fortificação

Os primeiros registos de fortificações no arquipélago dos Açores, remontam à construção da muralha da Praia e ao *Castelo dos Moinhos, em Angra, ambas na Ilha Terceira. Pouco sabemos da arquitectura destas estruturas defensivas. O desenho do Castelo que figura na planta de Linschotten (1595), e nas outras plantas posteriores nela inspiradas, mostra uma construção acastelada, manifestamente medieval; não corresponderá, porém, à sua forma real, pois a preocupação do autor, tal como noutros edifícios da cidade (v.g. forte de São Sebastião) foi marcar-lhe a localização, não a estrutura. Mais merecedora de crédito, será a representação de Rodrigo d’Almeida (1805), dando-lhe planta praticamente quadrada, correspondendo à plataforma onde hoje se ergue o monumento a D. Pedro IV (Memória), provavelmente com cubelos ou torres redondas sensivelmente a meio de cada cortina. Das muralhas da Praia, não há qualquer descrição pormenorizada ou informação iconográfica. Desde meados do século XV, com a introdução da artilharia pesada, ambas as estruturas defensivas da Terceira deixaram de corresponder às necessidades de defesa contra o novo armamento de fogo, mas deviam seguir a tradição da fortificação medieval com desenvolvimento em altura, característica no domínio da neurobalística. Muito embora o sistema do baluarte tenha origem no século XV, em Itália, com os trabalhos de Martini, confirmados por arquitectos posteriores como Sangallo, Miguel Ângelo, Peruzzi, Vignola, não há informação sobre a sua aplicação em Portugal antes da segunda metade de Quinhentos, quando a fortificação já é domínio de engenheiros.

Esta distinção entre a fortificação de tipologia medieval e aquela do âmbito da pirobalística obriga-nos, neste e nos restantes textos sobre o tema da nossa responsabilidade, a precisar a terminologia designativa das estruturas defensivas erguidas nos Açores até ao século XX. Assim, enquanto para a fortificação medieval seguiremos a designação «castelo» – apenas para o Castelo dos Moinhos, pois que outros não foram construídos nos Açores – para as construções defensivas posteriores usaremos a designação de «forte» – excepção para o «Castelo» de São João Baptista que, pela sua extensão (incorpora inclusivamente, vários fortes) os especialistas incluem na tipologia de «fortaleza». Atente-se, porém, que nas referências históricas a indistinção entre «castelo», «forte», «fortaleza», «estância», «reduto», «fortim», «baluarte», «barbete» e «bateria» é constante. É frequente o nome «castelo» ser dado ao(s) forte(s) mais extenso(s) dos principais centros populacionais: Castelo de São João Baptista e Castelo de São Sebastião, em Angra, Castelo de Santa Cruz, na Horta, Castelo de Santa Cruz, nas Velas, Castelo de São Brás, em Ponta Delgada, só para citar alguns. Igualmente a designação de «fortaleza» também, frequentemente, estabelece uma hierarquia de importância estratégica ou de grandeza, posicionada superiormente ao castelo: Fortaleza de São João Baptista, em Angra do Heroísmo, Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, nas Velas, Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição, na Vila do Porto. O galicismo «fortim» surge, igualmente, nos escritos históricos com preocupações tipológicas, nomeadamente para construções, ao tempo, mais actualizadas, ou, então, mais pequenas. Finalmente outras designações como «reduto», «bateria», «baluarte», «barbete» aparecem, também, com preocupações tipológicas em determinados contextos descritivos e datados.

A criação da Provedoria das Armadas, em Angra, determinou, provavelmente, a fortificação da baía, logo por essa época (1527) ou nos anos seguintes. Porém, a referência conhecida de fortificação da costa por iniciativa do provedor Pedro Anes do *Canto, se bem que sem datação precisa, é a da construção no seu porto privativo da Cruz, nos Biscoitos, de «um repairo de pedra e cal e outros de pedra ensossa, com três ou quatro peças de artilharia para defensão dele...» (Gaspar Frutuoso). Nota-se, aqui, uma alteração radical na função estratégica da fortificação, com irreversíveis consequências na tipologia das construções e na sua localização. Enquanto o Castelo dos Moinhos foi levantado no cimo de um outeiro, relativamente afastado do mar, pelo menos o suficiente para, com a eventual artilharia que possuiria, não bater o porto, e com couraça de muralhas altas e torres redondas mais próprias ao armamento medieval, o pequeno forte dos Biscoitos batia ao mar, defendia o porto por onde o inimigo poderia entrar, e apresentava uma estrutura adaptada à operação com artilharia de fogo. Desde os anos em que Álvaro Martins *Homem terá dado começo ao Castelo dos Moinhos até ao reparo de Pedro Anes do Canto, pelo menos meio século havia passado, e não só a importância estratégica da ilha tinha aumentado exponencialmente, como o artilhamento das naves que chegavam ao arquipélago passara a ser comum, e tornara-se muito mais poderoso e eficaz.

