Feteira (Horta)

1 Toponímia Freguesia do concelho da Horta, situada na costa sul da ilha do Faial, e limitada, a oriente pelas freguesia das Angústias, a nordeste e norte pela de Flamengos, e a ocidente pela freguesia de Castelo Branco. M. Eugénia S. de Albergaria Moreira

Geografia Ocupa parte das vertentes sul e sudeste do maciço da Caldeira, da ilha do Faial. A topografia é pouco variada; a vertente é mais declivosa na parte superior, acima dos 300 m de altitude, e largamente convexa na parte inferior, onde se concentram as povoações e as vias de comunicação. Apenas os picos da Granja, com 309 e 229 m de altitude, se salientam, na parte oriental da freguesia. A rede hidrográfica da ribeira da Granja e seus afluentes (ribeiras de S. Pedro e do Farrobim) drena toda a freguesia. A costa é formada por arribas basálticas sub-verticais, entre 10 e 20 m de altura (61 m em Rocha Alta), interrompidas na foz da ribeira da Granja, em Porto da Feteira, onde se acumulou um calhau. É uma freguesia muito povoada, que em 2001 contava 1.498 habitantes residentes (761 mulheres e 737 homens; INE, 2001), mais 15 que em 1991. Durante o século passado a população atingiu o máximo em 1950 (2.188 habitantes; INE, 1960) e o mínimo em 1970 (1.300). M. Eugénia S. de Albergaria Moreira

História, Actividades Económicas e Culturais Segundo provisão passada por D. Sebastião, acerca do acrescentamento de côngruas, já era freguesia em 30 de Julho de 1568. Integra o concelho e a comarca da Horta e a diocese de Angra e ilhas dos Açores. A sua sede dista do concelho cerca de 5 km, por estrada já existente antes de 1850. Inclui várias localidades, Feteira, a sede, e ainda Algar, Amoreirinhas, Atalaia, Courelas, Farrobim do Norte, Farrobim do Sul, Fonte do Rego, Granja, Grotas, Laginha, Maria Leonarda, Pedregulho, Portela, Quinhões e S. Pedro. A freguesia é cortada por duas ribeiras, para que concorrem outras linhas de água, a de S. Pedro e a da Granja, que se reúnem na zona baixa.

Gaspar Frutuoso quando descreve o Faial, a propósito da Feteira, refere: «Pera diante, indo a oeste ao longo do mar, perto de Porto Pim, em costa rasa, se faz uma ponta de terra pequena, que se chama ponta Furada, pela qual passa o mar de uma banda a outra, e adiante um quarto de meia légua está uma freguesia, que se chama a Feiteira, da advocação do Espírito Santo; tem a igreja três naves, com cinco colunas, sobre as quais está a armação de madeira e tecto e duas capelas aos lados direito e esquerdo. Há nela noventa fogos e almas de confissão trezentas e vinte e duas, das quais são de comunhão duzentas e cinquenta; é vigario Pero Camelo de Sampaio e tem um tesoureiro. E, por ser antiga a confraria desta igreja e rica, há bandos sobre ela neste povo; mas a que tem do Santo Sacramento é a mais rica da ilha. E adiante, perto de um quarto de légua, está uma ermida de São Pedro, de muita romagem, e tem um baluarte no portinho dela, donde varam barcos, que mandou fazer o provedor Gomes Pacheco de Lima no tempo das alterações» (Livro VI: 103). Também Chagas (1989: 478), na sua crónica do século XVII, refere esta ermida de S. Pedro. Para Monterrey [1980] «é terra de extensos e magos horizontes, feliz conjunto em variações de cor, grácil posição defronte da ilha do Pico. Terra onde não faltam inestimáveis caprichos naturais, pródigas dádivas de um Criador, .... Entre elas a deslumbrante Laginha e a Ponta Furada, um arco de lava por onde o mar penetra».

Foi primeiro habitada, em 1468, pelos flamengos de Josse van Huertere que se terão estabelecido, inicialmente, na zona alta, junto às ribeiras, na localidade Grotas, nome que alude ao povoador Groots (cf. Rosa, 1976) e que posteriormente se terão estendido à zona baixa. Onde os montes fazem passagem estreita estava o portal de entrada para o sesmo, a localidade denominada Cruz da Portela (cf. Rosa, 1976).

