Escoto/Jacome
Os apelidos Scotti ou Scotto (Escoto) e Giacomo (Jacome), este último evidente patronímico, pertenciam a famílias da República de Génova. Alguns dos seus membros, depois de se transferirem para a metrópole portuguesa, surgem nos primórdios do povoamento e da colonização dos Açores.
A 21 de Junho de 1456, o genovês Domenico Scotto Salvago aparece na documentação lusitana, como sócio dos influentes genoveses de Lisboa, Marco e Daniel Lomellini e de outro mercador florentino. Marco Lomellini foi definido por Virgínia Rau como alguém que se tornou uma das mais importantes personalidades do comércio e dos círculos financeiros portugueses do século XV. A sociedade de Domenico Scotto Salvago (Domenego Escoto) com tão influente parceiro, dedicava-se a um negócio excepcional: o monopólio da exportação da cortiça de Portugal durante um período de dez anos. Cinco das vinte «acções» da sociedade pertenciam a Domenego Escoto, cujo «fiador» e garante oficial era o sogro Ottobono Salvago, em Génova. Domenego Escoto pertencia a uma nobre família de Génova que se fragmentara em diferentes «albergues» (casas nobres afiliadas adoptando um só apelido, geralmente o mais poderoso e conhecido): depois de confluir no recém-criado albergo Colonne (1398?), os Scotti abandonaram-no juntamente com os Pessagno em meados de Quatrocentos, presumivelmente quando o ramo de Domenego se agregou aos Salvago. Nessa altura, quando um fidalgo genovês se expatriava, dependia de um critério meramente individual escolher entre apresentar-se com o apelido originário ou com aquele do albergo adoptado pela família. No caso de Domenico, que assinou com os dois apelidos, a identificação é fácil, mas jamais saberemos se e quantos dos outros Salvago presentes na documentação ibérica, provinham por exemplo da família Escoto (Scotti). Os Salvago constituíam um dos grandes albergues genoveses e, ao longo de Quinhentos, abastados membros da família residiram em Sevilha, Cádis e nas Canárias. Em Portugal e só para citar alguns, é o caso de Giovanni Salvago, que em 1500 vivia em Évora, comerciando trigo do Alentejo, ou de António Salvago, que gozava de grande confiança junto da coroa, transaccionando em nome desta 18.000 arrobas de açúcar da Madeira em 1502, antes de ocupar-se do abastecimento das armadas da Índia em 1508 e 1509 e tornar-se finalmente tesoureiro da rainha. O registo do brasão de armas da família Salvago na heráldica lusitana deu-se em 1589, quando a concessão foi outorgada a João Martins Salvago, neto de Lucas Salvago, mercador activo no Funchal desde a década de vinte do século XVI. Se na Madeira se afirmou o apelido Salvago, nos Açores despontou o Scotti ou Scotto, aportuguesado em Escoto. Precisamente na Terceira, ilha onde vivia Lucas de Cacena, genovês que estava então entre os maiores mercadores do arquipélago, um dos primeiros grandes proprietários foi João Scotto. Não é de excluir a hipótese de que João fosse filho ou parente do inicialmente referido Domenico Scotto, inserido aos mais altos níveis da hierarquia mercantil de Lisboa. Na Terceira, João Scotto não se estabeleceu em Angra, mas na zona setentrional da ilha, ou seja na capitania das Quatro Ribeiras, doada ao flamengo Ferdinand Van Olmen, após o desaparecimento de Jacome de Bruges e a divisão da Terceira em dois distritos administrativos. Se Van Olmen (Dulmo) já era capitão das Quatro Ribeiras em 1486, não deve ter ficado muito tempo na ilha, porque depois da sua viagem de descoberta em 1487, a melhor hipótese sobre o seu destino é a de um naufrágio nas margens de uma misteriosa «terra nova». Realmente, «é tradição das gentes desses lugares» que o seu vasto território, «objecto de tantas