evolucionismo
O conhecimento da teoria evolucionista de Darwin terá chegado aos Açores com os naturalistas que visitavam o arquipélago à procura de formas de transição entre os novo e velho continentes e ainda com açorianos de regresso ao arquipélago nomeadamente Carlos Machado (1828-1901), Ernesto do *Canto (1831-1900), Antero de Quental (1842-1891), Bruno Tavares *Carreiro (1857-1911) e Eugénio Vaz Pacheco do *Canto e Castro (1863-1911). Todos passaram por Coimbra e conheceram Júlio Augusto Henriques que, em 1865, foi pioneiro na defesa do evolucionismo na Universidade de Coimbra.
De Ponta Delgada, em 26.12.1873, Antero procurando perceber o divórcio entre a ciência e a metafísica, escreve a Oliveira Martins: ... a falar verdade, acho-me só: a metafísica é hoje repelida universalmente da Filosofia da Natureza. Não importa. Irei de encontro à onda dos positivistas, materialistas, empíricos e tutti quanti, convencido de que não se passará muito tempo sem que, constituída a metafísica positiva, a Filosofia da Natureza entre no caminho verdadeiro. Mas, só na década de oitenta, Antero, conciliando metafísica com ciência, escreve, em 24.12.1885, a Jaime Batalha Reis, pioneiro, superficial, na interpretação do evolucionismo em Lisboa, no Instituto Geral de Agricultura: Extrair do pessimismo o optimismo, por um processo racional, tem sido afinal o trabalho da minha vida. Creio que cheguei ao termo e dou a minha Filosofia por completa e acabada. Agora trata-se de a expor lucidamente, e é a isso que me quero consagrar ... (cf. Pereira, 2001).
O original de A philosophia da natureza dos naturalistas foi publicado no ano seguinte, pelo diário A Província, da cidade do Porto. Trata-se de um conjunto de artigos a propósito da obra de Artur Viana de Lima, Exposé sommaire des théories transformistes de Lamarck, Darwin et Hækel, publicada em Paris, em 1886. Nesta obra Lima põe em relevo o confronto das provas de várias disciplinas científicas envolvidas (paleontologia, embriologia, anatomia comparada, osteologia, etc.) com os argumentos criacionistas-finalistas que procuravam perpetuar o fixismo de Georges Cuvier apesar da oposição transformista de Lamarck, Geoffroy de Saint-Hilaire e Goethe. Naqueles artigos Antero postula que sem metafísica não há filosofia e sem ciência não há filosofia. Por isso, não faria sentido erguer uma filosofia à margem das aquisições científicas do tempo, mormente dos princípios transformistas estabelecidos por Lamarck, Darwin e Hækel (cf. Pereira, 2001).
Eugénio Canto e Castro publicou incompleto, em Coimbra, um estudo onde escreve: Só da combinação da estrutura dum animal com a sua embriologia e com a sua história nos tempos geológicos se podem inferir elementos seguros para a determinação do seu lugar na natureza (Castro, 1886). Seguindo de perto os trabalhos de Darwin e de Hæckel, Canto e Castro sublinha a natureza zoológica do homem, lembrando observações e experiências significativas nesta matéria das quais se induziu que as faculdades intelectuais, a religiosidade e a moralidade não eram exclusivas do ser humano nem, por outro lado, eram observáveis em todos os homens, não sendo, por isso, sequer, atributos universais da espécie humana. Assim, Canto e Castro nega a existência de um reino humano apartado do mundo animal. Afirma o parentesco verificado entre o homem e o animal, em todos os planos, incluindo o intelectual, o moral e o religioso tal como outros naturalistas coevos europeus e americanos no seguimento de duas obras fundamentais de Darwin: The descent of man, and selection in relation to sex (1871) e The expression of the emotions in man and animals (1872).
Seguindo a interpretação feita por Hæckel da teoria de Darwin, Canto e Castro afirma: De nada, por certo, valerão amanhã as fúteis preocupações dos moralistas ou as invectivas dos filósofos para infirmar este corolário, tão rigorosamente deduzido das omnímodas afirmativas da Embriologia, da Paleontologia e da Anatomia (Castro, 1886) (cf. Pereira, 2001).
Mais tarde, em 1894, em Ponta Delgada, na explicação prévia de A philosophia da natureza dos naturalistas, (Ponta Delgada, Typographia Editora do Campeão Popular, 1894) afirma a legitimidade do transformismo e sublinha que o seu valor cognitivo era reconhecido mesmo pela especulação metafísica, como a de Antero (cf. Pereira, 2001). Depois, em Dos impossíveis em Philosophia natural (S. Miguel, 1899) defende que o conhecimento nas ciências da natureza é evolutivo ao invés do que acontece nas ciências formais.
Todavia, o defensor e divulgador da teoria evolucionista no arquipélago foi Francisco de Arruda Furtado (1854-1887), autodidacta, que só haveria de sair da ilha de S. Miguel em 1885, quando se transferiu para o Museu de Lisboa. Furtado formou o seu pensamento evolucionista, nomeadamente, na teoria de Lyell, nas evidências de extinções e de mudanças evolutivas fornecidas pela paleontologia, nas afinidades genealógicas existentes entre os organismos sugeridas pela anatomia comparada, e na sobrevivência do mais apto, usada especialmente para responder pela extinção.
Em defesa da explicação darwinista do evolucionismo, Furtado (1881) argumentava que os seguidores desta teoria se apoiam na descendência serial com modificação pouco importando que as espécies diferentes se prejudiquem ou não, na fusão das suas funções reprodutoras, se independentemente disto compreendemos a possibilidade do transformismo e ele se nos impõe, pelas explicações que traz, como orientação única das nossas pesquisas e como disciplina das nossas conclusões.