Não está esclarecido se o baluarte mandado construir em Angra, em 1537, por D. João III, no âmbito das atribuições da Provedoria das Armadas, foi construído. Estranho seria, porém, que, tal como nos Biscoitos, o provedor das armadas e das fortificações da Ilha Terceira não tivesse providenciado qualquer obra defensiva, do género daquela, na baía da cidade.

Mas, as obras de engenharia militar moderna só têm verdadeira expressão nos Açores com o levantamento dos citados fortes de São Brás e de São Sebastião.

A construção do *forte de São Brás tem como primeiro desenvolvimento conhecido a carta dirigida ao rei, datada de 23 de Março de 1551, e levada pelo mestre de obras e capelas dos Açores, Manuel Machado, na qual se propunha a construção de uma fortaleza em Ponta Delgada, conforme desenho que seguia em anexo. Logo no ano seguinte, chegava Isidoro de *Almeida a São Miguel, acompanhando o capitão Manuel da *Câmara, para dar início ao forte. Simultaneamente, Manuel da Câmara, em cumprimento de ordens régias, terá providenciado o levantamento de estâncias defensivas nos portos ou surgidoiros da ilha mais expostos ao desembarque de corsários e piratas, cujas especificações construtivas contidas no próprio documento fixavam a tipologia – provavelmente já presente nos reparos de Pedro Anes do Canto, na Terceira – que, grosso modo, será aplicada futuramente na construção de pequenos fortes marítimos em várias ilhas dos Açores: terrapleno lajeado, com parapeito de protecção frontal e pequena casa para abrigo de materiais, com gola à retaguarda (... a praça de cada uma das ditas estâncias será chã e calçada como convém, de maneira que possam as peças facilmente correr para onde for necessário [...] As quais estâncias serão reparadas o melhor que puder ser para que a artilharia do mar lhes não faça dano, e fá-las-ão de maneira que se possam fechar [...] E para cada uma das peças grossas de artilharia que não estiver em coberto se lhe fará cobertura de tabuado de duas águas que cubra o reparo e rodas...).

