espeleologia
Nome que se dá quer ao ramo da ciência que se dedica ao estudo de cavidades subterrâneas (c. s.) quer às actividades de lazer e às desportivas realizadas neste ambiente. Nos Açores, esta actividade tem uma história muito rica que se justifica pela grande diversidade de c. s. de diversos tipos: tubos de lava (grutas vulcânicas) terrestres e submarinos, algares vulcânicos, grutas de erosão marinha e terrestre. Como, nos Açores, a maior parte das c.s. são de origem vulcânica, o mais adequado é referir apenas a vulcanoespeleologia, um ramo da espeleologia que estuda os processos e mecanismos da génese de todo o tipo de cavidades vulcânicas (c.v.) (tubos de lava e algares) assim como das estruturas existentes no seu interior.
As primeiras referências a c.v. nos Açores datam do século XVI e são da autoria do cronista açoriano Gaspar Frutuoso. No entanto, apesar de mais algumas referências pontuais por autores no fim do século XIX a algumas c.v. (como a Gruta do Carvão, em Ponta Delgada, e a Furna do Enxofre, na Graciosa), apenas em 1963, com a fundação da Sociedade de Exploração Espeleológica Os Montanheiros, sediados em Angra do Heroísmo (Terceira), foi dado início à actividade vulcanoespelológica nos Açores. Além de apoiarem diversas expedições de especialistas ao arquipélago, este grupo de espeleólogos amadores tem desempenhado um papel de grande relevância no estudo e divulgação do ambiente subterrâneo dos Açores com projecção nacional e internacional. Em particular, não pode deixar de ser referida a figura de Manuel Aguiar Silva, que liderou esta associação durante largos anos até ao seu prematuro falecimento em 1995, e que deu verdadeiramente início aos estudos vulcanoespeleológicos nos Açores e projectou os Montanheiros internacionalmente. Entre os elementos dos Montanheiros ainda em actividade deveremos salientar Fernando Pereira, conhecido por Pardal e que, junto com M. A. Silva e Paulo A. Borges, dinamizaram, entre 1989 e 1995, uma actividade mais profissional e menos amadora que culminou com a publicação de diversos trabalhos (Borges et al., 1991, 1992, 1993, 1994; Borges, 1996).
A vinda aos Açores ainda na década de 80 do mais conhecido vulcanoespeleólogo actualmente em actividade, o americano William Halliday, que trabalhou com M. A. Silva em várias cavidades na ilha Terceira, também ajudou à divulgação em publicações internacionais da actividade dos Montanheiros e do rico património vulcanoespeleológico dos Açores (cf. Halliday, 1980, 1981), actividade esta que desde inícios da década de 70 era bastante divulgada nos jornais da ilha Terceira e mesmo em jornais nacionais pela mão do tenente-coronel José Agostinho.
As primeira c.v. dos Açores a ser descrita de forma científica foi a Furna de Henrique Maciel da ilha do Pico, trabalho realizado pelo eminente vulcanólogo açoriano Victor Hugo Forjaz, investigador e docente da Universidade dos Açores (Forjaz, 1963). Mas antes, em 1966, uma expedição da Mocidade Portuguesa fez a primeira topografia conhecida da Gruta dos Balcões na ilha Terceira. Mais tarde surgem outros trabalhos que descrevem várias cavidades, particularmente da ilha do Pico (Arruda, 1972), Terceira (Mottet, 1974; Montserrat e Romero, 1983) e de outras ilhas (Ogawa, 1989).
Já na década de 90, surgiu na ilha do Pico um espeleólogo amador, Albino Garcia (Círculo de Amigos da Ilha do Pico, CAIP) que iniciou a tarefa de localizar e listar todos os tubos de lava e algares desta ilha, o que desempenhou com algum sucesso através da criação de vários grupos de espeleólogos amadores e da colaboração com os Montanheiros, na caracterização de muitas das cavidades encontradas, durante várias expedições vulcanoespeleológicas que decorreram nesta ilha.
Aliás, a década de 90 foi particularmente rica em actividades vulcanoespeleológicas nos Açores, com várias expedições dos Montanheiros a diversas ilhas (Flores, Faial, Pico, S. Jorge, Graciosa, S. Miguel e Santa Maria) que permitiram a elaboração de vários filmes, a publicação de muita informação sobre as c.v. dos Açores na revista editada pelos Montanheiros, Pingo de Lava, e culminou com a realização, em 1992, do III Congresso Nacional de Espeleologia e I Encontro Internacional de Vulcanoespeleologia das Ilhas Atlânticas, na ilha Terceira, e organizado pelos próprios Montanheiros com o apoio da Federação Portuguesa de Espeleologia (Borges e Silva, 1994). Foi também nesta altura que duas expedições francesas coordenadas pelo espeleólogo Christian Thomas, com o apoio dos Montanheiros, fizeram a topografia de várias cavidades nas ilhas Terceira e Pico, com particular relevo para a primeira topografia completa do maior tubo de lava dos Açores (Gruta das Torres, Pico) e de tubos de lava submarinos na ilha Terceira.
