Fagundes

Da ilha Terceira – Desde o trabalho de Magalhães e Norton (1989) vingou a doutrina de que João Fagundes, de Viana, terá sido o primeiro a usar documentadamente este apelido na vila de Viana da Foz do Lima, onde viveria em 1406, ou residente no casal do Quintal, em Geraz do Lima, que recebeu de emprazamento do Mosteiro de Palme. Mas sobre este João Fagundes de Viana alguns autores sustentam que, neste caso particular, o «Viana» seria apelido, e não referência à naturalidade, mais não sabemos do que a menção de ter sido casado com uma Margarida Pires. Embora, em boa verdade, não existam dados sobre a descendência deste casal é admissível que possa existir uma relação de parentesco próximo com Joaneanes, abade de Serreléis, pai de Maria Anes, que veio a casar com um tabelião chamado João Pais que, em 1486, duas ou três gerações após as referências conhecidas a João Fagundes de Viana, fez doação de certos bens ao Hospital Velho de Viana. Hospital esse que o seu eventual pai, João Pais «o velho», teria fundado.

Damos, a título de proposta, começo a esta família em Joaneanes (Fagundes ?), admissível filho do João Fagundes de Viana a quem o mosteiro de Palme cedeu o prazo de Geraz do Lima em 1406. Este terá tido uma filha muito provavelmente bastarda, chamada Maria Anes, que casou com o tabelião João Pais, filho de João Pais «o velho» e de sua mulher Maria Mateus, neto materno de Jorge Esteves e de sua mulher Clara Mateus.

João Pais, o moço, e sua mulher Maria Anes, testaram em 28 de Dezembro de 1468, doando bens ao Hospital Velho de Viana. Foi filho deste casal Álvaro Anes, primeiro administrador desse mesmo Hospital Velho de Viana, que tendo casado com Catarina Dias, filha de Diogo de Viana (que também doou bens ao dito Hospital), deixou entre outros filhos, João Álvares *Fagundes, navegador, isento em 1517 do pagamento de uma finta destinada a financiar uma ponte sobre o rio Guadiana, por ser fidalgo de cota de armas desde 1498, o que não era o caso de seus pais e irmãos.

Talvez por não termos consultado a documentação deixa-nos um pouco perplexo este caso de um natural da vila da Viana da Foz do Lima, ter sido isentado de uma finta concelhia cujo produto se destinava a uma ponte sobre o Guadiana.

Mas como os autores que se debruçaram sobre esta questão referem que os seus pais e irmãos foram fintados em 25 réis, destinados ao mesmo fim, alguma explicação existirá, quero crer. Tanto mais que temos constatado uma inusitada mobilidade em muitos casais coevos.

Este piloto quinhentista terá sido um dos primeiros a reconhecer as costas da Terra Nova. A comprovar esta asserção está a carta de D. Manuel I (13.3.1521) pela qual o rei lhe faz doação de ilhas por ele descobertas, ao longo de uma, ou mais, viagens a essa região.

Em boa verdade, a carta em apreço é omissa no tocante a datas, ou mesmo à localização relativa, da ilha Fagundes, ilhas de S. João, S. Pedro, Santa Ana, Santo António e dos arquipélagos de S. Pantaleão (no qual se incluía a ilha de Pitiguoem), das Onze Mil Virgens, e ainda, das duas outras ilhas.

De acordo com o parecer de vários especialistas, que terão trabalhado sobre os dados cartográficos disponíveis, a toponímia destes grupos insulares prova que João Álvares Fagundes terá explorado a área do golfo de S. Lourenço, num período compreendido entre o inicio do século XVI e a data da supracitada carta.

Aliás, Damião Peres inclina-se para que tenha sido em data próxima da doação feita por D. Manuel I, o que implicaria uma cronologia incomodamente longa, para aceitar que o genearca terceirense Rodrigo Afonso Fagundes, membro da casa do infante D. Henrique, fosse efectivamente seu alegado neto.

Tanto mais que (os povoadores terceirenses) João Fernandes Lavrador e os irmãos Corte-Real, navegaram na mesma área entre os finais do século XV e o início do seguinte.

João Álvares Fagundes terá morrido entre 1522 e 1523, muito provavelmente no mar, e a sua mulher Leonor Dias Boto, foi enterrada na Misericórdia de Viana, a 24 de Agosto de 1538, na 1.ª cova da primeira andaina do corpo da igreja. Deste casal ficaram, pelo menos, um filho e duas filhas.

A mais velha destas últimas, Catarina Fagundes, foi mulher de Gonçalo Afonso de Cerqueira, e deles descendem entre outros, os condes de Paço Vitorino, a casa da Cortegaça, os condes de Calheiros, Galveias, Guarda, e Casal Ribeiro, os viscondes do Paço da Nespereira e de Moselos, Granja e os Vilas Boas da Casa da Areosa.

A mais nova, Margarida Fagundes, foi mulher de Francisco Pires Caminha, casal de que existe geração actual, entre a qual se contam os viscondes de Pindela.

O filho, Rodrigo Afonso Fagundes, foi pajem do infante D. Henrique, casou no continente, e passou à ilha Terceira, após a morte do infante, sendo já viúvo, na companhia de duas filhas, Inês Rodrigues Fagundes e Isabel Rodrigues Fagundes.

Inês Rodrigues Fagundes foi segunda mulher de Afonso Álvares de Antona, natural de Almeida, provável descendente da família castelhana dos Antona, membro da casa da infanta D. Beatriz, e por esta nomeado lugar-tenente de Álvaro Martins *Homem, figura piedosa, cordata e caritativa, que morreu em cheiro de santidade, como refere frei Diogo das Chagas. Foi ele que doou 10 alqueires de terra para fundação do primeiro convento franciscano da ilha, razão pela qual, sendo de avançada idade, era conhecido pela alcunha de «velho de S. Francisco». Terá morrido, na Praia, no ano de 1481, mas foi sepultado no convento que ajudara a fundar. Do segundo casamento do «velho de S. Francisco» com Inês Rodrigues Fagundes descendia boa parte da nobreza da ilha Terceira e de outras ilhas e, ainda hoje, subsistem numerosos descendentes distribuídos por todos os estamentos sociais.

Situação semelhante ocorreu com a outra filha, de seu nome Isabel Rodrigues Fagundes que, tendo casado com Gil de Borba (o qual alguns autores genealógicos dizem ter-se chamado Gil Anes Curvo, natural da vila de Borba, no Alentejo) deixou também larga descendência que disseminou o apelido pela maioria das ilhas dos Açores. Manuel Lamas

Bibl. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. S.l. [Angra do Heroísmo], Secretaria Regional de Educação e Cultura/Universidade dos Açores: 329-334. Magalhães, P.; Norton, M. A. (1989), Fagundes e a descoberta do Canadá. Actas do Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua época. Porto, Universidade do Porto, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses: 8-30.