florentinos (os) e os Açores
Após a descoberta dos Açores, mercadores, navegadores e militares da Toscânia, principalmente da cidade-estado de Florença, chegaram ao arquipélago onde, sem estabelecer uma significativa comunidade residente como em Lisboa ou na Madeira, deixaram alguns rastos documentais notáveis.
No início do século XII, com o falecimento da «Grande Condessa» Matilde de Canossa e por sua vontade, a região da Toscânia passou para a Igreja, desencadeando uma série de reivindicações e lutas entre o Pontificado e o Imperador germânico, assíduo frequentador e dominador das terras itálicas setentrionais. Desses conflitos aproveitaram-se inúmeras cidades toscanas (Florença, Siena, Pisa, Lucca, etc.), declarando-se independentes e constituindo-se em Comuni (Municípios) autónomos, que se tornaram verdadeiros estados. Foram os Comuni que fizeram a história da Toscânia até 1530, quando a restauração dos Medici acabou com o regime republicano, iniciando-se a construção de um estado regional: o Granducato di Toscana, que ao longo do século XVI foi consolidando a hegemonia de Florença sobre a inteira região. Já sob Afonso III (1248-1278), um cavaleiro toscano estabeleceu-se em Évora, perpetuando o eloquente apelido Toscano, que reaparece mais de duzentos anos depois também nos Açores. Em finais do século XIII mercadores da Compagnia de Pistoia, cidade do Apenino toscano, emprestaram dinheiro ao município de Lisboa e, em 1338, os Florentinos da poderosa Companhia dos Bardi foram os primeiros detentores italianos de privilégios comerciais em Portugal. Três anos mais tarde, em 1341 e como aprendemos de uma relação do célebre Boccaccio, o florentino Angelino de Corbizzis saiu de Lisboa numa bem sucedida expedição lusitana às Canárias. No século XV, durante o reino de Afonso V O Africano, os mercadores de Florença foram entre os estrangeiros mais assiduamente presentes em Lisboa, sendo recíproca a estima entre as duas cidades. Com a abertura das rotas transcontinentais, no século XVI os florentinos rivalizaram com os genoveses para o envolvimento nos empreendimentos portugueses, participando no comércio luso-oriental, explorado por verdadeiros consórcios internacionais. O nobre florentino Bartolomeo Marchionni (Bartolomeu Marchione), precedido por um homónimo (provavelmente parente) que introduziu a pesca do coral em Portugal (1443), passou a viver em Almada a partir de cerca de 1470 e foi naturalizado português por D. João II, em 1482, afirmando-se como o maior mercador e empresário dos primórdios do Império Português. Dominador do trato dos escravos com a costa ocidental africana, financiador da aventura de Pêro da Covilhã e Afonso de Paiva à procura do Preste João na Etiópia, parceiro, em 1492, do contrato de conquista da última ilha das Canárias, La Palma, sócio de um dos navios da frota de Cabral que descobriu oficialmente o Brasil em 1500, armador de expedições manuelinas ao Oriente e dono de um navio de 300 toneladas que foi à Índia com Vasco da Gama, em 1503, interessado também no açúcar da Madeira, Bartolomeu Marchione faleceu em Lisboa provavelmente em 1527. O opulento mercador atraiu a Portugal vários, ilustres compatriotas como os parentes Morelli (Moreli), os Berardi, os Nardi e os Sernigi (Sernige, Serniche ou Cerniche), entre os quais se destaca a figura de Girolamo Sernigi (Jerónimo Cerniche), residente em Lisboa, contemporâneo e por vezes sócio do mesmo Marchione, esclarecido observador económico do Extremo Oriente e protagonista de arrojados negócios do Atlântico ao Índico. Outra família nobre de Florença, importantíssima em Portugal, foi a dos Giraldi (Giraldes ou Geraldes), que na primeira metade do século XVI colocou o mercador e banqueiro Lucas Geraldes, de Lisboa, no topo da hierarquia social portuguesa, destinatário de privilégios particulares em 1533 e 1536, activo do Brasil à Índia e definido por Isaías Pereira verdadeiro «ministro das finanças do Rei D. João III». Naturalizou dois filhos portugueses: Francisco Geraldes, que se tornou governador-geral do Brasil e a filha Luísa, que casou com D. Francisco de Portugal, neto de Vasco da Gama. O apelido Geraldes, de origem florentina, encontra-se nos Açores ainda hoje, no terceiro milénio. Florentinos das famílias de Lisboa, Marchione, Moreli, Cerniche, Giraldes e Nardi aparecem no século XVI ou já anteriormente, a comerciar ou residir na Ilha da Madeira, juntamente com membros de outras famílias florentinas, como Benoco Amadori (Amador), Feduccio Lamarotto (Feducho Lamaroto), Francesco