fajã

É um termo utilizado nos arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde para designar zonas com declives geralmente pouco acentuados situadas a altitudes próximas do nível do mar e na base de arribas alcantiladas. As fajãs podem ter duas origens distintas. Algumas correspondem a acumulações de depósitos de vertente ou de quebradas no sopé de arribas litorais. Outro tipo resulta da entrada de derrames lávicos pelo mar, após transporem a arriba litoral.

O segundo tipo ocorre nos litorais próximos de áreas com vulcanismo activo ou recente, enquanto que o primeiro é dominante nas arribas das regiões geologicamente mais antigas, podendo, contudo, formar-se em qualquer litoral com arribas altas. Neste caso, quanto maior for a altura das arribas mais facilmente ocorrerão processos de movimentos de massa que originem fajãs. Os processos que levam à sua génese e a sua posição geográfica determinam riscos acrescidos (movimentos de massa, temporais marítimos) para as populações que aí se fixaram. As fajãs sempre foram locais de ocupação humana, temporária ou permanente, desde o início do povoamento do arquipélago. Existem várias razões que o justificam. Por um lado são zonas de fácil acesso ao mar em ilhas normalmente alcantiladas; por outro apresentam condições climáticas distintas (mais quentes e secas) das regiões mais elevadas onde a frequência de nevoeiros é maior. Aquelas condições climáticas permitem, por seu lado, um conjunto de culturas agrícolas que não são possíveis, ou são menos produtivas, noutras localizações. Entre estas pode referir-se o cultivo da vinha, pomares, ou mesmo culturas tropicais como o café e o tabaco. Adicionalmente constituem, particularmente em épocas mais recentes, locais de veraneio muito apreciados.

Quanto mais alcantilado for o litoral de uma ilha maior a importância socio-económica das fajãs para as populações. Este é o caso das ilhas de S. Jorge e das Flores.

A dimensão das fajãs é muito variável, podendo constituir minúsculas parcelas de terreno, por vezes apenas acessíveis por mar ou por perigosas veredas, ou áreas vastas resultantes de enormes movimentos de massa (escorregamentos) como é o caso da Fajã Grande, na ilha das Flores.

Duas fajãs na ilha de S. Jorge são únicas no contexto da Macaronésia e talvez no mundo: as fajãs dos *Cubres e da *Caldeira de Santo Cristo. Trata-se de duas fajãs gémeas, apresentando um sistema de laguna-barreira protegidas por cordões de calhau rolado. A génese destas fajãs não foi, ainda, convenientemente estudada, mas ter-se-ão formado simultaneamente após grandes movimentos de massa na altíssima (700 a 800 m de altura) arriba que as limita a sul em resultado de um sismo próximo. Este evento poderá ter sido gerado numa falha localizada no mar ou, mais provavelmente, no topo da arriba onde é conhecida uma escarpa de falha resultante de rotura superficial recente, anterior ao povoamento (Madeira, 1998).

Estas fajãs e o seu sistema de laguna-barreira encontram-se em equilíbrio dinâmico. O cordão que delimita as lagunas foi formado pela remobilização pelo mar dos fragmentos rochosos da quebrada que originou as fajãs. A sua morfologia e posição, que varia em função da intensidade dos temporais marítimos, não deve ser objecto de modificações antrópicas sob pena de se romper o delicado equilíbrio. Trata-se, também, de regiões com habitats muito particulares e sensíveis.

Um exemplo de fajã lávica é a Fajã do Ouvidor, também na costa norte de S. Jorge, com a forma de promontório rochoso formado por um volumoso derrame basáltico emitido pelo Pico do Areeiro há cerca de 3.500 anos (Madeira, 1998; Madeira et al., 1998). José Madeira

Bibl. Madeira, J. (1998), Estudos de Neotectónica nas ilhas do Faial, Pico e S. Jorge: contribuição para o conhecimento geodinâmico da Junção Tripla dos Açores. Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa. Madeira, J.; Brum da Silveira, A.; Serralheiro, A.; Monge Soares, A. & Rodrigues, C. F. (1998), Radiocarbon ages of recent volcanic events from the Island of S. Jorge (Azores). Comunicações do IGM 84(1): A189-A192.