fenícios no Corvo

No fulcro das rotas transatlânticas, o Grupo Ocidental dos Açores terá sido visitado em épocas mais remotas daquelas admitidas pela historiografia oficial, como parecem sugerir dois achados documentados na ilha do Corvo, com características fenícias.

Na Antiguidade, grande eco tiveram as viagens de exploração marítima realizadas por cartagineses e fenícios, tais como a circum-navegação da África sob o faraó Necho (séc. VII a.C.) e o périplo de Annão, que chegou ao Golfo da Guiné no séc. V a.C. Se não soubermos da centralidade das Flores e Corvo no Atlântico Norte e da sua posição particular em relação ao firmamento, confirmada ainda hoje por quem navega com instrumentos antigos, seria curioso constatar que as duas únicas referências a um conhecimento pré-Português dos Açores, sejam ambas relativas à ilha do Corvo e possivelmente fenícias. Em Quinhentos e Seiscentos, quando o Corvo era para mareantes a «Ilha do Marco» («marco» na navegação; subsiste o topónimo Ponta do Marco), as ilhas ocidentais foram ponto de encontro entre naus ou galeões das Índias, e navios da Provedoria das Armadas ou de ferozes piratas. Em 1567 Damião de Góis escreveu sobre o achamento no Corvo de uma estátua em pedra, com letreiro ilegível: um cavaleiro de capa e sem barrete a indicar o Poente. O mesmo autor, cronista de D. Manuel I, relatou que um afamado arquitecto foi enviado pelo rei à mais pequena ilha, para recortar a estátua de uma laje. A operação malogrou-se, a estátua partiu-se e a equipa voltou ao reino só com pedaços: a cabeça do cavalo, o braço direito com a mão do homem e outros. Góis apontava países escandinavos como origem provável dos escultores, mas contestou a ideia de G. Frutuoso, o primeiro a propor que a estátua equestre fosse ao estilo cartaginês. Dois séculos mais tarde, em 1749, uma violenta tempestade trouxe à luz no Corvo uma vasilha de barro com moedas fenícias. Nove delas foram parar a Espanha e depois à Suécia, quando o Padre Florez de Madrid, conceituado numismático na Península Ibérica, as presenteou, em 1761, ao estudioso J. Podolyn, que narrou o sucedido nas Memórias da Sociedade de Gothembourg. Se ninguém, hoje em dia, contesta a autenticidade das moedas de 1749, opina-se que as mesmas terão sido levadas ao Corvo por navegadores pós-fenícios. Oficialmente, duvida-se também não só da origem da estátua equestre, mas até da sua própria existência, julgando-se marinheiros, povoadores, peritos e historiadores da época como vítimas de alucinação colectiva, frente às figuras naturais criadas pelos rochedos da ilha. Em evidente contraste com a pormenorização da descrição da estátua, é óbvio que se tratam de interpretações niilistas, fruto dos acentuados nacionalismo e eurocentrismo da historiografia do Velho Continente, e da utópica pretensão de cientismo histórico. Se de Atlântida só Platão falou, é bem possível que barcos fenícios, frequentadores das Canárias e talvez da volta à África, tenham ido parar semi-voluntariamente ou embalados por uma tempestade ao Grupo Ocidental dos Açores, destino mais provável de chegada à Europa segundo estrelas e ventos. Os dois achados da ilha do Corvo situariam a data da sua descoberta a milhares de anos de distância da divulgada actualmente, mas já não existem vestígios que possam confirmá-lo. Tentaram encontrá-los, em 1983 no Corvo, equipas do Consiglio Nazionale delle Ricerche de Roma e da Universidade de Leeds, coordenadas pelo Prof. Isserlin, que não conseguiram certezas sobre a presença, nem sobre a ausência, de rastos fenícios. Estudos recentes defendem que a descoberta dos Açores tenha acontecido em 3600 a.C., segundo uma interpretação das gravuras nos megálitos de Gavrinis, na Bretanha francesa, e de outras inscrições rupestres, que parecem representar os dois lados do Atlântico: o trabalho de De Jonge e Wakefield não deixa de ser visionário, ao menos nas conclusões, mas abre perspectivas. Diversas experiências de aventureiros, demonstram que é possível atravessar o Atlântico até em canoa ou caiaque, sem assistência. Os ameríndios poderão ter descoberto os europeus, hipótese deveras muito mais lógica, segundo os alísios, do que a inversa. É o que revelam, em aparência, alguns indícios que levaram Colombo a redescobrir a América: dois corpos de rosto largo, «não cristão», encontrados nas praias da ilha das Flores e estranhas canoas (lignis), da Irlanda à Guiné. Já não se pode considerar mera ficção histórica a suposição de que os fenícios, hábeis e destemidos navegadores, tenham vindo até aqui parar esporadicamente, no regresso ao Mediterrâneo, vindos da costa ocidental africana. As peculiares condições atmosféricas na área dos Açores, cujo anticiclone fabrica literalmente o tempo que se destina à Europa e à África do Norte, sempre dificultaram o reencontro das ilhas, até à estabilização quatrocentista e quinhentista de rotas marítimas, como a lusitana Volta pelo largo. Pierluigi Bragaglia

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