questões», tivesse sido repartido entre as famílias Albins, João dAguiar e precisamente João Scotto. Mais tarde, em 1506, dois proeminentes genoveses intervirão na aquisição de terrenos na área das Quatro Ribeiras, António Espínola como procurador e António ou Andrea de Cacena como comprador. O genovês João Escoto foi portanto nada menos que o destinatário de um terço das propriedades que pertenceram ao conhecido Ferdinand Van Olmen, mais exactamente o território entre a Ribeira da Igreja e o Biscouto Bravo. Com as preciosas indicações de Drumond esvanecem as referências a João Scotto, mas o mesmo autor informa-nos que, a 19 de Novembro de 1554, os dois genoveses Pêro Jacome e Branca Gonçalves, marido e mulher e «parentes daquele João Scotto», reclamaram e obtiveram perante um notário aquela grande herdade. O apelido Jacome, tratando-se de um patronímico, é natural que tenha sido adoptado como apelido por diversas famílias, que nada teriam a ver umas com as outras. Desde o século XIV aparecem Jacome referenciados em Portugal como nacionais; um ramo da família provém de Jácome Dias Correia, cidadão do Porto, que passou às ilhas onde granjeou grande fortuna e deu origem a alguns dos Jácomes dos Açores, com diversas designações. Das Flandres passou a Portugal em finais de Quatrocentos ainda outro Jácome, conhecido como Jácome de Holanda e que foi o primeiro a vir da Índia até Portugal por via terrestre, tendo tido descendência que continuou o nome e entre a qual se destaca um filho, Francisco Jácome, que registou as suas armas a 5 de Setembro de 1561. O Jacome italiano, patronímico proveniente do primeiro nome Giacomo, traçou o rumo de inúmeros genoveses nos arquivos portugueses e espanhóis, como Jacome el rico que participou na descoberta da América com Colombo ou Lorenzo Jacome, Jenoes, mestre de construção naval contratado em 1450 por Afonso V para os estaleiros de Lisboa, quando já era figura conhecida do ofício no Porto. Em 1523 e 1524, Jacome Salvago comerciava produtos sacarinos no Funchal e, a 27 de Setembro de 1535 em Évora, o rei D. João III outorgou a Jacome Genovês, cavaleiro da casa real, a jurisdição de um importante território na Índia, nomeando-o patrão-mor da ribeira de Goa. Voltando à ilha Terceira, Pêro Jacome e a mulher Branca, legitimadores da sua dada de terras em 1554, fundaram na propriedade a capela de Bom Jesus, muito frequentada e situada no lugar de Santa Breatiz das Quatro Ribeiras, «com somente um vigário e quarenta vizinhos». A ermida construída pelo casal luso-genovês, conforme a narrativa de Gaspar Frutuoso, «foi a primeira igreja de campo que se fez nesta ilha, onde os da Praia, ao começo do povoamento da Terceira, vinham a ouvir missa, ao longo dum caminho de mais de três léguas sempre à beira-mar». O território de Santa Breitis ou Breatis (Santa Beatriz), onde com certeza o Jacome era o colono mais influente, confrontava com o biscoito de Pedro Anes do Canto, lugar onde faleceu, em 1584, Inês Neta, mulher de Francisco de Cacena, filho de Lucas. Frutuoso continua a descrição da região onde morava Pêro Jacome, herdeiro de João Scotto: «a costa selvagem da freguesia será duma légua de comprimento, com uma baía, sobre a qual se situam três moinhos que servem todas as ditas aldeias. É uma zona muito fresca de águas, por ter quatro ribeiras de água fresca e fria, das quais três correm continuamente. Toda a terra é fresca e cortada por picos e vales». É possível que o Jacome, um dos maiores «latifundistas» das Quatro Ribeiras e fundador do Bom Jesus, a primeira capela rural da Terceira, fosse também proprietário de pelo menos um, entre os três moinhos que serviam a costa setentrional da ilha. Pêro Jacome foi portanto