicas. Carlos Enes
Bibl. Rebelo, E. (1982), «Notas Açoreanas». Arquivo dos Açores, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IX: 49-56.
