erupções históricas

A actividade vulcânica é inerente à própria constituição dos Açores; cada uma das ilhas é constituída por uma edificação vulcânica (formada por um ou mais vulcões) que atingiu dimensões suficientes para emergir. Das nove ilhas do arquipélago, apenas nas Flores, Corvo, Graciosa e Santa Maria não se registaram erupções desde o início do povoamento (cerca de 1439). Erupções recentes (anteriores ao povoamento) e actividade fumarólica são, contudo, conhecidas na Graciosa e nas Flores, mostrando que as estruturas vulcânicas nestas ilhas não podem ser consideradas inactivas.

Machado (1958), Zbyszewski (1963) e Weston (1963/1964) publicaram sínteses sobre o vulcanismo histórico baseando-se nos relatos dos cronistas açorianos e em «memórias» e notícias coevas dos acontecimentos; o trabalho mais recente apresenta uma listagem de 32 eventos vulcânicos desde 1439 até 1964. Alguns dos episódios mencionados são, no entanto, duvidosos, como as erupções de 1439, 1460 e 1713 em S. Miguel. Além disso a listagem dos três autores não é coincidente. Os critérios utilizados por Weston (1963/1964) para contabilizar o número de erupções são, para além disso, incoerentes; nuns casos são contadas como erupções distintas eventos associados a uma mesma erupção, enquanto que noutros não é seguido o mesmo critério.

Para além dos episódios descritos por aqueles autores existem outros posteriores, como a referência (Forjaz, 1992) a uma erupção submarina provável na área do Banco do Mónaco (Mar de Prata) em 1981, e a recente erupção ao largo da Serreta que se estendeu de 1998 a 2001.

Utilizando como critério contabilizar eventos eruptivos claramente relacionados temporal e estruturalmente como um só episódio, o número de erupções indubitáveis observadas nos Açores após o povoamento foi de 26 (Tabela 1).

O tempo médio entre erupções históricas ronda os 21,7 anos para o conjunto do arquipélago. Contudo, a análise da distribuição temporal dos fenómenos eruptivos nos Açores mostra que ocorrem frequentemente conjuntos de 2 a 4 erupções concentradas em períodos de tempo curtos (clusters) separados por períodos geralmente mais longos de inactividade. Aqueles períodos de actividade vulcânica apresentam duração máxima de 24 anos e são separados por épocas de quietude eruptiva que podem durar entre 20 e 56 anos. Assim, a taxa média de recorrência dos eventos vulcânicos não tem significado pois a distribuição temporal não é homogénea (Madeira, 1998). Verifica-se um período mais prolongado de inactividade que se estende entre as erupções de 1439-1443 e de 1562 (119 a 123 anos). Uma vez que aquele intervalo corresponde à época mais recuada da história açoriana em que os registos são menos completos, considerando que o povoamento das ilhas dos grupos central e ocidental não foi imediato, e que facilmente poderão ter passado despercebidos indícios de eventuais erupções submarinas numa época em que a ocupação humana era ainda escassa, é possível que aquele período de quietude eruptiva não seja real. É provável, pois, que o número de erupções efectivamente ocorridas no arquipélago desde 1439 possa ser superior ao número de eventos registados.

A erupção da Serreta, iniciada em Novembro de 1998, enquadra-se no padrão de distribuição temporal do vulcanismo e deverá marcar o início de um novo período de actividade vulcânica que poderá estender-se até 2020.

A distribuição espacial do vulcanismo em função do tempo não revela um padrão claro. Verifica-se, contudo, uma tendência para uma migração de WNW para ESE em vários clusters de erupções. Esta tendência estará certamente relacionada com o facto da expansão dos fundos oceânicos no vale do rifte provocar uma onda de tensão que se vai propagando para oriente à medida que desencadeia rotura ao longo das estruturas tectónicas da região. O intervalo de tempo entre o início de clusters sucessivos corresponderá ao tempo necessário à acumulação de tensão suficiente para desencadear um novo ciclo de deformação. Se as taxas de expansão crustal se mantiverem constantes, aqueles ciclos apresentarão um padrão temporal regular; variações nas taxas de expansão tenderão a retardar ou acelerar o intervalo de tempo entre ciclos. É particularmente notável a previsão de Machado (1958), baseada na actividade solar e nas marés terrestres e lunares, para o período de 1958 a 1980. Segundo aquele autor seria de esperar altas probabilidades de ocorrência de erupções em 1958, 1960-1963 e 1979-1980. As erupções submarinas de 1963, 1964 e 1981 aproximam-se bastante daquela previsão.

Onze dos vinte e seis episódios vulcânicos históricos ocorreram nas estruturas de S. Miguel e Banco Mónaco. Este facto é natural uma vez que naquela ilha existem três grandes vulcões activos (Furnas, Fogo e Sete Cidades) e uma zona fissural basáltica (Região dos Picos), a que acresce a estrutura (fissural?) do Banco Mónaco, número bastante superior ao que se verifica nas restantes ilhas. Assim, em quase todos os clusters ocorre pelo menos uma erupção naquela região.