Corvinelli (Corvinel, Corvelo), Giovanni Salviati (João Florença), Francesco Lapi e Simeone Cardi, só para citar os mais significativos. Estavam todos envolvidos em transacções de açúcar madeirense e alguns eram clientes de trigo dos Açores. Foi contudo a família Acciaiuoli ou Acciaioli (Achioli, Axjoli, Chioli, Cheoly etc.), a mais destacada família florentina que se estabeleceu na Madeira, proveniente de sangue real e de duques, condes e senhores de Florença, Veneza, França, Grécia, Inglaterra e Espanha. Simone Acciaioli (Simão Achioli) fixou-se no início de Quinhentos no Funchal, onde deixou descendência até aos nossos dias. Em 1512 era devedor de um moio de trigo dos Açores a um mercador de Burgos e, de 1516 a 1518, conseguiu arrendar todos os direitos reais e alfandegários do Funchal, participando num consórcio que integrava, entre outros mercadores lusitanos, o compatriota Benedito Moreli e os genoveses António Spínola e Luís Dória. Sobrinho de Benoco Amador, Simão Achioli tornou-se em 1523 almoxarife dos Quintos e da Alfândega do Funchal e mais tarde (1532-1534), provedor da Fazenda Real. É possível que possa atribuir-se aos Acciaiuoli a introdução na Ilha da Madeira da videira Malvasia. Giovanni da Empoli, um dos viajantes toscanos hoje mais celebrados, viveu primeiro nas Flandres e depois em Lisboa, como mercador por conta própria e agente das grandes casas florentinas Marchionni e Sernigi. Efectuou diversas viagens à Índia desde 1503, quando saiu pela primeira vez com Afonso de Albuquerque, participou heroicamente na conquista de Goa e, quando já era representante comercial do rei D. Manuel em Sumatra, com autorização para rumar até à China, faleceu perto de Cantão, na península onde havia de surgir Macau. Giovanni da Empoli deixou importantes relações escritas das suas viagens, definindo os Açores como «lugar de terra nova» e descrevendo uma paragem na Ilha Terceira, farol das navegações transcontinentais em águas infestadas por piratas. Nesses anos, por volta de 1500 ou 1501, D. Manuel I enviou até Sevilha, Giuliano del Giocondo, florentino de Lisboa, para contratar Amerigo Vespucci (Vespúcio). É possível que o afamado navegador florentino tenha velejado, às ordens de Portugal, do Brasil à Patagónia, etapas fundamentais para adivinhar a existência do Novo Continente que traz o seu nome. Em Sevilha, um dos mais estreitos parceiros de Vespúcio foi o já referido florentino Giannotto Berardi. Este era sócio do genovês Francisco de Riberol (amigo e parente dos Cacena de Angra na Ilha Terceira), feitor de Colombo, desde 1493, e também parceiro de negócios de Bartolomeu Marchione e de Francesco Carducci (Francisco Carducho), outro proeminente florentino activo em Lisboa, pessoas que terão apresentado Vespúcio aos ambientes portugueses. O navegador poderá ter escalado os Açores ao longo das suas navegações, existindo até uma referência pessoal sua ao arquipélago, cuja autenticidade não é confirmada. Porém, um pormenor de extraordinária importância liga para sempre o florentino aos Açores: Vespúcio comprara o mapa de Gabriel de Valsequa, realizado em 1439 pelo cartógrafo maiorquino, aonde pela primeira vez as ilhas aparecem bem orientadas geograficamente, trazendo a data da sua presumida «descoberta oficial» (Santa Maria, 1427). Uma indicação autógrafa no verso do pergaminho atesta que o precioso mapa foi comprado por 130 ducados de ouro, soma que representava na altura um grande sacrifício financeiro. O já citado Francisco Carducho, frequentador de Lisboa desde cerca de 1490, foi um operador que, depois de ter comerciado especiarias e açúcar em sociedade com as poderosas casas florentinas à beira Tejo, de onde trocava correspondência com compatriotas muito bem posicionados em Sevilha, deixou-se fascinar pelo arquipélago dos Açores. Até pelo menos 1501, Carducci devia deslocar-se entre Lisboa e Sevilha, porque ali aparece em finais de Quatrocentos a fornecer à Corte Castelhana tecidos preciosos, produzidos em Florença. Em 1502 o florentino transfere-se mais para Oeste, comprando em Lisboa 200 toneladas de drogas, parte da cobiçada carga chegada da Índia com a frota de João da Nova. No mesmo ano de 1502 começa a aventura comercial açoriana, quando Carducho arrenda por todo o triénio até 1505, a inteira produção sacarina do arquipélago, à excepção das Flores e Corvo, longínquas ilhas ocidentais. Foi seu sócio um tal Francisco Pinhol, possivelmente portador de apelido genovês, Pignoli ou Pinelli: os dois pagaram impostos anuais por 5.000 arrobas de