Fanfarra Operária
Associação fundada em Angra do Heroísmo, em 1906, com o nome de Sociedade Operária Pátria e Liberdade D. Carlos I, por se situar numa rua com o nome do monarca. Meses depois, tomou a designação de Real Fanfarra D. Carlos I, por título concedido pela mordomia da Casa Real. Com a implantação da República passou a designar-se Fanfarra Operária e Liberdade. Em 1922, na euforia da travessia do Atlântico Sul pelos dois aviadores portugueses, voltou à sua sede um grupo dissidente que havia criado a União Operária Musical Angrense e dessa reconciliação surgiu a Fanfarra Operária Gago Coutinho e Sacadura Cabral, aprovada por alvará de 1925. Independentemente da designação, a colectividade empenhou-se desde o início em actividades culturais através de palestras, conferências, aulas e a organização de uma biblioteca; na parte recreativa proporcionou jogos lícitos, saraus diversos, com destaque para os bailes que se tornaram muito populares logo nos primeiros anos da I República. Esta actividade prolongou-se até aos primeiros anos da década de 70, frequentada pelas camadas mais pobres da cidade, que não tinham acesso aos clubes mais elitistas, *Clube Musical Angrense ou ao Ténis Club. A sede, situada na Guarita, foi tomada de arrendamento em 1912 e adquirida em 1922. Com as instalações remodeladas em 1957, a Fanfarra abriu na década seguinte as suas portas ao cinema, promovendo ciclos de cinema de qualidade, seguidos de debate, e que atraíam as camadas mais jovens, nomeadamente alunos do Liceu. Esta era uma das actividades incentivadas por elementos da oposição ao regime que procuravam através da cultura aumentar o nível de consciencialização política, destacando-se, entre os seus dirigentes para este período, Emílio Ribeiro. Mas tendo em conta o perfil da sociedade, virada para o meio operário, a instituição procurou no início funcionar também como uma espécie de associação de socorros mútuos. Por isso, procurou criar um fundo de reserva, uma caixa de socorros mútuos para auxílio aos sócios pobres e doentes ou incapacitados de trabalhar, de acordo com os estatutos. Mas esta preocupação não deu os resultados esperados por falta de meios. As cotizações dos sócios eram insuficientes e, por isso, a Fanfarra recorreu a outros expedientes para angariar fundos. Nessa primeira fase foi fundamental o trabalho desempenhado por Miguel Forjaz [cf. Miguel Forjaz Coelho *Borges]. A vertente musical foi outra das actividades que projectou a Fanfarra, pela qualidade da sua banda. Na ilha associou-se a numerosos eventos e realizou excursões a outras ilhas. A partir dos anos 80, a actividade da Fanfarra foi entrando em declínio. Deixou de projectar cinema e mesmo a actividade recreativa foi esmorecendo, como em muitas outras colectividades. No início do século XXI, um incêndio devorou as instalações, que continuam aguardando uma solução. Carlos Enes
Bibl. Merelim, P. (1974), As 18 paróquias de Angra sumário histórico. Angra do Heroísmo, Tip. Minerva Comercial.