As ilhas de S. Miguel, Terceira, Faial, Pico, S. Jorge e Graciosa, pela sua história geológica recente, são as que apresentam maior probabilidade de erupção.

 

Descrição das erupções históricas

 

1432-1444? ? Sete Cidades, S. Miguel

De acordo com Gaspar Frutuoso (Saudades da Terra, L. 4, Cap. 2.o), o piloto da primeira viagem a S. Miguel marcou dois picos, localizados nos extremos oriental e ocidental da ilha, como referências para a navegação. No decurso da segunda viagem, na aproximação a S. Miguel, foram observadas acumulações flutuantes de pedra-pomes e troncos de árvores, e, ao chegar à vista da ilha, o pico situado no extremo oeste (na região do vulcão das Sete Cidades) tinha desaparecido. Destes dados se deduziu ter ocorrido erupção vulcânica no intervalo de tempo entre as duas viagens, atribuindo-se o desaparecimento do dito pico ao fenómeno vulcânico.

Muitos autores deram como certa a ocorrência dessa erupção algures no vulcão das Sete Cidades, localizando-a no tempo entre 1439 e 1444 (Zbyszewski, 1963; Weston, 1963/1964). Contudo, estudos recentes de vulcano-estratigrafia (Queiroz, 1997), indicam não ter ocorrido qualquer erupção histórica na área emersa daquele vulcão. Deste modo, deve excluir-se este evento vulcânico naquela localização, podendo justificar-se o desaparecimento do referido pico por outras razões geológicas (por exemplo, um movimento de massa no bordo da caldeira das Sete Cidades, desencadeado por um sismo ou por pluviosidade intensa).

A observação de pedra-pomes e troncos no mar indica, no entanto, ter ocorrido uma erupção à época, a qual, como se verá, se localizou na caldeira das Furnas (Queiroz et al., 1995).

 

1439-1443 - Pico do Gaspar - Furnas, S. Miguel

A primeira erupção indiscutível nos Açores ocorreu no interior da Caldeira das Furnas pois foi observada pelos primeiros povoadores por volta de 1439/1443. Tendo sentido tremores de terra e explosões e observado relâmpagos que pareciam provir de um vale a oeste da Povoação foi enviado um padre a investigar. Ao chegar ao interflúvio que separa a caldeira da Povoação da das Furnas, observou vapores que se elevavam de uma depressão, à volta da qual estava tudo coberto com materiais brancos e sem qualquer vegetação (Frutuoso, 1583; Dias, 1936). Verificou-se também que, às vezes, a coluna de vapor apresentava reflexos vermelhos (incandescência da lava).

Estudos de estratigrafia vulcânica, enquadrados por datações de carbono 14, indicam que a referida erupção teve lugar no Pico do Gaspar, a leste da Lagoa das Furnas (Queiroz et al., 1995; Guest et al., 1999). Os depósitos vulcânicos mostram que a erupção se iniciou com actividade explosiva que emitiu cinzas e pedra-pomes, a que se seguiu efusão de lavas que edificaram um doma. Na morfologia do Pico do Gaspar estas duas fases estão expressas por um anel de pedra-pomes, no interior do qual existe um doma traquítico.

 

1562/1564 - Pico do Cavaleiro (actualmente Cabeços do Fogo) - Pico

Do episódio de 1562 existem várias descrições, embora apenas dois textos sejam coevos do evento. O primeiro é o relato, impresso em Sevilha, efectuado por três membros da equipagem de um navio espanhol proveniente das Antilhas que aportou à Horta em Setembro de 1562 (Archivo dos Açores, I: 360). Diego Diez, Juan Rodriguez e Pedro Morzillo, mestre, piloto e escrivão do Nuestra Senora de la Luz, impressionados com o fenómeno observado, publicaram a Relacion ... en la qual se trata del gran fuego y encêndio que avido en la isla llamada el Pico que foe en veynte dias del mes de Setiembro del Ano m. d. lxij.. No seu relato referem que, à chegada ao Faial, decorria uma erupção vulcânica na ilha do Pico e que, saindo de várias bocas que se tinham aberto perto de uma lagoa, doze rios de lava corriam até ao mar. Segundo informação recolhida junto de habitantes do Faial a erupção teria começado na madrugada de 20 para 21 de Setembro, por volta das duas da manhã.

