feto

Nome pelo qual é conhecida a espécie Pteridium aquilinum, da família Hypolepidaceae, também conhecida por feito (Palhinha, 1966; Fernandes, 1983), fèteira ou feiteira (Gomes, 1950: 75).

Segundo Fernandes (1983) é uma planta planta rizomatosa com folhas 0,20-4 m longas, atingindo o maior comprimento em exemplares vivendo à sombra. Rizoma longo, até 1 cm espesso, rastejante, subterrâneo, de cortex anegrado, densamente coberto na extremidade por pêlos pluricelulares acastanhados, glabro na parte restante, emitindo folhas a intervalos de 1 cm ou mais. Pecíolo erecto, até 2 m longo (geralmente 0,5-1 m), canaliculado, com um intumescimento basilar abaixo do nível do solo coberto por pêlos curtos e acastanhados, mas glabro, acastanhado a amarelo-palha na parte aérea. Limbo 0,2-2 m longo, de contorno deltóide a oblongo-ovado, 2-3-pinado, coriáceo; pinas até 40x15 cm, ovado-deltóides a oblongas, opostas, as inferiores pecioluladas e ascendentes, as outras sésseis; pínulas cerca 15x2 cm, oblongo-lanceoladas; segmentos das pínulas maiores 5-15x3-5 mm, obtusos ou subagudos no ápice, de margem geralmente inteira e muitas vezes revoluta, decorrentes na base, verdes, subglabros ou pubescentes, na página superior, verde-pálidos, mais ou menos pubescentes, na inferior. Soros alongados, submarginais, geralmente contínuos. Esporângios globosos. Esporos castanhos.

P. aquilinum difere de Culcita macrocarpa (*feto-do-cabelinho) graças aos soros lineares, rizomas rastejantes, longos, e folhas solitárias (Schäfer, 2002).

Registada por Seubert (1844) para os Açores, ocorre em todas as ilhas (Palhinha, 1966; Fernandes, 1983). Segundo Sjögren (1973) e Schäfer (2002), não apre­senta limites distintos em altitude, mas rara acima de 1.100 m; ocorre, geralmente, em habitats fortemente expostos, secos ou húmidos, sobre arribas e em fendas de mantos lávicos recentes, sobre paredes de pedra, trincheiras de estradas e caminhos, costas marítimas arenosas e margens de lagos, mas muito comum nas pastagens. Faz parte de associações antropocóricas, aparecendo no Festucion petraeae e no Juniperion brevif olii.

O Pteridium quando invade os terrenos de cultura, torna-se uma praga muito difícil de eliminar. Segundo Fernandes (1983), durante os trabalhos agrícolas, o seu rizoma alongado, que vive a uma certa profundidade do solo, é dividido e a planta multiplicada por via vegetativa, invade, rapidamente, novas áreas. À sombra, o Pteridium não produz ou origina poucos esporos, mas em locais expostos, os esporângios desenvolvem-se normalmente, produzindo as plantas grandes quantidades de esporos que são espalhados pelo vento. A germinação fácil dos esporos, proporciona a formação de muitos gametófitos e o desenvolvimeto de muitos esporófitos. As suas capacidades alelopáticas, impedem o desenvolvimento de outras plantas suas competidoras, tornando-se, deste modo, dominante e expandindo-se. Nos Açores, acontece assim nos espaços onde as matas de Cryptomeria japonica foram abatidas. A reflorestação rápida dessas áreas limita o desenvolvimento do feto e a acumulação de substâncias químicas que impedem a germinação das sementes ou o desenvolvimento das árvores jovens que forem plantadas.

A lavra, relativamente profunda, que traga à superfície os rizomas, posteriormente retirados e queimados, tem-se mostrado um processo eficaz na luta contra a expansão do Pteridium e tem a vantagem de preparar o terreno para a reflorestação. Outro processo é a aplicação, no fim do verão, de herbicidas sobre as folhas. O tratamento pelo asulam [carbamato de metil (4-aminobenzenesulfonil)], sobre as folhas e os rizomas, tem dado resultados positivos, nomeadamente em Inglaterra, mas a sua acção sobre as espécies espontâneas é mal conhecida.

Apesar de se tratar de uma planta venenosa para o gado e para o homem, quando consumida em quantidade, devido a uma toxina capaz de produzir um síndroma hemorrágico fatal, as suas folhas têm sido utilizadas pelo homem, desde a mais remota antiguidade, na preparação de camas para pessoas e animais domésticos, na cobertura de abrigos, como combustível, como adubo rico em potassa, juntamente com os excrementos do gado, e até na alimentação. A partir dos rizomas, secos e descascados, é produzida uma farinha, com que é fabricado o chamado pão-de-feto. Drouët (1866: 31) regista o seu consumo na ilha de Santa Maria, quando refere: «une espèce de fougère (Pteris aquilina), dont la racine sert aux habitants pauvres à fabriquer du pain». Também Gomes (1950: 75) regista a utilização do rizoma desta espécie na farinação e panificação em S. Miguel.

Do folclore: No tempo em que eu te amava/ Antes, eu roçava feito/ Quem roça feito, faz roça/ Quem roça tira proveito (cf. Barcelos, 2001). Luís M. Arruda

Bibl. Barcelos, J. (2001), Falas da ilha das Flores, Vocabulário regional. S.l., ed. do autor. Drouët, H. (1866), Catalogue de la flore des îles Açores. Paris, Baillière et Fils.. Fernandes, A. (1983), Pteridium aquilinum (Hypolepidaceae). In Iconographia Selecta Florae Azoricae, A. Fernandes e R. B. Fernandes (eds.), Coimbra, Secretaria Regional da Cultura da Região Autónoma dos Açores, 1, II: 171-181. Gomes, F. (1950), Dois comentários a propósito de «Três antigas plantas úteis, originárias dos Açores». Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 1172-1176. Palhinha, R. T. (1966), Catálogo das plantas vasculares dos Açores, Lisboa, Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves. Schäfer, H. (2002), Flora of the Azores, A field guide. Weikersheim, Margraf Verlag. Seubert, M. (1844), Flora azorica. Bona, Adolphum Marcum. Sjögren, E. (1973), Recent changes in the vascular flora and vegetation of the Azores Islands. Memórias da Sociedade Broteriana, 22, 5-453.