franciscanos

A presença de franciscanos nos Açores data dos primórdios da ocupação insular, quando estes religiosos se instalam na ilha de Santa Maria, em 1446, tornando-se pastores da primeira igreja mariense, invocada a Nossa Senhora da Conceição. Dez anos depois, a sua presença faz-se sentir na Terceira, onde a comunidade se concentra na ermida de Nossa Senhora da Guia que, a partir de 1666, se tornaria a igreja de S. Francisco, actual espaço museológico. A protecção dos insulares, oriunda de diferentes grupos sociais, foi crucial para a dinamização da espiritualidade franciscana, praticando um mecenato imprescindível para a edificação dos espaços de culto desta ordem mendicante. Neste âmbito incluem-se, entre muitos outros exemplos possíveis, os capitães-donatários Corte-Real, padroeiros do convento de Angra, e o mercador Lázaro Rodrigues Estrela, dotador do convento de Nossa Senhora da Ajuda, em S. Miguel. De finais do século XV a meados do século XVII, a expansão franciscana fez-se sentir em todo o arquipélago, edificando 16 mosteiros: 6 em S. Miguel, 2 na Terceira, 2 em S. Jorge, 2 no Pico, 1 em S. Maria, 1 no Faial, 1 na Graciosa e 1 nas Flores. Tal dinamismo reflecte a pujança do novo tipo de religioso, com um marcado carácter humanista, onde o voto de pobreza, a missionação, a pregação itinerante e a competência educativa vivificam nos meios de maior densidade populacional e nos espaços urbanos emergentes. Até meados do século XVI, os franciscanos açorianos estiveram subordinados aos claustrais do Porto e, em 1570, após a extinção destes por Breve de Pio V, passaram a estar sob a alçada dos observantes. Em 1594, é constituída a custódia açoriana, subordinada à Província dos Algarves, que, por Breve de Urbano VIII, datado de 20 de Novembro de 1640, autonomiza-se pela instituição da Província de S. João Evangelista. Já em 1717 surgiria uma nova custódia (Nossa Senhora da Conceição), que incorporava as ilhas de S. Miguel e de Santa Maria. A importância numérica dos franciscanos não é quantificável, face à ausência de fontes credíveis, mas a sua relevância na sociabilidade açoriana é indiscutível. Para lá da sua dinâmica no quotidiano religioso, palpável pela influência da parenética, missionação e educação dos mais jovens, a proliferação das Ordens Terceiras por todo o arquipélago comprova o êxito da mensagem franciscana. A sua espiritualidade influenciava, ainda, a artes moriendi: a maioria da população enterrava-se vestindo hábitos franciscanos, de saial ou de picote, e fazia-se acompanhar por estes religiosos, de forma a demonstrar a sua adesão a uma pobreza evangélica que seria premiada pelo juízo divino. Se nas ilhas de S. Miguel, Terceira e Faial o espírito franciscano poderá ter encontrado alguma rivalidade pela presença jesuíta, nas ilhas de menor dimensão a representação mendicante manteve-se vigorosa até finais do século XVIII. Com o advento do liberalismo, a maior parte das casas franciscanas, agora despojadas de religiosos, multiplicaram as suas competências como bens públicos, infelizmente muitas delas ainda hoje deixadas ao abandono. O caso do convento de S. Pedro de Alcântara, no Cais da ilha do Pico, é paradigmático das nefastas influências das convulsões políticas da contemporaneidade. Edificado ao longo da primeira metade de Setecentos, é encerrado em 1832, após a expulsão dos frades aí residentes. Três anos depois, recebe diversas repartições estatais, designadamente o Tribunal e os Serviços Camarários, e tornava-se anfitrião de instituições recreativas, como as Filarmónicas «União Artista», em 1880, e «Liberdade», em 1910. Em 1930, o convento serve para aquartelamento de militares e políticos deportados pelo regime salazarista (cf. deportados). Em 1954, aí se instalam as forças policiais e, desde 1957, as suas salas passam a ser utilizadas para a apresentação de sessões de cinema. Em 1961, o espaço conventual recebe os serviços da Administração Florestal da ilha e, a partir de 1974, o Externato de Ensino Particular. O progressivo esvaziamento do espaço conventual foi-se realizando nas últimas décadas do século XX, mas este fenómeno não levou à revitalização deste imóvel, que se apresenta actualmente ao público num estado de total abandono. Susana Goulart Costa

Bibl. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. Angra do Heroísmo-Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Universidade dos Açores. Cordeiro, A. (1981), História Insulana das Ilhas a Portugal Sujeytas no Oceano Occidental. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura. Frutuoso, G. (1978), Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 6 vols. Enes, M. F. (1999), A vida conventual nos Açores: regalismo e secularização (1759-1832). Lusitania Sacra, (2), XI: 323-351. Id. (2000), Angra do Heroísmo, Diocese de. Dicionário de História Religiosa, 1: 67-79. Ferreira, P. J. I. (1996), Convento S. Pedro de Alcântara. Mosaicos da sua história. São Roque do Pico, Junta de Freguesia de S. Roque do Pico. Macedo, A. L. S. (1981), História das Quatro ilhas que formam o distrito da Horta.  Angra do Heroísmo, Região Autónoma dos Açores, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional dos Assuntos Culturais [Reimpressão fac-similada da edição de 1871]. Montalverne, A. (1988), Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 3 vols. Moreira, A. M. (2000), Franciscanos. Dicionário de História Religiosa. Lisboa, Círculo de Leitores, 2: 273-280. Pereira, I. R. e Matos, A. T. (1980), Angra, diocese de. Dicionário de História da Igreja em Portugal. Lisboa, Editorial Resistência, I: 316-336. Tavares, P. J. J. (1986), A vila da Lagoa e o seu concelho. Ponta Delgada, Impraçor.