De costa baixa, foi considerada acessível à entrada de piratas e por isso foram construídos os fortes de Santa Luzia, no Pé da Rocha, o do Espírito Santo, na Laginha e o da Ponta Furada e dois redutos junto à foz da ribeira. Todas estas infra-estruturas já desapareceram. Durante a II Guerra Mundial, a 2.a Companhia de Sapadores Mineiros, do Regimento de Engenharia 1, esteve estacionada nesta freguesia, sob o comando do capitão Adriano Brandão Vasconcelos. No local de estacionamento foi construído um quartel com três edifícios ainda existentes. O espaço fronteiro a essas instalações alude à circunstância com o topónimo Largo da Engenharia. A Estação Rádio Naval da Horta tem na localidade das Courelas, desde 1939, um serviço de recepção que inclui o recinto dos mastros-antenas e edifícios para equipamentos e pessoal.

Outros acontecimentos importantes na história da freguesia foram a impertinente febre tifóide que ceifou a vida de grande número de pessoas, em 1899, e o ciclone de 28.2.1952. Um bairro de casas económicas, inaugurado em 1956, foi construído na freguesia, pela Santa Casa da Misericórdia da Horta, para os sinistrados.

Ao longo do tempo viveu da agricultura, da pecuária e da pesca. A cultura, primeiro, da batata-doce, da laranja e do limão e, depois, do milho e do trigo foram marcantes, pelo menos desde o século XIX, até que por meados do século XX, a criação de gado, para produção de leite e de carne, se tornou mais rendível. Hoje a actividade ligada à terra é quase exclusivamente a pecuária. Com porto próprio, as suas redondezas eram habitadas, maioritariamente, por pescadores, mas, actualmente, esta actividade tem pouco significado. Numa pequena área «industrial» estão instaladas uma unidade de processamento de carne, uma empresa de cultura de plantas ornamentais, serviços dos Correios e oficinas várias. Na freguesia há ainda algumas instalações para serração de madeira e apoio à construção civil, comércio de mercearia, um restaurante junto ao porto e alguns cafés. Muitos dos seus habitantes trabalham nos sectores secundário e terceário, fora da freguesia.

A Casa do Povo, criada em 1 de Setembro de 1973, está instalada conjuntamente com a Junta de Freguesia, num edifício inaugurado em 1974. Funciona como extensão da Segurança Social mas tem desenvolvido outras actividades nomeadamente recreativas (v. g. desfile de carnaval) e de representação da freguesia (v. g. participação nas comemorações 150.o aniversário da cidade da Horta e nas festividades da Semana do Mar). A Junta de Freguesia tem apoiado iniciativas várias e publicou, irregularmente, alguns números do boletim Feteirense.

O ensino primário oficial, depois de ter funcionado em vários edifícios provisórios, actualmente dispõe de infra-estruturas nas localidades de Algar, Portela e Farrobim do Sul, que remontam à década de 1960.

O conjunto de cisternas e de poços usados para recolha e armazenamento de água só começou a ser substituído por um sistema de distribuição domiciliária na década de 1970.

A rede eléctrica foi inaugurada a 5 de Maio de 1968 na zona baixa da freguesia (rua de S. Pedro e arredores). Depois, outras zonas foram sendo beneficiadas até que, finalmente, chegou aos «Farrobins» em 1978.

Os correios e os telefones tinham, inicialmente, dois postos, um junto à igreja paroquial e outro na localidade das Grotas. Com o surto emigratório, posterior à erupção dos Capelinhos, a correspondência aumentou consideravelmente, e a freguesia passou a dispor de carteiro. Também a rede telefónica foi crescendo e automatizada a 14 de Abril de 1970.

A carreira de camioneta Capelo-Horta, iniciada a 26.1.1900, serviu a freguesia, pela primeira vez, com transporte automóvel colectivo.

A igreja, na sede da freguesia, está construída no local onde anteriormente existira uma capela que vinha do século XVI (anterior a 1568). Ostenta a data de 1824, ano em que foi iniciada a sua reedificação, finalizada em 1864. Tendo sofrido danos com o terramoto de 1926, foi restaurada em 1931. Os prejuízos causados pelo sismo de 1998 aguardam reparação. De fachada relevante e uma só torre sineira, é templo de boas proporções (35 m de comprimento). A talha muito singela, que reveste os altares, é de valor artístico diminuto. O orago, Divino Espírito Santo, é celebrado na 2.a feira de Pentecostes.

Festividade centenária e a mais importante da freguesia é a de Nossa Senhora de Lurdes, cuja imagem terá chegado em 1883 e desde então celebrada no último domingo de Agosto. Inclui uma celebração religiosa, que começa na quarta-feira anterior, com procissão de velas, partindo, rotativamente, dos «impérios» do Farrobim, das Grotas e da Portela, a que recentemente juntaram o da Atalaia, e tríodo com celebração da missa. No domingo há missa solene, sermão e procissão, que inclui a área do porto de pesca no seu percurso. A procissão de velas é seguida de bodo de leite e a procissão da Senhora continuada por arraial, nocturno, com iluminação e fogo de artifício. A festa é largamente suportada pelo Império dos Marítimos da Feteira (ver abaixo).