um dos grandes proprietários da ilha Terceira, dono de uma vasta herdade à qual correspondia uma unidade agro-zootécnica auto-suficiente, explorada por uma comunidade residente. Numa carta de dada descobre-se que, antes de Pêro Jacome, marido de Branca Gonçalves em 1554, houve outro Pêro Jacome, que em 1482 já possuía terrenos na zona de Quatro Ribeiras, assim como um Rodrigo Jacome, que obteve «uma terra de pastel nas serras sobre a vila de Quatro Ribeiras». Dificilmente o Pêro Jacome de 1482 era o mesmo de 1554, mas é possível que tenha sido seu progenitor. O precoce aparecimento dos Jacome genoveses nas Quatro Ribeiras, no último quartel do século XV, faz presumir que se tenham antecipado à chegada de João Scotto, imigrante mais ilustre e poderoso no mesmo período. Posteriormente, os Jacome integraram-se na família Escoto, sobrevivendo o seu apelido ao da mesma. A extensa herdade do Scotto viria a incorporar-se às propriedades dos Jacome, já adquiridas com dadas na mesma região. De facto, a fundação da capela de Bom Jesus, que Frutuoso chama de «primeira da ilha», foi sem dúvida anterior a 1554, portanto, muito provavelmente, Drumond trocou os dois Pêro Jacome. Num antigo manuscrito relativo a um contrato celebrado em Angra, em Outubro de 1542, aparece um outro Jacome, Simão. Com certeza um parente dos outros genoveses do mesmo apelido, sendo as suas posses localizadas entre a Fajã do Porto da Cruz, a Fajã dos Vimes e as Quatro Ribeiras. Nesse documento, Simão Jacome obteve quatro lotes de terra do biscouto de Pêro Anes do Canto em aforamento perpétuo. Para a renda daqueles terrenos, a 15 de Agosto de cada ano o Jacome devia entregar a Pedro Anes do Canto, personagem das mais emblemáticas da ilha Terceira e do inteiro arquipélago, «meio moio de trigo por cada moio de terra até que os terrenos não fossem cultivados e, após ter começado o seu cultivo, o que devia fazer-se dentro de 4 anos, ele e os seus sucessores teriam pago o aforamento com uma terceira parte do vinho e da fruta e um quarto do pão (trigo)». Depois da primeira, escassa centúria de povoamento dos Açores, enquanto o patronímico Jacome ainda mantinha a sua aura de «genovesidade» pelo menos na ilha Terceira, Gaspar Frutuoso e João Marinho dos Santos dão-nos conta de um terceiro Pêro Jacome. Este e seu pai, Sebastião Vieira, de nobre prosápia e residentes na localidade de Santa Bárbara, sempre na Terceira, eram dois grandes imaginários, ou artistas escultores de «muitas imagens delicadas de crucifixos e outras, de boas proporções e muito preço». Sebastião Vieira, talvez por alguma relação de parentesco, ou por admiração ou amizade com os genoveses das Quatro Ribeiras, ou simplesmente porque atraído por tal «exótico» nome, chamou o próprio filho de Pêro Jacome. Por coincidência, outro artista Jacome foi referido pelo célebre pintor português Francisco de Holanda num seu escrito de 1548, onde se afirma que o pintor Jacome, qualificado somente como italiano, tinha estado ao serviço de D. João II. Se o apelido Scotto ou Escoto, presente hoje em Portugal continental, na Espanha e na América Latina, não parece ter-se fixado nos Açores, o Jacome ainda existe na Região Autónoma no século XXI, ao menos nas ilhas de S. Miguel e Terceira. Na Terceira, primeira ilha dos Açores a catalizar o interesse de mercadores estrangeiros desde o século XV, o apelido conserva-se também na versão Jacomo, com o final, ainda mais fiel ao original Giacomo genovês. Pierluigi Bragaglia
Fontes. Biblioteca Pública e Arquivo Distrital (Ponta Delgada), Manuscriptos, I, fl. 14.
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Link para famílias Salvago e Jacome: http://genealogia.sapo.pt/familias/.
