flora

Os estudos florísticos nos Açores, começaram no século XVIII. A carta-relatório de Francis Masson ao director do jardim botânico de Kew (Masson, 1778), deverá ser o documento público mais antigo sobre a História Natural do arquipélago açoriano. Mais tarde, Moritz Seubert (1844) publicou uma lista de 391 espécies de plantas do arquipélago e uma comparação com a vegetação de outras áreas geográficas que era a obra até então mais completa sobre a flora destas ilhas e o primeiro documento a dar uma ideia da sua vegetação. Desde então a lista de espécies botânicas ocorrendo nos Açores foi sendo ampliada, não obstante os diversos problemas taxonómicos que foram surgindo [ver *Botânica].

Actualmente, estão identificadas cerca de 900 plantas vasculares nos Açores (Sjögren, 2001). Estas plantas ou pertencem à flora nativa ou foram introduzidas mais ou menos recentemente.

Das primeiras, até ao presente foram identificadas cerca de 60 espécies (Schäfer, 2002), consideradas de interesse para a flora europeia. De entre elas têm sido destacadas o cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), o azevinho (Ilex perado, ssp. azorica), o folhado (Viburnum tinus, ssp. subcordatum), o queiró (Daboecia azorica), a urze (Erica azorica), a uva-da-serra (Vaccinium cylindraceum), o trovisco-macho (Euphorbia stygiana), o pau-branco (Picconia azorica), e a ginja-do-mato (Prunus lusitanica ssp. azorica), entre outras.

As espécies endémicas podem ser encontradas ou em todas as ilhas ou apenas nalgumas delas como, por exemplo, Euphrasia azorica e Cerastium azoricum que estão restringidas ao grupo oriental, e Marsilea azorica que existe apenas numa localidade da ilha Terceira. Ocorrem em diferentes tipos de habitat, desde o nível do mar até ao cimo da montanha do Pico, restringidas a algumas áreas refúgio, nomeadamente declives acentuados, ravinas, arribas, crateras vulcânicas e elevações, muitas vezes de pequena altitude (Schäfer, 2002).

O impacto da actividade humana sobre as espécies botânicas na chamada zona-de-nuvens fez diminuir consideravelmente as suas áreas, principalmente durante o século XX, na sequência da procura de madeira para combustível e construção, e das arroteias para instalação de novas pastagens. As florestas nativas foram também reduzidas, em virtude dos cortes para construção de novas estradas e sobretudo para a plantação de árvores exóticas, principalmente de Cryptomeria japonica, mas também de acácia (Acacia melanoxylon), de ailanto (Ailanthus altissima), de eucalipto (Eucalyptus glohulus) e de pinheiro (Pinus pinaster), tendo em vista objectivos comerciais. As ilhas do Pico, Terceira e Faial possuem actualmente as maiores áreas remanescentes destas florestas nativas únicas. Nas outras ilhas essas áreas são muito pequenas e localizadas principalmente em campos de lava, caldeiras e ravinas profundas (Sjögren, 2001). Nestas circunstâncias, de entre as espécies endémicas, algumas são raras e outras estão em perigo de extinção ou estão em situação vulnerável. Contudo, a sua conservação é uma prioridade nos projectos governamentais e científicos (Schäfer, 2002).

A lista incuída no Quadro I, segundo Schäfer (2002), considera as espécies açorianas edémicas. Vicia dennesiana, registada para São Miguel, parece ser a única espécie extinta.

Outras espécies, algumas delas vulgarmente chamadas ervas, estão presentes nas ilhas no seguimento de introdução não intencional para cultivo ou como ornamentais. Algumas tornaram-se perfeitamente naturalizadas, após terem escapado dos campos e dos jardins, como a *cameleira (Camellia japonica), a *conteira ou roca-de-velha (Hedychium gardnerianum), o agapanto ou coroa-de-henrique (Agapantus praecox), a *beladona (Brunsvigia rosea), o jarro (Zantedeschia aethiopica), a lantana (Lantana camara) e muitas outras. Na sua maior parte localizadas nas zonas costeiras, habitando até aos 300 m de altitude, tornaram-se numa ameaça para a vegetação costeira de *faia (Myrica faya), mas outras como a *hortênsia (Hydrangea macrophylla), a *azálea (Rhododendron indicum), a conteira e o incenso (Pittosporum undulatum) subindo em altitude, tornaram-se uma ameaça à floresta de louro-cedro.

As plantas não indígenas são uma componente importante da flora vascular açoriana. Entre os 1.002 taxa citados para o arquipélago, 69% são considerados como introduzidos (Silva et al., 2000; Silva, 2001).