Furtado conhecia, dos seus trabalhos, as modificações provocadas pela insularidade sobre os moluscos terrestres e tinha notícia das modificações sobre as plantas e a entomofauna dos Açores. Mais, entendia que os efeitos sociais e da insularidade deviam influenciar também o homem açoriano, completamente por estudar do ponto de vista antropológico. Interpretação provavelmente influenciada pela leitura de Darwin para quem "a observação de muitos pequenos pontos de diferença entre espécies, que, tanto quanto a nossa ignorância nos permite julgar, parecem ser bastante insignificantes, não devemos esquecer que o clima, a alimentação, etc., provavelmente produzem algum efeito, ligeiro e directo" (Origin, 1.ª edição: 85).
Porém, usou perspectiva diversa, a de Lamark, para interpretar, provavelmente também sob influência da obra de Darwin, a variação da circunferência craniana do que chamou indivíduos ilustrados, camponeses e mulheres (da ilha de São Miguel) (cf. Furtado, 1883). Segundo Mayr (1995), Darwin, pelo menos nas primeiras edições de Origin, admite o uso, de um caracter, e a falta dele como um mecanismo evolutivo importante.
Na colecção do jornal República Federal de 1881 e 1882, encontra-se a réplica de Furtado à crítica que Sanches de Gusman fez, no jornal Civilização, a alguns dos seus artigos, expondo e defendendo o evolucionismo, e ao seu opúsculo O homem e o macaco, escrito a pretexto de certas passagens alusivas àquela teoria proferidas pelo pe. Rogério, num sermão quaresmal, em Ponta Delgada (cf. Silva, 1896; Costa, 1954).
Esta polémica chegou também à Horta onde, pelo menos, o jornal Regeneração publicou dois artigos não assinados, com o título O homem procedente do macaco, trabalhos que Arruda Furtado diz feitos a propósito dos seus estudos (cf. Furtado, 1881).
Furtado contestava a exasperação dos religiosos do seu tempo perante as revelações de parentesco entre o homem e o macaco. No artigo Embryologia (Furtado, 1882) publicado em homenagem a Darwin, este é apresentado por Furtado como criador de uma filosofia redentora da humanidade, fundada na suposta verdadeira esperança, a esperança científica (cf. Pereira, 2001); religião, metafísica e teologia são combatidas; e evolucionismo e cristianismo são contrapostos como nunca havia sido feito por Darwin.
O pensamento de Furtado está exposto, por ele próprio, na carta Ciência e Natureza, dirigida a seu irmão António Furtado e inserta na revista do movimento contemporâneo Era Nova (1880: 83 a 88).
Alguns anos mais tarde, em Angra do Heroísmo, também aconteceu controvérsia entre José Augusto Nogueira Sampaio (1827-1900), médico, naturalista e professor do Liceu, e António Maria Ferreira, cónego da Sé, a propósito do discurso sobre a origem da vida e a teoria evolucionista de Darwin, proferido pelo primeiro, no liceu, em 1890, que depois foi impresso em livro com o título A vida (1893). Sampaio explicava a vida como a resultante remota das forças inerentes à matéria não dependendo de poderes como a alma ou o espírito. Mais, considerava sem fundamento afastar o homem do reino animal.
A alocução de Sampaio foi criticada por Ferreira a que respondeu o primeiro, em livro, publicado, em 1894, com o título Exame Crítico da Refutação que o Exmo. Sr. Cónego António Maria Ferreira, Professor do Seminário Episcopal de Angra do Heroísmo, fez ao Discurso intitulado A VIDA pronunciado no Liceu Nacional de Angra do Heroísmo pelo seu Reitor e Professor.
Contradisse Ferreira numa extensa série de artigos que foram mais tarde coleccionados em volume com o nome Polémica Científica sobre a origem da vida, publicado em 1895.
Assim, aconteceram, fundamentalmente, duas polémicas de características diferentes. Naquela, Furtado defendia o materialismo, nesta, Sampaio era pelo evolucionismo mecanista, contra o espiritualismo clássico, como referem Ferreira-Deusdado (1902) e Ferreira (1940).
Depois, com a entrada do século XX, a teoria da evolução tornou-se geralmente aceite. Luís M. Arruda
Bibl. Castro, E. V. P. C. (1886), Do lugar do homem na natureza. O Instituto. Coimbra, 33. Costa, C. (1954), Francisco de Arruda Furtado. Correio dos Açores. Ponta Delgada, 10047. Ferreira, E. (1940), Estudos filosóficos nos Açores. Esbôço histórico. Lisboa. Ferreira-Deusdado, M. A. (1902), Elogio histórico do Dr. José Augusto Nugueira S. Paio. Angra do Heroísmo, Imprensa Municipal. Furtado, F. A. (1881), Ecos açorianos da questão da espécie. A Vanguarda, 81 e 82. Id. (1882), Embryologia, uma ideia popular do que ella vale na theoria de Darwin e do que é a philosophia de nossos avós perante ella. Positivismo, 4: 121-163. Id. (1883), A inteligência e o tamanho da cabeça. A inteligência da mulher e a do homem. A época, 81. Mayr, E. (1995), Introduction In Charles Darwin, On the origin of species. Cambridge, Harvard University Press. Pereira, A. L. (2001), Darwin em Portugal, Coimbra, Almedina. Silva, A. (1896), Arruda Furtado. Actualidade, 25, 26 e 28.
