Estaço

Da ilha Terceira – Esta família, no continente, parece ter tido o seu eixo de dispersão conhecido na Beira, onde encontramos Simão Estaço Frazão, casado com Maria Vilhegas, a residirem no Sabugal, onde deixaram geração que se aliou, entre outros, aos Matelas (ou Metelos) e aos Costas Saraivas. Todavia não é fácil vislumbrar a ligação destes, àqueles, porventura mais antigos, que se radicaram na ilha Terceira no início do século XVI. O tronco deste apelido na Terceira foi o casal Álvaro Pires Estaço e sua mulher Aldonça Martins. Alguns genealogistas atribuem-lhes origens hebraicas o que, a despeito de não citarem as fontes, não deixa de ser curioso se tivermos em conta que, na zona do Sabugal, e no século XVI, existia uma importante comunidade hebraica. Mas importa não esquecer que o secundogénito destes genearcas, fr. João *Estaço, teve uma carreira eclesiástica de certo relevo o que, em princípio, seria incompatível com dúvidas sérias no tocante à sua “limpeza de sangue”. No entanto é sabido que esta regra teve excepções, sendo conhecidos casos de prelados e dignatários da igreja portuguesa de reconhecidas origens hebraicas que viveram no período em apreço.

Álvaro Pires Estaço é referido como vereador da câmara de Angra no ano de 1542 e a sua mulher, Aldonça Martins, morreu na ilha Terceira em 15.6.1571. O casal teve dois filhos e três filhas, o primogénito chamou-se Gaspar Estaço e os genealogistas referem-no casado com Antónia Vaz Chama, filha de António Vaz Chama, o velho. Mas parece pertinente registar que esta Antónia Vaz Chama recebeu, em 1583, de Filipe I de Portugal, a mercê de 45 mil réis de tença e três moios de trigo, como pagamento dos serviços prestados por seu marido à causa filipina. Em complemento deste facto Azevedo Soares afirma que o Gaspar Estaço, cujos serviços valeram a Antónia Vaz Chama a supracitada mercê, morreu na prisão em França (presumivelmente quando se encontrava ao serviço de Filipe I). Mas, consultando os óbitos da Sé de Angra, verificamos que, em 15.6.1572, morreu um Gaspar Estaço que nomeou testamenteiro seu filho Gaspar Estaço. Se este Gaspar Estaço fosse o marido de Antónia Vaz Chama não teria morrido em França, nem parece plausível que prestasse serviços à causa de Filipe I, que só emergiu quase uma década mais tarde.

Parece admissível a hipótese de que os genealogistas se possam ter equivocado e que o Gaspar Estaço casado com Antónia Vaz Chama fosse neto e não filho de Álvaro Pires Estaço e de Aldonça Martins. A admitir este equívoco, o primeiro Gaspar seria o filho primogénito dos genearcas, de quem, além da data da morte, sei apenas que aparece referido como juiz ordinário em Angra em 1559.

Seja como for, o casal Gaspar Estaço e Antónia Vaz Chama teve pelo menos um filho, Belchior Estaço, marido de Isabel da Silveira, que foi manposteiro mor dos cativos em Angra.

O secundogénito, fr. João Estaço, nascido em Angra no início do século XVI, foi ermita de Santo Agostinho, Doutor e docente na Universidade de Salamanca. Em 1539 é referido como tendo passado à Índia e, em 1545, foi nomeado vigário provincial no México. No ano de 1552 foi nomeado bispo de Puebla de los Angeles, diocese sufragânea da província do México, cargo que não chegou a desempenhar por ter falecido em 4.4.1553. Frei João Estaço deixou dois trabalhos manuscritos: Constituições saudáveis para o governo religioso e Memorial dos singulares favores e benefícios que recebeu da mão divina.

A filha mais velha destes genearcas, Inês Álvares Estaço, casou com Francisco Gonçalves de Távora, natural da ilha da Madeira, e deles descendem os Távoras da Terceira e Graciosa. A filha segunda, Filipa Estaço, casou com Fernando Brás do Couto, de quem teve Maria do Couto, mulher do opulento micaelense, Aires Jácome Correia, filho de Barão Jácome e de sua mulher Maria Simoa (Valadão), cuja casa recebia anualmente, além de outras rendas, 400 moios de trigo. Deixaram geração na ilha de S. Miguel. Manuel Lamas