falha
Em geologia o termo falha designa uma fractura ou zona de fractura (zona de falha) ao longo da qual ocorreu movimentação relativa entre os dois blocos por ela definidos. As falhas cortam e deslocam corpos rochosos ao longo de superfícies mais ou menos planares, os planos de falha. Às vezes, a regularidade e o grau de polimento daquelas superfícies é tal que são designadas como espelho de falha. As superfícies de falha podem ser planas (verticais ou inclinadas) ou curvas (normalmente diminuindo de inclinação para baixo), tomando neste caso a designação de falha lístrica. O esmagamento das rochas resultante da movimentação relativa entre os dois blocos pode originar materiais brechificados (brecha de falha) ou pulverizados (farinha de falha fault gouge) ao longo dos planos de falha.
As falhas resultam da deformação frágil dos corpos rochosos em níveis superficiais da crosta terrestre (normalmente nos 10 km superiores), podendo ou não atingir a superfície topográfica. A intersecção de uma falha com a superfície é chamada traço de falha (ou linha de falha). O deslocamento da topografia por efeito de movimentação numa falha origina uma vertente de origem tectónica chamada escarpa de falha. Se a falha não atinge a superfície toma a designação de falha cega.
A movimentação nas falhas pode ocorrer em qualquer direcção do espaço, mas normalmente a movimentação relativa entre os dois blocos definidos por uma falha é descrita relativamente a três tipos básicos de deslocamento: normal, inverso ou em desligamento. O deslocamento diz-se em falha normal quando o bloco localizado acima de um plano de falha inclinado desliza segundo a linha de declive máximo no sentido de inclinação do plano de falha (como um bloco escorregando ao longo de um plano inclinado). Quando o movimento do bloco situado acima de um plano inclinado se faz em sentido oposto (segundo a linha de declive máximo, mas ao contrário do sentido de inclinação) diz-se que a falha é inversa ou cavalgante (como um bloco empurrado por um plano inclinado acima). Quando as falhas são verticais (ou estatisticamente verticais) a movimentação pode efectuar-se horizontal e paralelamente ao plano de falha (falhas em desligamento), vertical e paralelamente ao plano de falha (falha vertical), ou obliquamente. Um desligamento é designado como direito (quando o bloco situado do outro lado da falha se desloca para a direita relativamente ao bloco onde se encontra o observador) ou como esquerdo (no caso contrário). Muitas falhas exibem movimentações oblíquas, isto é apresentando componentes de deslocamento normais e em desligamento, ou inversas e em desligamento, tomando a designação do movimento dominante seguida do adjectivo relativo à componente menor (por exemplo falha normal esquerda, falha esquerda inversa, falha inversa direita, etc.).
O atrito entre os dois blocos ao longo da fractura origina estriamentos mútuos e a eliminação progressiva de irregularidades nos dois blocos em contacto. As estrias e caneluras impressas nas superfícies de falha permitem conhecer a direcção do movimento relativo entre os dois blocos e, às vezes, também o sentido da movimentação.
O deslocamento acumulado por sucessivas movimentações numa falha (ou zona de falha) ao longo do tempo pode variar entre alguns milímetros e dezenas de quilómetros. O traço da falha (ou zona de falha) pode estender-se por centenas ou milhares de quilómetros, como é o caso de algumas fronteiras de placa. A largura de uma zona de falha pode atingir várias centenas de metros.
Uma falha na qual ocorreram sismos ou movimentações num período geológico recente (o chamado período neotectónico), podendo vir a gerar sismos idênticos num futuro próximo, é chamada falha activa.
A região dos Açores, atravessada por duas fronteiras de placa (o Rifte Médio Atlântico e a Zona de Falha Açores-Gibraltar), encontra-se densamente recortada por falhas, sendo a maioria falhas activas (Lourenço et al., 1998; Madeira, 1998).
Exemplo de falhas, expostas à superfície das ilhas (muitas ocorrem na região imersa da Plataforma dos Açores), são as falhas das Lajes e das Fontinhas, bem como outras falhas menores, que constituem o Graben das Lajes na ilha Terceira (Madeira, 1998). Ambas as falhas geraram sismos importantes no período histórico (posterior ao povoamento do arquipélago), nomeadamente em 24 de Maio de 1614 (roturas na Falha das Lajes) e em 15 de Junho de 1841 (rotura nas falhas das Fontinhas e da Cruz do Marco). Outra ilha que apresenta um conjunto de falhas muito evidente na morfologia é a do Faial, com importantes escarpas de falha, localmente designadas como lombas. Embora não se possa atribuir a nenhuma daquelas falhas qualquer sismo histórico, todas as falhas do Faial são activas, conforme demonstrado em estudos de neotectónica e paleossismologia (Madeira, 1998; Madeira e Brum da Silveira, 2003). José Madeira
Bibl. Lourenço, N.; Miranda, J. M.; Luis, J. F.; Ribeiro, A.; Mendes-Victor, L. A.; Madeira, J. & Needham, H. D. (1998), Morpho-tectonic analysis of the Azores Volcanic Plateau from a new bathymetric compilation of the area. Marine Geophysical Researches, 20: 141-156. Madeira, J. (1998), Estudos de Neotectónica nas ilhas do Faial, Pico e S. Jorge: uma contribuição para o conhecimento geodinâmico da junção tripla dos Açores. Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa. Madeira, J. & Brum da Silveira, A. (2003), Active tectonics and first paleoseismological results in Faial, Pico and S. Jorge islands (Azores, Portugal). In «Ten Years of Paleoseismology in the ILP: Progress and prospects», Daniela Pantosti, Kevin Berryman, Robert S. Yeats & Yoshihiro Kinugasa (Eds), Annals of Geophysics, 46, 5: 733-761.