Acima dos 500 m de altitude, o ecossistema formado pela floresta arbustiva densa de louro-cedro, por precisar de elevada precipitação e humidade do ar para o seu desenvolvimento com sucesso, torna-se muito rico em espécies de musgos que crescem em todos os tipos de substratos. Os troncos das árvores estão geralmente recobertos por espessos tapetes de musgos, frequentemente colonizados por fetos. O importante número de musgos ou *briófitos, cerca de 430 espécies, é digno de referência, sendo que 9 são considerados endémicos os Açores (Sjögren, 2001).

Há diferenças florísticas entre as ilhas que poderão dever-se, principalmente, a influências climáticas. O aumento da precipitação para Oeste, justifica a presença das plantas da floresta de louro-cedro a altitudes mais baixas nas ilhas do grupo Ocidental em relação ao grupo Oriental. O mesmo se passa com os briófitos (Sjögren, 2001). Há também diferenças entre a flora dos Açores e aquela das outras regiões macaronésicas mas nela estão contidas espécies próprias desta flora, de que sobressaem o vinhático (Persea indica), o tamujo (Myrsine africana), o sanguinho (Frangula azorica) e o louro (Laurus azorica).

Enfim, o estudo da flora dos Açores tem contribuido para o conhecimento de diversas áreas do saber, nomeadamente, para a taxonomia, a fitogeografia, a sociologia, a ecologia e a genética, bem como para a história da vegetação. Luís M. Arruda

Bibl. Masson, F. (1778), An account of the Island of St. Miguel. Philosophical Transactions of the Royal Society, 68, 2: 601-610. Schäfer, H. (2002), Flora of the Azores, A field guide. Weikersheim, Margraf Verlag. Seubert, M. (1884), Flora Azorica quam ex collectionibus schedisque Hochstetteri patris et filii elaboravit et tabulis XV propria manu aeri incisis illustravit. Bona. Seubert, M. e Hochstetter, C. (1843), Übericht der Flora der azorischen Inseln. Archiv der Naturgeschichte, Berlim, 9, 1: 1-24. Silva, L, Tavares, J. e Smith, C. W. (2000), Biogeographic of Azorean plants invaders. Arquipélago (Life and Marine Sciences), Suplement 2 (Part A): 19-27. Silva, L. (2001), Plantas vasculares invasivas no Arquipélago dos Açores – caracterização geral e estudo de um caso: Clethra arborea Ainton (Clethraceae). Dissertação de Doutoramento PDH, Universidade dos Açores. Sjögren (2001), Plantas e flores dos Açores. S.l., ed. do autor.

 

Quadro I

Flora açoriana. Lista de espécies endémicas (segundo Schäfer, 2002)

 

Agrostis azorica

Gaudinia coarctata

Agrostis congestiflora

Grammitis marginella ssp. azorica

Agrostis gracililaxa

Hedera azorica

Agrostis reuteri ssp. botelhoi

Hypericum foliosum

Ammi seubertianum

Ilex pecado ssp. azorica

Ammi trifoliatum

lsoetes azorica

Angelica lignescens

Juniperus brevifolia

Arceuthobium azoricum

Lactuca watsoniana

Armeria marítima ssp. azorica

Leontodon filii

Asplenium azoricum

Leontodon rigens

Azorina vidalii

Lophochloa azorica

Bellis azorica

Lotus azoricus

Cardamine caldeirarum

Luzula purpureosplendens

Carex hochstetteriana

Lysimachia azorica

Carex pendula var. Myosuroides

Myosotis azorica

Carex pilulifera ssp, azorica

Myosotis marítima

Carex vulcani

Pericallis malviflora

Cerastium azoricum

Picconia azorica

Chaerophyllum azoricum

Platanthera azorica

Corema album ssp. azoricum

Platanthera micrantha

Daboecia azorica

Polypodium azoricum

Daucus carola ssp. azorica

Prunus lusitanica ssp. azorica

Deschampsia foliosa

Rubus hochstetterorum

Dryopteris azorica

Rumex azoricus

Dryopteris crispífolia

Sanicula azorica

Erica azorica

Scabiosa nitens

Euphorbia azorica

Spergularia azorica

Euphorbia stygiana

Tolpis azorica

Euphrasia azorica

Vaccinium cylindraceum

Euphrasia grandiflora

Veronica dabneyi

Festuca petraea

Viburnum tinus ssp. Subcordatum

Frangula azorica

Vicia dennesiana