Outras festividades religiosas são a de Santa Rita de Cássia (22 de Maio), a de Santo Antão (17 de Janeiro) e as procissões do Senhor-Morto e da Ressurreição.

Na freguesia são tradicionais as Irmandades do Espírito Santo, denominadas «impérios», organizadas em diferentes locais tendo em vista homenagear o Divino Espírito Santo e promover a solidariedade entre os irmãos. Já não se realizam o das Crianças, no Algar, o da Laginha, o das Meninas, nas Amoreirinhas, o das Raparigas, no Poceirão, o da Filarmónica Lira e Progresso Feteirense, e o do Porto, no dia de S. João, também conhecido por este nome, por evocar, conjuntamente, S. João Baptista e o Divino Espírito Santo, com missa e procissão até ao porto.

O Império dos Marítimos da Feteira, com mais de um século de existência, tem como padroeira Nossa Senhora de Lurdes. Durante o mês de Agosto, todas as embarcações destinam uma soldada de peixe à cobertura das despesas da realização da festa (ver acima). No dia da procissão, as embarcações dos pescadores são varadas junto ao porto, e o andor da Senhora desce sobre cada uma delas, quando o mestre toma o cabo da amarra e o passa em volta da imagem, pedindo a sua protecção.

O Império da Caridade dos Marítimos da Feteira (vulgo da Igreja), comemora-se, actualmente, na segunda-feira do Espírito Santo, prolongando-se o arraial pela terça-feira. Trata-se de uma instituição que deve remontar ao povoamento da localidade. Tinha por objectivo a partilha de alimentos na Festa de Pentecostes. Assim, os bezerros prometidos (ex-votos) ou arrematados nos leilões do arraial e oferecidos à Irmandade, eram sorteados pelos irmãos que se encarregavam de os manter para serem abatidos no ano seguinte e a sua carne distribuída pelos membros da Irmandade. Hoje continua a ser oferecida carne, mas de um bovino comprado pela Irmandade. Eram também distribuídos pão e massa sovada confeccionados por alguns membros, com a farinha do trigo recolhido numa colecta.

Na Atalaia, o «império» tem lugar no domingo da Trindade; no Farrobim do Sul, no 2.o domingo anterior ao domingo do Espírito Santo; na Granja, no domingo anterior à festa de S. João (24 de Junho); nas Grotas, no domingo do Espírito Santo; na Portela, em domingo de Julho, variável; e em S. Pedro, no penúltimo domingo de Agosto.

As festividades que promovem são idênticas. De manhã, é organizado um cortejo que leva a coroa à igreja onde é celebrada missa cantada com sermão e realizada a cerimónia da coroação. Depois, em cortejo, a coroa regressa ao «império» onde, nalguns casos, é servido o bodo de leite.

Ao fim da tarde, prolongando-se pela noite, é realizado um arraial, com uma ou duas filarmónicas, onde são arrematadas (leiloadas) as ofertas dos irmãos, tradicionalmente, massa sovada e produtos da terra tais como batatas, bananas e outros, por vezes pão e bolo de milho, lapas e caranguejos a que recentemente foram adicionados os bolos doces.

A Sociedade Filarmónica Lira e Progresso Feteirense foi fundada em 1 de Outubro de 1921. Ensaiou, inicialmente, na sacristia da igreja paroquial, mas pouco depois passou a dispor de edifício próprio. Maestro Francisco Symaria foi o seu primeiro regente. Já actuou em quase todas as ilhas do arquipélago. Com salão e palco na sede e junto desta, durante algum tempo, recinto ao ar livre apropriado à realização de festas e de jogos, organizou: (a) equipas de basquetebol, uma das quais disputou um torneio preparado, em 1949, pela então recém-fundada Liga de Basket-Ball do Distrito da Horta; (b) um orfeão, dirigido por Alexandre da Rosa Fraga, e uma orquestra (1949/50); sarau músico-literário e grupo dramático (1937) e teatro infantil com crianças da escola (1950); (c) danças carnavalescas exibindo arcos, espadas, cardaços e uma comédia com crítica social, durante vários anos; e (d) um «império». Tem como patrono Nuno Álvares Pereira.

Na freguesia houve outra filarmónica, a denominada Nova União Recreativa Feteirense, que funcionava conjuntamente com o Club Recreativo Feteirense, na rua da Igreja, 8, que durou cerca de 3 anos (1937-1939). Também teve equipa de basquetebol e campo de jogos anexo. As equipas das duas filarmónicas defrontaram-se apenas uma vez, vencendo a da Lira e Progresso. Também organizou um império pelo menos em 1938.

