Fagundes, João Álvares

 [N. Viana da Foz do Lima, finais do século XV – m. ?, após Maio de 1521] Cavaleiro da casa de D. Manuel, piloto e navegador de finais do século XV/inícios do XVI, descobridor de parte das costas da América do Norte, dado por capitão da Terra Nova, é visto como o continuador das viagens dos Corte-Real e último explorador português na mesma área. Para alguns genealogistas, a Casa dos Fagundes, designada «do Outeiro», localizava-se na freguesia de S. Julião de Moreira, concelho de Ponte de Lima, comarca de Viana. Documentação coeva de 1498 e 1506, segundo José de Araújo, e de Maio de 1521, atesta a sua presença na dita vila. É por esta última, na trasladação da mercê de D. Manuel, datada de 13 de Março de 1521, que se conhece a maior parte das suas acções e empreendimentos. Por ela é-lhe concedida a capitania de todas as ilhas e terras que descobrisse, do Brasil para norte, fora da área de Castela e das terras dos Corte-Real, entre as quais estariam as ilhas designadas por S. João, S. Pedro, Santa Ana, Santo António, Santa Cruz, o arquipélago de S. Pantaleão e o das Onze Mil Virgens, todas por ele descobertas a suas expensas, algumas das quais serão mesmo designadas por Fagundas. Se o surgimento de algumas destas ilhas na cartografia do século XVI e a designação de Fagunda atribuída a uma delas são factos já atestados por Jaime Cortesão e Luís de Albuquerque, a tentativa de povoamento português da Terra Nova, em geral, também terá deixado os seus indícios. Aliás, e como ficou registado no Tratado das Ilhas Novas de Francisco de Sousa (1570), a iniciativa (da segunda ou terceira década de 1500) teria contado com um grupo de originários de Viana e certos casais açorianos. E estes açorianos terão sido, muito provavelmente, terceirenses. O facto deste «capitão da Terra Nova» ser vianense, a ligação, que se diz forte, da Terceira ao Minho (que inclusivé trouxe Rodrigo Fagundes, da mesma Casa, à dita ilha), e a situação dos anteriores exploradores da área – os Corte-Real – estarem muito ligados ao mesmo espaço insular, poderá ter unido ambas as regiões portuguesas, nesta pouco conhecida tentativa de povoamento das recém-descobertas zonas do Atlântico Norte. De qualquer modo, e quanto às ilhas de João Álvares Fagundes em particular, diz-se que pelo menos a de Santa Cruz, junto ao Banco do Bacalhau, foi vendida pelos herdeiros do navegador, em razão do seu rigor climático. Apesar dos poucos recortes existentes sobre eventuais domínios, proventos económicos e respectiva fortuna pessoal, o testamento da filha e do genro (1548) regista grandes despesas e dívidas do progenitor. Apesar disso, permaneceu na lembrança de alguns como instituidor do morgadio que no século XIX andaria na Casa de Britiandos, em virtude da família ter acabado por entroncar com os «Pereira Pinto» da dita Casa. Foi a dita filha herdeira de todos os bens, conforme a mercê de D. Manuel ao pai que, para além de lhe conferir direitos e privilégios idênticos aos dos capitães dos Açores e Madeira, isenta-o da Lei Mental e permite-lhe sucessão na linha feminina. Rute Dias Gregório

Bibl. Albuquerque, L. de (s.d., [imp. 1985]), Fagundes, João Álvares. Dicionário de História de Portugal. Porto, Livraria Figueirinhas, II: 520. Araújo, J. R. (1989). Quem era João Álvares Fagundes? Actas do Congresso Internacional «Bartolomeu Dias e a sua Época». Porto, Universidade do Porto/Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, II: 363-368. Arquivo dos Açores (1982), Cópia em pública forma da carta de mercê de D. Manuel a João Álvares Fagundes de 13.III.1521 – 22.V.1521. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IV: 466-467. Ibid. (1982), Extractos da correspondência de João Teixeira Soares de Sousa. Carta de 25 de Abril de 1878. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IV: 17. Canto, E. (1882), Os Corte-Reais. Memoria Historica. Arquivo dos Açores. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IV: 385-590. Cortesão, A. (1960), Portvgaliæ Monvmenta Cartographica. Lisboa, Presidência do Governo. Peres, D. (1960), História dos Descobrimentos Portugueses. 2.ª ed.. Coimbra, Edição do autor. Sousa, F. (1877), Tratado das Ilhas. Ponta Delgada, s.n. (Typ. Minerva Insulana).