Em 1560, se antes já não o havia feito, era a vez da Câmara de Angra solicitar ao Cardeal Regente protecção para a cidade. Além do pedido de armamento e munições, também era levantada a necessidade de fortificação de Angra. Porque na cidade não havia nenhum forte donde se pudesse assestar artilharia, no ano seguinte, o Regente mandava construir, para o efeito, um forte muro de cantaria entre o Cais e a Prainha. Com o intento de fortificar a ilha Terceira, em 1562 Luís Gonçalves foi nomeado mestre de obras, sob a inspecção do respectivo provedor, João da Silva do *Canto. Com toda a probabilidade, e na falta de outra informação, nesta época terão sido levantados, com a referida muralha, os pequenos fortes da Porta do Mar e defronte do Açougue. E numa lógica de sistema defensivo, ainda os portões fortificados do Porto Novo e do Porto de Pipas (se bem que este possa ter sido construído já anteriormente), e o forte do Fanal, todas estas estruturas defensivas representadas na planta de Linschoten, de 1595. Não só as obras de levantamento do forte de São Brás ter-se-ão desenvolvido a um ritmo demasiado lento, como as obras de fortificação de Angra seriam insuficientes, pelo que, em 1567, o provedor das obras do reino, Álvaro Pires, fez deslocar aos Açores o capitão Pompeo *Arditi e o engenheiro Tommaso *Benedetto para estudarem a defesa do Arquipélago. A este engenheiro se deverá a planta final do forte de São Brás, em Ponta Delgada, e a planta do forte de São Sebastião em Angra do Heroísmo. Ambos os técnicos ter-se-ão deslocado ao Faial e a São Jorge, pelo que a Tommaso Benedetto, há quem atribua os planos para a construção do *forte de Santa Cruz, na Horta. Eventualmente, também terá dado instruções para o levantamento de uma cortina defensiva quinhentista nas Velas. Mas, principalmente, a Tommaso Benedetto se deve a concepção do mais extraordinário sistema defensivo levantado nos Açores. O mérito da sua concretização ou finalização deve-se ao corregedor Ciprião de *Figueiredo que, no contexto da recusa terceirense de obediência a Filipe II de Espanha e na sequência do episódio da Salga (1581), fez barrar todos os portos e pontos susceptíveis de desembarque na Terceira, com pequenos fortes ou outras estruturas defensivas, cruzando fogos entre si sempre que possível ou necessário, transformando a ilha numa imensa fortaleza. Frutuoso identifica 35 desses fortes e quatro trincheiras, aqueles em que foi inventariado material de guerra após a conquista da ilha pelo marquês de Santa Cruz; Drumond, porém, relaciona 37 fortes levantados por Ciprião de Figueiredo, o que somado a cerca de dez que já existiriam, permite conceber a defesa da Terceira com cerca de meia centena de fortes. Na dependência administrativa da Terceira e por ela alinhando no apoio a D. António, também o Faial se preparou, bem mais modestamente, diga-se, para o assalto espanhol: para além de trincheiras ou obstáculos que se terão levantado nas praias da cidade, o provedor das fortificações da Ilha, Gomes Pacheco de Lima, mandou cercar o Porto Pim com um muro onde se abria uma porta, e, provavelmente, construir um pequeno forte na Praia do Almoxarife. O sistema defensivo da Terceira não a tornavam, porém, tão inexpugnável como fez crer D. António nas cortes de Londres e Paris, junto das quais buscava apoios. Logo disso se apercebeu o comendador de Chastres quando, em 1582, se instalou na ilha para nela apoiar os partidários de D. António. Levou, porém, Filipe II a preparar duas poderosas armadas (1582 e 1583), sob o comando do seu mais prestigiado general, D. Álvaro de Baçan, para conquistarem a ilha rebelde.

Reduzidas à sujeição a Terceira e o Faial, e passando para o governador espanhol a responsabilidade pela defesa do arquipélago, o sistema fortificado tinha, de facto, algum significado na Terceira, malgrado a sua incapacidade para deter o desembarque do Marquês de Santa Cruz, mas era manifestamente insuficiente em São Miguel e no Faial, como era incipiente nas restantes ilhas dos Açores. Testemunhas da época, o Doutor Gaspar Frutuoso, se bem que reconhecendo os seus poucos conhecimentos sobre as ilhas dos grupos central e oriental, apenas regista fortificação em São Miguel, Terceira e Faial; referindo-a igualmente apenas nas mesmas três ilhas, mais parco, ainda, é Linschoten.

No forte de São Brás, em Ponta Delgada, primeiro, depois nos fortes de São Sebastião e de Santa Cruz, em Angra e na Horta, se instalaram forças espanholas. Estas estruturas sofreram, estão, vários trabalhos de beneficiação. A médio prazo, quer Ponta Delgada quer a Horta perderam, porém, as guarnições espanholas, substituídas por forças do sistema português das ordenanças, de responsabilidade municipal, sob o comando dos capitães-mores.

O domínio filipino sobre o arquipélago veio potenciar os riscos de assaltos corsários, nomeadamente ingleses, sobre as ilhas. No entanto, dos limitados conhecimentos de que dispomos sobre este período (não conseguimos condições para a consulta da documentação que, por nossa iniciativa, foi recentemente recolhida no arquivo de Simancas...), uma constatação, lógica, aliás, parece tirar-se: a Madrid interessava, fundamentalmente, a segurança no mar com meios navais, tal como acontecera com a administração portuguesa desde os anos vinte de quinhentos, e a dos portos açorianos que melhor a pudessem sustentar, Angra, Horta, Ponta Delgada e Vila Franca, fundamentalmente o primeiro. Se bem que as autoridades regionais tenham sido frequentemente alertadas para possíveis acções de corso, acabaram por ser elas próprias a assumir, com os seus precários meios, os cuidados de defesa das populações – significativo o caso de São Jorge, onde a construção definitiva de fortificações terá arrancado a partir de 1618, por administração directa, primeiro da câmara das Velas, depois da câmara da Calheta. Ainda em finais da década de oitenta, se trabalhava no forte de Santa Cruz e nas trincheiras e outras pequenas estruturas defensivas contíguas, na orla da baía da Horta. Da mesma época será o forte da Lagoa ou da Conceição, na parte norte do areal da baía, de que ainda restam vestígios, bem como o forte da Cruz dos Mortos ou de São Sebastião, na baía de Porto Pim.

