faróis

A farolização do litoral português foi, desde séculos e numa altura em que os poucos faróis existentes só a grande custo conseguiam furar as imensas trevas, uma necessidade que se impunha aos governantes, às populações e aos navegantes. Os mais antigos de que há notícia, pouco mais eram do que simples luzeiros, confundindo-se com os primitivos «fachos», utilizados em locais de cota elevada, numa tentativa pouco conseguida de sinalizar as costas e orientar as tripulações de navios à vela.

A designação de «dark land» atribuída, em épocas passadas às costas de Portugal continental, era sinónimo dos perigos que espreitavam os navegadores incautos que, inadvertidamente, aproximando-se demasiado da orla costeira, corriam o risco de naufrágio, de que eram vítimas muitos navios que por ali passavam.

Essa escuridão secular só começou a ser rompida a partir da segunda metade do século XVIII, quando finalmente o estado português, então sob a tutela do marquês de Pombal, decretou a intenção de mandar edificar faróis em diversos pontos do país. Os Açores só vem, no entanto, a ser contemplados, muito mais tarde, uma vez que só em 1870 surge o primeiro «plano geral de farolagem para as ilhas adjacentes» sob a orientação do oficial de marinha, engenheiro hidrógrafo, Francisco Maria Pereira da Silva.

Em épocas anteriores, desde os ilhéus das Formigas até ao Corvo, ficaram registados na história trágico-marítima destas paragens, um sem número de naufrágios de barcos de todos os tamanhos e nacionalidades que viram os seus dias findarem, encalhados em baixios ou despedaçados pela maresia, de encontro às penedias, em pontos da costa ocultos pelas trevas das longas noites de navegação sem nenhuma referência luminosa que os orientasse.

Esta, a dramática realidade vivida durante séculos nestas paragens, até à construção do primeiro farol nos Açores, na Ponta do Arnel, na ilha de S. Miguel e inaugurado em 1876; e mesmo muito depois daquela data, uma vez que a cobertura de toda a área do arquipélago, se prolongou por várias décadas e se processou com intervalos de tempo bastante espaçados.

Assim, o segundo farol a ser construído nos Açores foi o da Ponta da Ferraria, em 1901, no extremo oposto ao da Ponta do Arnel, na ilha de S. Miguel e o dos Capelinhos, na ilha do Faial, foi inaugurado em 1903 (subterrado pelas areias do vulcão do mesmo nome, em 1958) embora o edifício tivesse ficado concluído alguns anos antes.

Segue-se, por ordem cronológica dos anos de inauguração, uma listagem dos faróis açorianos:

 

                                    1908 – Serreta (ilha Terceira) danificado pelo sismo de 1.1.1980 substituído por uma     torre metálica e um conjunto de pré-fabricados

                                    1910 – Lajes das Flores

                                    1919 – Ribeirinha (ilha do Faial) arruinado pelo sismo de 9.7.1998

                                    1924 – Albarnaz (ilha das Flores)

                                    1927 – Topo (ilha de São Jorge)

                                    1927 – Gonçalo Velho (ilha de Santa Maria)

                                    1930 – Ponta da Barca (ilha Graciosa)

                                    1934 – Contendas (ilha Terceira)

                                    1946 – Ponta da Ilha (ilha do Pico)

                                    1950 – Ilhéu das Formigas

                                    1956 – Carapacho (ilha Graciosa)

                                    1957 – Cintrão (ilha de São Miguel)

                                    1957 – Ponta Garça (ilha de São Miguel)

                                    1958 – Rosais (ilha de São Jorge) totalmente arruinado

 

Ainda em épocas anteriores à construção dos primeiros faróis de grande porte, nos Açores (estruturas autónomas anexadas a instalações para residência dos faroleiros) existiram, em algumas ilhas, farolins instalados preferencialmente à entrada de embarcadouros ou em pontos mais elevados da costa e com a função de sinalizarem pequenos portos ou baías. Distribuídos pelo arquipélago existem, presentemente, cerca de oitenta daquelas unidades.

Os faróis foram, ao longo dos tempos, sendo alvo de melhorias técnicas que contribuíram para o aumento da sua eficácia, nomeadamente nos sistemas lenticulares, nas fontes de alimentação dos aparelhos produtores de luz que, em anos mais recentes, passaram a utilizar energia eléctrica.

Das personalidades açorianas que, ao longo de décadas mais se destacaram na abordagem da temática dos faróis, tentando levar aos poderes centrais o resultado das reivindicações das populações, são de referir os florentinos, deputados às cortes pelo círculo da Horta, Teófilo Ferreira e André de Freitas e o faialense conselheiro José de Almeida Ávila, autor de um projecto intitulado «A illuminação das ilhas do archipélago açoriano». Carlos Silveira

Bibl. Silveira, C. (2003), Faróis dos Açores – Um património a preservar. Horta, Direcção Regional de Turismo (Horta).