figueira
Nome pelo qual são conhecidas as plantas da família Moraceae pertencentes à espécie Ficus carica (Palhinha, 1966; Schäfer, 2002).
História Natural Árvore odorífera, monóica, caducifólia, geralmente de porte baixo, 4-5 m, mas podendo atingir 10 m de altura, de copa arredondada ou irregular, ou, por vezes, arbusto com os ramos prostrados, longamente rastejantes nos locais ventosos, e látex abundante, branco; tronco tortuoso, revestido de ritidoma cinzento-esbranquiçado, liso; ramos patentes ou ascendentes acinzentados, glabros; ramos jovens cilíndricos, esverdeados, puberulentos, pubescentes ou pilosos; gemas vegetativas terminais; botões floríferos laterais; folhas até 20x20 cm, de forma variável, de contorno sub-orbicular a largamente ovado, 3-5 palmatilobado, por vezes subinteiro, ásperas na página superior e esparsamente híspidas na inferior, alternas; flores numerosas, unissexuadas, incluídas num receptáculo, as femininas sobre as paredes deste e as masculinas, quando existem, à volta da abertura; frutos muito pequenos, drupáceos, encerrados no receptáculo acrescente e carnudo; sícone (figo), com 5-8 cm de diâmetro, subgloboso ou piriforme, glabro, verde, verde-amarelado ou violáceos, solitário ou geminando na axila das folhas dos ramos jovens, desenvolvendo-se no ciclo vegetativo da sua formação (figo-ordinário ou vindimo) ou passando o inverno em estado rudimentar para só se desenvolver no ciclo vegetativo seguinte (figo-lampo). Perene. Floresce em Junho e Julho (Franco, 1971; Queirós, 1987; Schäfer, 2002).
Nativa do Mediterrâneo central e oriental, Ásia Menor, encontra-se naturalizada no sul da Europa, onde terá sido introduzida pelos árabes, e na Macaronésia. Ocorre em todas as ilhas dos Açores, nas arribas costeiras e nas ravinas, geralmente abaixo dos 500 m, onde é cultivada por causa dos seus frutos.
Tradições, Superstições e Adágios A introdução da figueira nos Açores deve remontar ao início do povoamento e deve estar relacionada com a origem estremenha, alentejana e algarvia dos povoadores. Frutuoso regista vários topónimos que se podem relacionar com o nome desta árvore. São exemplos a rocha do Figueiral, em Santa Maria, e a grota da Figueira, em S. Miguel (cf. Costa, 1956).
Na expressão popular, os frutos produzidos pela figueira são denominados figos-de-figueira, para os distinguir dos figos-de-banana (os frutos da bananeira) e ainda dos figo-de-babosa. Com as diversas cultivares estão relacionados nomes populares como, por exemplo, figo-bagalhouço, figo-branco, figo-sevanho (figo-preto), figo-bico-doce, figo-bico-de-mel e figo-longar. O figo-lampo ou figo-de-São João é o que amadurece por ocasião da festividade daquele santo. Os figos secos ao sol são conhecidos nas ilhas do Pico e do Faial por figos-passados. Naquela ilha há o costume de tocar-o-figo, isto é, de tocar o olho do figo com azeite para que amadureçam mais depressa e, tanto quanto possível, em simultâneo (cf. Costa, 1956). Também naquela ilha é usual a produção de *aguardente de figo.
Os figos são frutos geralmente apreciados e por isso, nas zonas rurais, são encontradas, frequentemente, figueiras nos quintais, junto das habitações. Do cancioneiro popular dos Açores: Tendes a figueira à porta,/ Tendes sombra regalada;/ Tendes fama de bonita,/ Haveis de ser procurada (cf. Braga, 1869).
Os figos e a figueira também aparecem em superstições e adágios, todavia variantes daqueles conhecidos pelo país.
Gastronomia e Culinária Os figos, frescos ou secos ao sol, com pão e água constituíram refeição para as classes mais desfavorecidas de recursos. Continuam a ser apreciados ou em geleias, compotas e doces ou recheados com nozes ou amêndoas quando secos.
Algumas gotas do látex são suficientes para tornar a carne mais tenra e para coalhar o leite.
Medicina Popular Como laxante: são usados os frutos, especialmente em jejum. Para inflamações da garganta: gargarejos (60 grs. de figos/l de água em decocção durante 15 minutos). Como calicida: aplicação do látex sobre calos e verrugas (cf. Corsépius, 1997).
miolo de figueira Deve remontar pelo menos ao século XVII, a utilização da medula (miolo) da figueira na confecção de objectos de arte popular e conventual. A sua primeira aplicação terá sido na preparação das flores e das pequenas figuras zoomórficas dos presépios e lapinhas, mas depois diversificou para muitos outros objectos. Nas manifestações desta arte popular tudo é branco e frágil. Há registos de que o miolo de figueira tenha sido usado para trabalhos artísticos em todas as ilhas do arquipélago.
O trabalho executa-se cortando o miolo, que é extraído nos meses de Novembro a Fevereiro, em lâminas muito finas que são unidas com o auxílio das pontas de alfinetes e coladas com goma-arábica. Luís M. Arruda
Bibl. Braga, T. (1869), Cantos populares do Arquipélago Açoriano. Porto, Livraria Nacional. Corsépius, Y. (1997), Algumas Plantas Medicinais dos Açores. 2.a ed., S.l., s.e. Costa, C. (1956), A figueira nas tradições populares açorianas. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 24: 171-175. Franco, J. A. (1971), Nova Flora de Portugal. Lisboa, Sociedade Astória, I. Queirós, M. (1987), Ficus carica (Moraceae). In Iconographia Selecta Florae Azoricae, A. Fernandes e R. B. Fernandes (eds.). Coimbra, Secretaria Regional da Cultura da Região Autónoma dos Açores, 2, 1: 63-72. Schäfer, H. (2002), Flora of the Azores, A field guide. Weikersheim, Margraf Verlag.