Apesar de não ter tido concretização o intento espanhol de construção de um forte no ilhéu de Vila Franca, a frente marítima da Vila terá beneficiado de significativo melhoramento defensivo.

Mas a construção mais espectacular do período filipino foi a *fortaleza de São João Baptista, quando o sistema defensivo em linha planeado por Tommaso Benedetto para a Terceira e concebido para um sistema de forças assente no serviço obrigatório e geral das ordenanças, se mostrou inseguro e insustentável para as forças ocupantes espanholas.

Após a Restauração, continuou a necessidade não só de manutenção das estruturas fortificadas do arquipélago, cujo principal inimigo sempre foram as forças da Natureza (tempestades e terramotos), mas também de novas construções. É o caso da construção, na Terceira, dos fortes das Cinco Ribeiras e do Bom Jesus, este na Ponta de Mina, ou do forte da Greta, na Horta.

A mineração brasileira e a Guerra da Sucessão de Espanha acarretaram para as populações dos Açores perigos acrescidos pela intensificação do corso e da pirataria. Deste período datará, nomeadamente, o forte do Bom Jesus (pelo menos as obras que lhe deram a denominação de Novo), na baía da Horta, cuja traça indicia intervenção minimamente actualizada. Igualmente a fortificação de algumas ilhas, como as Flores ou a Graciosa.

A relação elaborada pelo General António do Couto *Castelo-Branco, inserta nas suas Memórias Militares e referente a 1710, contém o primeiro inventário da fortificação no arquipélago (Quadro I).

Um conjunto superior a uma centena.

Hoje torna-se difícil distribuir geograficamente todas estas estruturas fortificadas porque umas mudaram de nome, outras cresceram alterando-se a nomenclatura, outras terão, simplesmente desaparecido. Isto para além de algumas imprecisões que se indiciam. E ainda, nomeadamente, o número de fortes do Faial, que quase atinge a sempre super-fortificada Terceira; ou a relativa modéstia da fortificação micaelense referenciada, talvez explicada pela missão inspectiva de Castelo-Branco, principalmente virada para o grupo central do arquipélago.

O século XVIII, em especial a segunda metade, é bem mais rico em informação escrita e iconográfica sobre a fortificação das Ilhas, a que não é estranha a criação da Capitania-Geral dos Açores (1766). Logo de 1767 existe uma primeira «revista» aos fortes da Terceira, feita pelo sargento-mor engenheiro João António Júdice, descrevendo o estado em que se acham, a gente e material que precisam. O que mais ressalta nesta inspecção é o estado calamitoso da fortificação. Esta acção marcará, também, intervenção mais directa da engenharia militar após as obras quinhentistas de Tommaso Benedetto e Spanochi, na localização e adequação das estruturas defensivas às características do armamento então existente. De 1769 data a «revista» aos fortes do Faial e Pico, pelo Capitão de Infantaria com Exercício de Engenheiro, Francisco Xavier Machado, que não se limitou a uma descrição sumário do forte e das suas necessidades, mas que é acompanhada de um desenho do sistema fortificado da Horta, e de plantas de cada um dos fortes existentes (publicada pelo Instituto Histórico da Ilha Terceira). Igualmente desenhadas por Francisco Xavier Machado, data de 1771/1772 outra colecção de plantas de fortes açorianos, agora os da Terceira (publicada pelo Gabinete da Zona Classificada de Angra do Heroísmo). Em 1776 era feita nova «revista» aos fortes da Terceira, agora pelo ajudante de ordens, Manuel Correia Branco. Por ela se verifica que algumas obras de manutenção haviam sido feitas após a «revista» de João Júdice; muito pouco, porém, para o que então se reclamava necessário, e que agora se continuava a reclamar. De então até ao fim do século, a correspondência oficial sobre o estado da fortificação e do armamento é quase um rol contínuo de lamentações, principalmente quando o temor de incursões francesas parecia efectivo. Uma referência particular à colecção de plantas dos fortes da Terceira enviada ao reino pelo capitão-general, em 1777, provavelmente decalcadas das de 1771/1772, de Francisco Xavier Machado (publicadas pelo Instituto Histórico da Ilha Terceira). E já do final do século (1797), um documento descritivo por forte sobre o estado da defesa em São Miguel, pelo sargento-mor engenheiro, João Borba Gato, traz curiosa e elucidativa informação.

