flor

A botânica ensina-nos que a flor é, nas plantas superiores, um conjunto de folhas, as folhas florais, que se modificaram, e, se adaptaram à reprodução da sua espécie. O seu poder de sedução é irresistível para os seres humanos que foram criados para viver num jardim. «E o Senhor-Deus plantou um jardim no Éden e aí colocou o homem que formara». As flores associam-se às manifestações de fé e de amor. A flor de LOTUS, denominado LOTUS SAGRADO, foi, e ainda é hoje, a dádiva que os crentes do budismo escolhem para oferecer a Buda. O autor do Cântico dos Cânticos que celebra o amor, introduz na sua trama poética, o nardo, o narciso e o lírio. Na verdade, o amor humano conduz ao amor pelas flores, ao desejo de as oferecer à pessoa amada. Jesus deixou-nos a mensagem «olhai como crescem os lírios do campo». Os que amam as flores, ao contemplá-las, não podem deixar de agradecer a Deus. Talvez por essa razão se colocam flores nos altares, se enfeitam com elas os andores e os percursos das procissões. Há menos de um século, na Ilha Terceira, faziam-se passadeiras de *erva-úrsula (Thymus caespititius), para passarem as procissões, e, os mais velhos ainda recordam, com saudade, o especial aroma que então se espalhava no ar. Hoje, destruídos grande parte dos povoamentos desta planta, já não é possível reconstituir esta velha tradição. Mas, o hábito de elaborar amorosamente verdadeiros tapetes, para sobre eles passarem as procissões e coroações, permanece. Em São Miguel, fazem-se na Semana Santa passadeiras com folhagens e pétalas de *azáleas (Rhododendron). E, quando faltam as flores, junta-se às folhagens serradura tingida de várias cores e fazem-se autênticos mosaicos, cheios de colorido e imaginação, para honrar as procissões. A propaganda turística, não se esquece de assinalar entre outras belezas deste arquipélago a das *hortênsias (Hydrangea macrophylla) que se estendem por todas as Ilhas dos Açores, do Corvo a Santa Maria. É, na verdade, uma obra gigantesca de jardinagem, realizada por pastores e cantoneiros e um testemunho vivo, do amor dos açorianos pelas flores. Nestas ilhas a hortênsia é simultaneamente ornamental e utilitária. Delimita as pastagens, com ela se fazem na altitude pequenos abrigos onde se ordenha o gado sem que os ventos impiedosos se façam sentir tão duramente, ladeiam as estradas, abrigando-as e embelezando-as. Quando há procissões, colhem-se as flores para as passadeiras, na Terceira enfeitam-se com elas os carros dos bodos, nas festas do Divino Espírito Santo, e os carros que vão buscar os toiros ao mato para as touradas à corda. A abundância de flores de hortênsia é tal, que não se notam sequer estas colheitas populares. Mas, estas flores vieram da China e do Japão, e, se é certo que encontraram condições de desenvolvimento espectaculares, e, foram adoptadas pelos açorianos, elas não são as flores dos Açores. Nas zonas alcantiladas da costa e nas terras altas, em que ainda não foi destruída a vegetação natural, encontram-se miríades de flores que aí vegetam, um conjunto de pequenas maravilhas, que suportam ressalgas e tempestades, e, se reservam para os que se detêm e, as admiram amorosamente. Impossível enumerá-las, tentar descrever-lhes a beleza, ou o perfume dos matos, mas, afigura-se-nos devermos ao menos referir algumas das planta endémicas, cujas flores apresentam particular beleza. Em todas as ilhas, a vidália (Azorina vidalii) ostenta as suas lindas flores, brancas a cor de rosa em diversas tonalidades, na orla marítima, batidas por fortes ventos e pela espuma do mar. Exceptuando Santa Maria, Graciosa e Corvo, acima dos 500 m, e, na ilha do Pico até aos 2.200 m podemos apreciar o queiró ou queiroga (Daboecia azorica), no mês de Julho recoberta de flores, pequeninos balões encarnados que tremulam com a brisa, formando verdadeiros tapetes, e, considerada uma das flores mais atractivas da vegetação açoriana. Em sítios húmidos e abrigados, acima dos 600 m, o trovisco do mato (Euphorbia stygiana), com o seu aspecto exótico, e, numerosas flores amarelo esverdeadas é uma visão inesquecível, e, considerada uma das mais lindas Euphorbias. A romania ou uva da serra, o mirtilo dos Açores (Vaccinium cylindraceum), pequeno arbusto que se cobre de cachos por vezes com 20 flores cor-de-rosa, e, doces frutos, poderia ornamentar o jardim mais requintado. O folhado dos Açores (Viburnum tinus ssp. subcordatum) arbusto com a sua folhagem persistente, e, na Primavera coberto de pequenas flores rosadas, agrupadas em corimbos, cujo doce perfume se espalha pelos matos de louro e cedro aos quais anda associada. O ranúnculo que também existe na Madeira e nas Canárias, nos Açores com o nome vulgar de *bafo-de-boi (Ranunculus cortusifolius) escolhe recantos abrigados, com terra vegetal ou musgos, ostenta grandes folhas espessas, caprichosamente recortadas, do centro das quais surge uma grande inflorescência de flores amarelo doiradas, é considerada, tal como as anteriormente citadas, planta de particular beleza. Por referir, ficam tantas outras deliciosas flores, de plantas endémicas ou não, que ornamentam e perfumam estas Ilhas, sem intervenção humana e por essa razão são as verdadeiras flores dos Açores, e, necessitam de protecção. Raquel Costa e Silva

Bibl. Bíblia Sagrada, Antigo Testamento, Génesis (1995). Lisboa. Difusora Bíblica: 19. Ibid., Antigo Testamento, Cântico dos Cânticos (1995). Lisboa, Difusora Bíblica: 857. Ibid., Novo Testamento, Evangelho Segundo São Mateus (1995). Lisboa, Difusora Bíblica: 1296. Andersen, G. A. (1988), Floral Design and Marketing. Columbus, Ohio, The Ohio State University: 119-125. Banti-Pereira, J. (1987), IKEBANA. Milão, Giovanni De Vecchi: 7-13. Durbridge, J. (2002), Bridal Flowers. London, Ryland Peters & Small: 10. Massingham, B. (1972), Flower arranging in colour. Holland, The Senefelder Printing Co. Ltd.: 11. Pucci, E. Z. (1970), Alfabeto Ikebana. Paderno Dugnano (Milão), Gorki: 6-9. Reiley, H. I., Shry, D. (1988), Introductory Horticulture. New York, Delmar Publishers: 499-519. Sjogren, E. (1984), AÇORES FLORES. Uppsala. Horta, Direcção Regional de Turismo, Horta, Faial: 8, 42, 44, 46, 47, 51, 59. Vasconcellos, J. C. (1944), Noções sobre a Morfología Externa das Plantas Superiores. Lisboa, Ministério da Economia: 103.