fio (dia do ~)

 s. No Corvo, o dia do fio ou *dia da lã era o dia em que se reunia o rebanho que pastava todo o ano livremente no baldio. Esse acontecimento tinha lugar duas vezes por ano e, geralmente, em datas certas: nas últimas segundas-feiras de Abril e de Setembro. A primeira reunião tinha como finalidade proceder à tosquia dos animais, a segunda destinava-se sobretudo a marcar, de forma mais visível, as fêmeas prenhes, de modo a facilitar o reconhecimento, por parte dos proprietários, das futuras crias e assim se proceder de modo correcto à respectiva marcação nas orelhas (o sinal ou a marca de propriedade). Nessa altura também se aproveitava para tosquiar algum animal que tivesse escapado à tosquia de Abril.

Em qualquer das ocasiões o processo de reunir o rebanho, que se encontrava disperso pelo baldio, seguia os mesmos trâmites: o baldio encontrava-se dividido em 10 secções ou esquadras: a Fonte dos Poços, os Azevins (Azevinhos), o Grotão Grande, o Braço, o Junco Queimado, a Graminha, o Serão Alto, a Fajã das Negras, a Pedra Grande e o Miradouro.

Por cada esquadra era escolhido um homem, o cabo, que tinha a seu cargo dez a doze homens, cujos nomes se encontravam escritos numas tiras de papel: as sortes. Logo de manhãzinha, no sítio dos Lagos, onde se deveria fazer a reunião final do rebanho, cada cabo tirava uma sorte a fim de saber qual a esquadra aonde se deveria dirigir para juntar as ovelhas.

Tiradas as sortes, cada grupo punha-se a caminho da sua esquadra, fazendo-se acompanhar dos seus cães. Uma vez chegados ao local, punham-se em linha e iam levando à sua frente as ovelhas que iam encontrando. Claro que isto não era feito sem grandes correrias, conseguindo mesmo algumas ovelhas escapar à acção perseguidora de homens e cães.

Com maior ou menor dificuldade cada grupo lá ia conseguindo trazer as ovelhas até ao ponto de encontro, na Casinha Velha. Daí era o rebanho encaminhado, pelo caminho dos Lagos, até um curral. Reunidos todos os animais no dito curral, começavam os donos a proceder à identificação dos seus animais. O reconhecimento era efectuado através do sinal que cada animal tinha nas orelhas. Cada cabeça de gado era encaminhada para outros terrenos onde havia umas cordas compridas estacadas rentes ao chão: as cobras. Terminada a separação dos animais, iniciava-se a tosquia. À medida que iam ficando tosquiados, estes eram encaminhados novamente para o baldio.

O rebanho, e consequentemente a tosquia, desapareceu quando em 1966 o baldio passou para os Serviços Florestais.

Nas Flores, no Faial e no Pico também era costume reunirem os rebanhos em locais certos para procederem à sua tosquia. Esse dia era conhecido como o *dia do fio, nas Flores, *dia do ajuntamento, no Faial e *dia da festa, no Pico. João Saramago