No início do século XIX, a defesa do arquipélago, em infra-estruturas e material, é calamitosa. Dos 21 fortes, ao tempo, identificados no Faial, o forte de Santo António da Cruz encontrava-se em obras, o da Greta (Guia), Bom Jesus e Cruz dos Mortos (São Sebastião) em bom estado, todos os restantes em ruínas ou demolidos. Estavam, pois em bom estado os que defendiam a Vila... só que nem uma só peça de artilharia que os guarnecia, de bronze ou ferro, estava operacional! Em São Miguel são identificados 21 fortes, 19 deles com artilharia e dois (Nossa Senhora da Conceição de Água de Pau e Porto Formoso) desartilhados. Aqui, também, toda a artilharia incapaz. Com alguma capacidade operacional, se bem que muito limitada, apenas o Castelo de São João Baptista, quartel do recém formado Batalhão de Infantaria com exercício de Artilharia. Por curiosidade, constituía o armamento do concelho da Calheta de São Jorge: 71 espingardas de pederneira; 10 espingardas de morrão; 342 fundas para manejar pedra ao inimigo. Um inventário dos fortes das Flores e Corvo, referido ao dia 1 de Janeiro de 1801, identifica quarenta e seis fortes nas Flores e nove no Corvo. Leituras descontextualizadas da dimensão territorial e demográfica daquelas ilhas, e da situação económica e político-militar açoriana (ou com objectivos marginais) têm levado a contabilizar todos estes fortes no cômputo da fortificação do arquipélago. Parece óbvio, até por comparação com levantamentos seguintes, que o documento merece leitura mais atenta, comparativa e crítica.

Por decreto de 30 de Dezembro de 1799, o tenente do Real Corpo de Engenheiros, José Rodrigo de *Almeida, era nomeado sargento-mor do mesmo corpo, para servir na Terceira. Nesta ilha viveria até 1832, quando embarcou com as tropas liberais, vindo, porém, a falecer em São Miguel, não chegando, consequentemente, às praias do Mindelo. Para além da importância que teve na área da engenharia militar e civil, fundamentalmente nas ilhas Terceira e Faial, a ele se deve importante produção iconográfica para o conhecimento da fortificação nos grupos central e ocidental. Para além de plantas de carácter geral, como as da baía da Horta e, provavelmente, da Praia (Terceira), com a descrição dos respectivos sistemas defensivos, mas sobretudo peças de estudo para projectos portuários, e da planta do Castelo de São João Baptista e da cidade de Angra de que se conhecem várias cópias, importantes são os levantamentos dos fortes do Faial, Flores e Corvo (onze nas Flores e um no Corvo), e da Terceira. Estes desenhos, para além de descreverem a planta propriamente dita, como fizera Francisco Xavier Machado, contêm, também, os alçados, acrescentando aos primeiros não só informação relevante, mas dando-lhes significativo valor estético.

Salvo eventuais trabalhos de manutenção, não terão sido levantadas novas estruturas fortificadas nos primeiros anos do século XIX, embora tenha surgido a hipótese de retirada da corte para a Terceira, perante o avanço das tropas francesas, considerando-se a ilha suficientemente segura; propósito este afastado pelos ingleses na mira de outros interesses, sob o pretexto da sismicidade do arquipélago! Durante as invasões napoleónicas, com a corte para o Brasil e o domínio inglês do Atlântico, a defesa dos Açores foi completamente descorada. A subsequente administração militarista do general Francisco António Araújo esforçou-se, porém, por, a par do treino operacional, acudir ao sistema defensivo em ruínas, nomeadamente à linha fortificada da baía da Praia, Terceira (1818 a 1820), com a construção dos fortes de São José, São Caetano e São João, provavelmente sob a direcção de José Rodrigo de *Almeida, e ao restauro do Forte de São Sebastião, na Horta. Igualmente por esta época, durante o governo militar de Sebastião José de Arriaga Brum, terão sido efectuadas obras na fortificação micaelense por acção do dinâmico Eng.º Francisco Borges da Silva, com destaque para a construção do forte de D. João IV, em Ponta Delgada.

O perigo de um desembarque de forças absolutistas na Terceira durante a organização do *Exército Libertador, determinou a execução de trabalhos de restauro e consolidação dos fortes da ilha, que se encontravam abandonados. As obras mais duradouras deste período foram executadas na fortaleza de São João Baptista – baterias de D. Pedro IV, D. Maria II, Constituição e Fidelidade –, e no forte de São Sebastião – bateria da Heroicidade, pelo menos esta traçada pelo Eng.º Serra.