Ainda na década de 90, surgiu em S. Miguel, no seio dos Amigos dos Açores, o Grupo de Trabalho de Espeleologia coordenado pelo geólogo da Universidade dos Açores João Carlos Nunes, que iniciou uma série de estudos vulcanoespeleológicos nesta ilha (cf. Nunes e Braga, 1992) e editou, em 1994, em conjunto com João Paulo Constância e Teófilo Braga, um livro sobre os tubos de lava e algares de S. Miguel (Constância et al., 1994).
Em 1998, foi criado pelo Governo Regional dos Açores um grupo de trabalho multidisciplinar, designado por GESPEA (J. C. Nunes e J. P. Constância, Amigos dos Açores; Paulo Barcelos, P. A. V. Borges e F. Pereira, Os Montanheiros; Paulino Costa, Geólogo da Direcção Regional dos Ambiente e membro do Círculo de Amigos da Ilha do Pico Núcleo Espeleológico da Ilha do Pico, CAIP-NESP), encarregado de promover um estudo das cavidades vulcânicas dos Açores, mas que só em 2001-2002 se tornou mais operacional. Como resultado dos seus esforços, foi criada uma base de dados sobre as cavidades vulcânicas do arquipélago e os Açores candidataram-se e ganharam a organização do XI Congresso Internacional de Vulcanosespelologia, a realizar em 2004 na ilha do Pico.
No que diz respeito ao estudo da fauna cavernícola dos Açores, apenas em 1988 tiveram início as primeiras investigações. Esta e uma segunda expedição científica, no ano seguinte, foram financiadas pela National Geographic e lideradas por Pedro Oromí (Universidade de La Laguna) e Philippe Ashmole (Universidade de Edimburgo) com o apoio dos Montanheiros (Oromí et al., 1990) e, na segunda expedição, com a colaboração do biólogo da Universidade dos Açores e também membro dos Montanheiros, Paulo A. V. Borges. Dessas expedições resultou a descrição, em várias revistas internacionais, de 13 espécies de artrópodes novos para a ciência, endémicos das c.v. dos Açores. Esse esforço foi continuado em várias das expedições dos Montanheiros na década de 90 sob a coordenação de P. A. Borges e culminou com a publicação de uma lista comentada da fauna das cavidades vulcânicas dos Açores na Enciclopédia Bioespeleológica editada em França (Borges e Oromí, 1994).
Quando se fala da história da espeleologia nos Açores não pode ser esquecido o *Algar do Carvão, que tem servido de ex-libris dos Montanheiros. É gerido actualmente por esta associação como show-cave e tem uma importância enorme como atracção turística da ilha Terceira. Duas outras cavidades funcionam nos Açores como show-cave, a Gruta do Natal (Terceira) e a Furna do Enxofre (Graciosa), estando em estudo a abertura de pelo menos mais duas, uma na ilha do Pico (Gruta das Torres) e outra em S. Miguel (Gruta do Carvão).
São conhecidos cerca de 163 tubos de lava e 49 algares vulcânicos nos Açores (Pereira e Borges, em prep.). A actividade recente do grupo de estudos GESPEA promete novas descobertas vulcanoespeleológicas nos Açores. Paulo Borges
Bibl. Arruda, L. M. (1972), Contribuição para o estudo espeleológico da ilha do Pico (Açores). Sociedade Portuguesa de Espeleologia, Publicação Especial, 5: 1-13. Borges, P. A. V. (1996), Conservation status of the Azorean lava tubes and pits In Oromí, P. (ed.), Proceedings of the 7th International Symposium on Vulcanospeleology Canary Islands, November, 1994: 15-23. Borges, P. A. V. e Oromí, P. (1994), The Azores In Juberthie, C. e Decu, V. (eds.), Encyclopaedia Biospeleologica. Moulis, Sociétè de Biospéleologie, I: 605-610. Borges, P. A. V., Pereira, F. e Silva, A. (1993), Caves and pits from the Azores. II An annotated Checklist. Açoreana, 7: 555-574. Id. (1994), Grutas e Algares dos Açores. I Seis novas topografias de tubos de lava da ilha Terceira. Actas do III Congresso Nacional de Espeleologia e I Encontro Internacional de Vulcanospeleologia das Ilhas Atlânticas: 2-26. Borges, P. A. V. e Silva, A. (eds.) (1994), Actas do III Congresso Nacional de Espeleologia e I Encontro Internacional de Vulcanospeleologia das Ilhas Atlânticas. Angra do Heroísmo. Borges, P. A. V., Silva, A. e Pereira, F. (1991), Contribuição para o estudo das furnas e algares da ilha de Santa Maria Açores. Relatórios e Comunicações do Departamento de Biologia U. Açores, 19: 15-19. Id., Caves and Pits from the Azores With Some Comments on Their Geological Origin, Distribution, and Fauna. Proceedings of the 6th International Symposium on Vulcanospeleology (Hilo, Hawaii, August 1991): 121-151. Constância, J. P., Nunes, J. C. e Braga, T. (1994), Património Espeleológico da Ilha de S. Miguel. Ponta Delgada, Amigos dos Açores. Forjaz, V. H. (1963), Notas sobre a "Furna de Henrique Maciel" (Pico, Açores). Boletim da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais, (2), 9: 159-165. Halliday, W. A. (1980), Caving in the Azores. The Cascade Caver, 19 (11-12): 117-121.
