Escobar Jr., José de Freitas

[N. Lajedo, Lajes das Flores, 26.3.1902 – m. Mosteiro, Lajes das Flores, 13.10.1986] Na freguesia do Lajedo, concelho de Lajes das Flores, brilhou a figura de José de Freitas Escobar Júnior, homem inovador do século XX e secretário do pioneiro Sindicato Agrícola Ilha das Flores.

Desde 1915, os lavradores do Lajedo regeram-se pela Mútua Confiança, até à legalização do Sindicato Agrícola Ilha das Flores, a 5 de Janeiro de 1918. No incipiente quadro cooperativo do arquipélago, foi um dos três primeiros Sindicatos Agrícolas dos Açores e do país no sector dos lacticínios, melhor organização do género no distrito da Horta, segundo a imprensa faialense. José de Freitas Escobar Jr., secretário da cooperativa, liderou a associação durante mais de quatro décadas, até à sua dissolução. Emigrou menino para os E.U.A., mudou-se em seguida para o Brasil e ali fez estudos de guarda-livros, preciosos no regresso às Flores, onde se tornou o contabilista mais procurado. Ficou no Lajedo, fascinado pelos projectos do Padre José Furtado Mota, profeta da revolução cooperativa insular, de quem se tornou braço direito. O Lajedo, última freguesia electrificada na ilha, pôs de parte o óleo de baleia só em 1978; todavia, o guia dos lavradores instalara, cerca de 25 anos antes, uma turbina na ribeira, abaixo do povoado, acessível por íngremes atalhos. A turbina, manobrável à distância mediante fios de cobre que subiam a encosta, permitia acender a luz no escritório. Fugindo aos obscuros limites insulares com produção de energia renovável, o genial José de Freitas Escobar Jr. foi pioneiro da luz na costa oeste da ilha das Flores, após mais de 450 anos de povoamento. Na década de Quarenta, a sua inteligência foi reconhecida quando, entre 1944 e 1949, exerceu a Presidência da Câmara de Lajes das Flores. Entre 1940 e 1970, fez as contas também da poderosa cooperativa Nossa Senhora do Rosário, sedeada nos Morros das Lajes, que incluiu lavradores de Fajãzinha e Mosteiro. José de Freitas Escobar Jr. deixou de servir nos Morros em 1971, quando foi nomeado, pela Caixa de Previdência da Horta, encarregado de posto do Lajedo. Porém, traçou o rumo dos lavradores por mais alguns anos e até 1973 forneceu leite do seu gado, destinado então ao fabrico de queijo na «central cooperativa» da Fazenda das Lajes. Após o repentino colapso da União da Fazenda, a vaga de desistências levou ao enterro da sociedade do Lajedo. Nos finais de Setenta, José Júnior fazia a contabilidade do Sr. Santo Cristo, cooperativa da Fazenda das Lajes, e da Cooperativa de Leitaria do Monte (S. Cruz), onde instruiu o sucessor e o Eng.º Mário Armas, timoneiro da sociedade da Lomba desde 1975. José de Freitas Escobar Jr. não teve filhos e viveu o seu último ano no Mosteiro, em casa dos cunhados, com a segunda mulher Etelvina Lopes, semi-paralisado nas mãos e pernas. A sua última invenção foi o aperfeiçoamento de bocados de madeira, a serem aplicados na ponta dos dedos, para remediar à fraqueza das mãos: as próteses permitiam carregar melhor no teclado da máquina de escrever. Pierluigi Bragaglia

Bibl. Bragaglia, P. (1997), História dos Lacticínios da Ilha das Flores – Perfil Histórico do Pioneirismo Associativo da Ilha das Flores e da Produção e Exportação dos seus Lacticínios no Séc. XX. Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores [Capítulos II a IX, XX]. O Telégrafo (1918), Horta, 1 de Setembro.