Com a partida das forças expedicionárias liberais, os fortes açorianos ainda minimamente conservados, nomeadamente na Terceira, entraram, na generalidade, num processo de degradação, quase sempre irreversível. Excepção para a fortaleza de São João Baptista, em Angra, Santa Cruz, na Horta, e São Brás, em Ponta Delgada, que continuaram a beneficiar de relativa manutenção, na verdade já não tanto pelo seu valor defensivo, mas como infra-estruturas para aquartelamento de tropas, e pouco mais. É curioso como, a nível oficial, a vila das Velas consegue ver reconhecida à sua fortificação uma importância estratégica de destaque que remonta, pelo menos, ao tempo em que por lá passou Tommaso Benedetto.

O relatório do Barão de Bastos sobre o estado da fortificação nos Açores, em 1862, para além de ser um precioso auxiliar para a inventariação do sistema defensivo histórico do Arquipélago, mostra a situação de ruína em que, ao tempo, ele se encontra (Quadro II).

Apesar de ainda nesta relação se defender o valor estratégico de alguns deles, os fortes estavam, na verdade, estruturalmente obsoletos. Aliás, aquando do 11 de Agosto de 1829, fortes como o das Chagas e da Luz, na baía da Praia, já se encontravam desartilhados, sendo preteridos pela artilharia de campanha e pelas trincheiras abertas na areia para o serviço da Infantaria. Alguns, pela solidez da construção, espaço e localização, mesmo perdida a sua função militar, vieram a avocar outras funções – residência, armazém, calabouço, posto sanitário, indústria baleeira – conseguindo desafiar o tempo e chegar até nós.

Importa, aqui, reconhecer as fragilidades dos sistemas fortificados levantados nos Açores. Mesmo o mais consistente, aquele que em finais do século XVI foi concretizado por Ciprião de Figueiredo, na Terceira, mantendo em respeito e adiando o assalto do poder filipino, foi rompido quando um poder externo quis, de facto, violá-lo.

Nas décadas de sessenta a oitenta do século XIX procedeu-se à tombação dos fortes do grupo central. A maior parte deles já era apenas avaliada pelo preço das cantarias e do terreno. No fundo, a mesma mentalidade continua a prevalecer na generalidade dos actuais poderes públicos, havendo tão só a acrescentar o valor estético emergente duma pseudo cultura da memória histórica: as muralhas do forte de Santa Cruz da Horta enquadram uma unidade hoteleira; o mesmo está em curso com o forte de São Sebastião, em Angra; a plataforma do forte de Nossa Senhora da Conceição, nas Velas, muito culturalmente encheu-se-a com um Centro Cultural, com o cuidado de até se fechar as canhoneiras, servindo as velhas muralhas, exclusivamente, como suporte e defesa contra o mar; na mesma Vila, as muralhas do forte Santa Cruz servem para, camufladas, delimitar o perímetro de um recinto de lazer, renegando séculos de História; o que restava do forte da Areia, em Vila Franca do Campo, foi sacrificado num projecto urbanístico. E situações idênticas multiplicam-se. Apenas algumas estruturas mais modestas resistem, por enquanto, a esta voragem urbanística, preservando a sua identidade arquitectónica e funcional: fortes de São Sebastião e do Porto Pim, na Horta, fortes do Negrito, da Prainha de São Mateus e de Santa Catarina das Mós, na Terceira, forte de São Brás, em Santa Maria, fortes de Santa Clara e de São Francisco Xavier, em São Miguel, e mais algumas pequenas obras. Manuel Faria

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Lista de Fortes nos Açores

 

NOME

LOCALIDADE

ILHA

Barbete de Santa Catarina

Porto Judeu

Terceira

Bateria da Luz

Praia da Vitória

Terceira

Castelo de S. João Baptista

Angra

Terceira

Forte da Greta

Porto Judeu

Terceira

Forte da Igreja

S. Mateus

Terceira

Forte da Laginha

Ribeirinha

Terceira

Forte da Má Ferramenta

S. Mateus

Terceira

Forte da Nazaré

Porto Martim

Terceira

Forte da Rua Longa

Biscoitos

Terceira

Forte da Salga

Porto Judeu

Terceira

Forte das Caninas

Porto Judeu

Terceira

Forte das Cavalas

Porto Judeu