espermacete
Órgão de natureza lipídica que se situa na cabeça de alguns cetáceos como os cachalotes que mergulham a grande profundidade. Tem, provavelmente, um papel regulador na flutuabilidade ou na ampliação acústica (cf. Viallelle, 1997).
Os baleeiros açorianos conhecem o cachalote por este termo, pronunciado espalmacete (Terra, 1958; Coelho, 1962; Figueiredo, 1996). Cf: «Quero levar este Verão / Atrás do espalmacete / Com meu reminho na mão (canção regional)» (Barcelos, 2001). Lima (1957) regista esparmacete que Coelho (1962) aponta como menos usado. Vieira (2002) regista baleia esparmacete para a ilha das Flores, como designação local antiga do cachalote, certamente para distinguir das baleias de barbas. No jornal O Açoriano de 23.9.1894, pode ler-se: Domingo último as canôas balieiras de Porto-Pim arriaram em perseguição dum cardume de spermacettis, que se achava a pouca distancia de terra [...].
Depois de retirado o toucinho da cabeça é possível ver as paredes do órgão espermacete, responsável pela maior parte do volume daquela. Situado sobre a parte rostral do crânio, o órgão do espermacete apoia-se, inferiormente, na maxila e é limitado, posteriormente, pelas cristas maxilares. Dentro das suas paredes fibrosas e robustas, podem ser reconhecidas duas partes: a superior, designada nos Açores por queize (do inglês case), atravessada de forma irregular por finas membranas e cheia de espermacete líquido, e a inferior, denominada janco (do inglês junk), situada por baixo do queize, dividida por tabiques transversais que formam numa série regular de compartimentos carregados de espermacete (cf. Clarke, 1954).
Depois de esfolada, a cabeça era cortada e o queize aberto e esvaziado do espermacete com a ajuda de um balde comprido, de madeira, com o fundo arredondado, chamado balde do queize. Este era metido à força, com uma vara, para dentro do queize; depois de cheio era içado com uma corda e o espermacete vazado para uma selha; a operação era repetida tantas vezes quantas as necessárias até o queize ficar vazio. Depois, as paredes do queize eram removidas por forma a que o janco fosse cortado em pedaços de tamanho conveniente e levado, junto com o espermacete, para derreter. O espermacete em contacto com o ar fica rapidamente transformado numa massa cerosa, esbranquiçada e mole (cf. Clarke, 1954).
Segundo Terra (1958), o óleo extraído desta parte era o melhor e de preferência empregue no fabrico de velas de estearina, em Inglaterra, para onde era feita toda a exportação do azeite de baleia açoriano. Luís M. Arruda
Bibl. Bibl. Barcelos, J. (2001), Falas da Ilha das Flores Vocabulário Regional. S.l., Edição de Autor. larke, R. (1954), Baleação em botes de boca aberta nos mares dos Açores. História e métodos actuais de uma indústria-relíquia. [Trad. de Fernando J. F. da Silva (2001)]. s.l., ed. do autor e do trad.. Coelho, M. A. (1962), Vocabulário regional das Ilhas do Faial e Pico. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 3, 1: 112. Figueiredo, J. M. (1996), Introdução ao estudo da indústria baleeira insular. Lajes do Pico, Museu dos Baleeiros. Lima, M. (1957), Vocabulário regional das Ilhas do Faial e Pico. Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 1, 2: 107. Terra, F. (1958), A caça à baleia nos Açores. Ibid., 1, 3: 193. Viallelle, S. (1997), Golfinhos e baleias dos Açores. Lajes do Pico, Espaço Talassa. Vieira, J. A. G. (2002), O homem e o mar. Embarcações dos Açores. Lisboa, Intermezzo-Audiovisuais, Lda.