produtos sacarinos, sinal de que a indústria do açúcar, no princípio de Quinhentos, ainda não estava em declínio nos Açores. Em 1504 Carducho efectua um pagamento de Lisboa e em 1505 estreia-se na documentação madeirense, a presentear o almoxarife do Funchal com 400 arrobas de açúcar branco nem sequer devidas, não pessoalmente mas através do seu feitor, o florentino Benoco Amador. Se futuras pesquisas poderão evidenciar ou não a presença física de Francisco Carducho no arquipélago dos Açores, uma prova dos seus contactos com residentes nas ilhas vem do testamento de João Martins Merens, um dos mais abastados e ilustres mercadores de Angra, Ilha Terceira. Em 1531, este deixou à filha Breitis Merens «um pano de escarlata de Florença que comprei a Francisco Carducho, na cidade de Lisboa, que era de quatro côvados e meio e que custou 950 reis ao côvado». Não sabemos se Carducho ficou na Península Ibérica ou se voltou à Toscânia, mas em 1529 (data que não exclui a sua identificação) um homónimo Francesco Carducci foi eleito penúltimo Gonfaloniere de Florença, pagando com a vida a sua fidelidade à república aquando da restauração dos Medici. Francisco Corvinelli, mencionado anteriormente, era genro de Bartolomeu Marchione e foi muito activo nas praças de Lisboa e Madeira, no arquipélago de São Tomé e Príncipe e no Extremo Oriente, onde participou na administração do Estado da Índia. Conforme a opinião de Pedro da Silveira, é possível que as sucessivas contracções, primeiro em Corvinel ou Corujnel, tenham transformado o apelido florentino Corvinelli no português Corvelo, adoptado pela sua pouco investigada descendência e ainda hoje com ampla difusão nas Ilhas dos Açores. Outros florentinos e luso-florentinos terão passado da metrópole para as ilhas atlânticas e, conforme Gaspar Frutuoso, também o ilustre apelido português Pina, trazido por grandes cronistas e funcionários que serviram a Coroa também nos Açores, provinha de uma das mais prestigiadas famílias de Florença, precisamente de Nicolau de Pina. A presença de florentinos no arquipélago foi extremamente importante aquando da invasão castelhana. Em Novembro de 1582 D. António, prior do Crato, após a derrota em frente a Vila Franca (S. Miguel) da sua frota luso-francesa, comandada pelo veneziano Filippo Strozzi, despediu-se da ilha Terceira, último baluarte da nação, rumo à mais segura França. Naquela ocasião, voltou a entregar a ilha ao impopular governador Manuel da Silva, confiando porém os 1.800 soldados franceses e uma companhia de ingleses às ordens de dois capitães, Battista Florentino e Charles (Carlos), gaulês, cujas biografias carecem reconstrução. Depois da entrada em Angra das tropas castelhanas a 27 de Julho de 1583, oficiais italianos protagonizaram um dos últimos fôlegos da resistência num forte nas proximidades da cidade, que se rendeu só a 3 de Agosto: tratava-se do sargento-mor Battista Serichi, comandante do castelo, do capitão Luís e do capitão Compani. «Serichi» é a muito provável, leve transformação de Serchi em Serichi e «Compani» de Campani, ambos apelidos indiscutivelmente toscanos. A presença de combatentes da Toscânia na Ilha Terceira é facílima de explicar: Catarina de Medicis (Firenze, 1519 Blois, 1589), já rainha de França entre 1547 e 1559 e mãe de Henrique III, rei de França desde 1574, principal apoiante do prior do Crato, era florentina. Com a extinção da dinastia dos Medici no começo de Setecentos, as denominações «florentino» e «toscano» deixaram de ter o mesmo sentido: de facto, a Toscânia foi dominada primeiro por Filipe V de Espanha e mais tarde pelo Império Austríaco, antes das invasões napoleónicas, da sua efémera reconstituição em Granducato pelo Congresso de Viena (1814) e das novas lutas contra a prepotência austríaca, que culminaram na sua extinção definitiva. Esta deu-se em 1860, com a adesão plebiscitária ao Reino de Sabóia, embrião da nascente Itália. Curiosa e contrariamente ao previsível, visto o reduzido impacto dos toscanos na onomástica açoriana, o qualificativo «florentinos» continua ainda hoje a ser muito utilizado, na Região Autónoma, para designar quer os cidadãos de Florença, mais raramente, quer os naturais da ilha das Flores, muito mais frequentemente. Para estes, a fim de evitar a redundância linguística, o adjectivo «florenses» seria provavelmente aconselhável, visto que os termos «Florença» e «florentinos» preexistiam, na língua portuguesa, à descoberta da ilha das Flores. Pierluigi Bragaglia
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