No passado, foram actividades de destaque os ranchos de Natal e as danças de Carnaval das quais a dos pescadores saiu à rua durante vários anos e teve fama.

O folclore é recente na freguesia e foi trazido pelo Grupo Folclórico do Farrobim, depois Rancho Folclórico da Feteira, que data de 1994. Os homens vestem camisa branca e colete e calças pretas; usam chapéu de feltro preto. As mulheres usam blusa e meias brancas e saia vermelha com renda branca, na bainha, e lenço vermelho ao pescoço. Todos calçam sapatos pretos.

O Sport Club do Farrobim, criado no final da década de 1950, tinha um campo de terra batida, nesta localidade. Deu origem ao Centro de Recreio Popular Farrobiense que então disputava os campeonatos da FNAT. Equipava de camisola vermelha, calção branco e meias vermelhas. Terminou na década de 1970. Actualmente, na freguesia existe o Grupo Desportivo da Feteira, fundado em 20.4.1990, com instalações desportivas no sítio das Canadinhas, que disputa as provas da Associação de Futebol da Horta. Equipa com camisola encarnada e calção branco e meias brancas com viras vermelhas.

A Feteira foi terra de pedreiros, canteiros e carpinteiros. A chaminé da fábrica de processamento de peixe para conserva, no Pasteleiro, é a obra de maior vulto do canteiro José Machado. Os irmãos Vargas Garcia, Manuel, António e Alberto, deixaram obras de vulto na igreja da Praia do Norte e na muralha da Avenida Marginal. A família Contente era exímia a trabalhar madeira. António foi o autor da talha da porta da capela do Senhor Bom Jesus, em São Mateus, ilha do Pico, e Francisco deixou trabalhos de talha na igreja dos Flamengos e uma pequena capela na vivenda de D. José da Costa Nunes, na freguesia da Candelária, ilha do Pico. Luís M. Arruda

Heráldica Ordenação aprovada pela assembleia de freguesia, em 20 de Junho de 1996:

Brasão – escudo de fundo verde, uma estrela de prata de cinco pontas, carregada de uma rosa mística, azul, com botão ouro, alusiva a Nossa Senhora de Lourdes, que é a festa maior desta freguesia; acima uma coroa de prata, por a igreja ser dedicada ao Divino Espírito Santo; duas folhas de feto, em ouro, pelo facto de o nome desta localidade ser oriundo desta planta; e o ondeado do mar, em prata, que representa a actividade marítima desta localidade. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro, em maiúsculas «Feteira – Horta».

Bandeira – amarela; cordão e borlas de ouro e verde; haste e lança de ouro.

Selo – nos termos da lei, com a legenda «Junta de Freguesia da Feteira – Horta». Luís M. Arruda

2 Sede da freguesia da Feteira, do concelho da Horta, é uma povoação pequena, situada à beira-mar, ao longo da estrada que orla a vertente costeira, na margem da ribeira da Granja, junto à foz. M. Eugénia S. de Albergaria Moreira

Bibl. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. S.l. [Angra do Heroísmo], Secretaria Regional de Educação e Cultura/Universidade dos Açores. Frutuoso, G. (1998), Livro VI de Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. [Império do porto] (1910). O Fayalense, 23 de Junho. Instituto Nacional de Estatística (1960), Recenseamento Geral da População no Continente e Ilhas Adjacentes. Lisboa, INE, I, 1. Id. (2001), Censos 2001. Resultados Preliminares. Região Autónoma dos Açores. Lisboa, INE. Monterrey, G. [1980], Faial (Açores) uma ilha de encantar. [Porto], E. do Autor. Principiou hoje a carreira de omnibus para o Capello (1900). O Telégrafo, 26 de Janeiro. Sporting Club da Horta (1950).O Telégrafo, 15 de Julho, n.o 15.188 [«Orfeão» e «orquestra» da Filarmónica «Lkira e Progresso Feteirense»]. Quinta-feira, pelas 21 horas, noite feteirense (1950). O Telégrafo, 19 de Julho, n.o15.192 [exibição do «Orfeão Feteirense»]. Artistas que partemn, Francisco Pereira Coutinho (1954). O Telégrafo, 18 de Julho, n.o 16.381 [Francisco Pereira Contente trabalhos de talha na igreja dos Flamengos e pequena capela de pau-rocho na vivenda do sr. D. José da Costa Nunes]. A inauguração do bairro económico da Feteira (1956). O Telégrafo, 10 de Janeiro, n.º 16.831. Rosa, J. (1976), Senhora das Angústias – Senhora povoadora, Padroeira da ilha do Faial. Angra do Heroísmo, s.e.