O segundo relato contemporâneo da erupção, o manuscrito Do que aconteceo nas Ilhas do Pico e de S. Jorge no anno de 1562 e d?algumas coisas da do Pico, foi publicado em 1878 no Archivo dos Açores (vol. I: 363-365). Esta descrição indica que se registaram sismos premonitórios desde 29 de Agosto (23 de Agosto, segundo Zbyszewski, 1963) e que alguns foram sentidos também em S. Jorge. Na noite de 21 para 22 de Setembro teve início a erupção no Pico do Cavaleiro, formando-se três rios de lava que correram pela encosta norte até ao mar. A 23 as emissões de cinzas atingiram a ilha de S. Jorge, caindo durante cerca de meia hora. Os derrames, que correram para o mar durante dois meses, chegaram a formar 40 rios de lava simultâneos. O texto dá grande realce à entrada da lava no mar, chamando a atenção para os ruídos aterradores que se produziam e para as enseadas formadas pelos braços de lava, capazes de abrigar navios. Na altura em que o texto foi escrito, oito a nove meses após o início da erupção, decorria ainda efusão de lava.

A descrição de Gaspar Frutuoso (que tinha 40 anos na altura da erupção) foi escrita alguns anos após o seu termo, possivelmente através de relatos de testemunhas, e acrescenta mais alguns dados sobre o evento vulcânico de 1562. Este autor revela que, antecedido por 17 abalos terríveis em vinte minutos, acompanhados por trovões fortes como tiros de artilharia, o fogo irrompeu num lameiro situado no topo da serra a uma légua de distância de S. Roque e três léguas a leste da base da montanha do Pico. Abriram-se cinco bocas que emitiram um rio de lava que correu pela vertente norte, galgando a arriba e atingindo o mar. A luminosidade da erupção chegou a ser observada de S. Miguel.

Os restantes documentos que referem este acontecimento são certamente baseados em Gaspar Frutuoso, dada a grande semelhança com o que aquele autor escreveu. Estão nesta situação os textos de Frei Agostinho de Mont?Alverne (cerca de 1693), Luiz António de Araújo (1801) e António Lourenço da Silveira Macedo (1871).

A erupção localizou-se sobre um troço, com cerca de 1 km de extensão, da Falha da Lagoa do Capitão, entre as Terras do Canto e o cone de Chão Verde, no rebordo da vertente norte da ilha, a uma cota próxima dos 800 m. Sobre a fractura foram edificados dois cones, o principal com cinco crateras e outro menor com duas. Os relatos apenas referem os derrames que correram para norte, dando origem à Ponta do Mistério, talvez por se ter tratado da manifestação mais espectacular e mais facilmente visível das áreas habitadas; contudo, foram igualmente derramadas lavas para sul, que inundaram a região planáltica adjacente ao centro eruptivo. Vários edifícios piroclásticos foram rodeados por estes derrames que se estenderam até aos cones do Cabeço do Gonçalves e Cabeço Negro.

 

1563/1564 - Lagoa do Fogo, Pico do Sapateiro (Queimado) - S. Miguel

Esta erupção encontra-se descrita no manuscrito intitulado Diluvio d?agua e fogo que se fez na ilha de san-Miguel, de que é capitão Manuel da Camara, e bispo D. Manoel d?Almada; e isto aconteceu no anno de 1563 (reproduzido no Archivo dos Açores, II: 452-458) e nas Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso (Livro 4º, Caps. 84, 85, 87, 88 e 89) onde se encontra relato muito completo. Naquelas descrições se basearam autores posteriores como Araújo (Memoria chronologica dos tremores...), Cordeiro (História Insulana), etc.

A erupção foi precedida por sismos que começaram a ser sentidos no dia 24 de Junho e que aumentaram de frequência e intensidade nos dias seguintes. Com os sismos caíram muitas casa na Ribeira Grande e algumas em Lagoa e Água de Pau. A 28 de Junho, próximo do pôr do sol, iniciou-se a erupção no Pico da Lagoinha ou das Berlengas (junto à Lagoa do Fogo) com a formação de uma enorme coluna negra acompanhada de relâmpagos e trovões. Ao anoitecer e durante a noite a incandescência da coluna eruptiva podia ser avistada de todas as ilhas do grupo central (Dilúvio de água e fogo...). Com vento de oes-sudoeste começou a chover pedra-pomes e cinza em toda a zona oriental da ilha desde o Porto Formoso até à Povoação. A região ficou envolta em escuridão desde a segunda-feira 28 até ao sábado seguinte. A espessura dos depósitos de piroclastos atingiram mais de cinco metros (uma lança) nas zonas mais próximas do centro eruptivo, entupindo completamente a maioria das grotas menos fundas, e, próximo do litoral, observaram-se espessuras médias de sete ou oito palmos (1,4 a 1,6 metros). Quarenta léguas a leste da ilha a pedra-pomes flutuante atingiu espessuras de oito palmos, dificultando o avanço de navios provenientes do continente. Com a chuva que entretanto caiu as ribeiras transformaram-se em torrentes de lama; na Ribeira Grande as enxurradas galgaram as pontes impedindo os refugiados de passar para oeste. Quatro mil refugiados das freguesias situadas a oriente juntaram-se em Rabo de Peixe.

No lugar do Pico da Lagoinha, que desapareceu, ficou uma grande cratera com légua e meia de perímetro e um quarto de légua de profundidade, onde durante algum tempo estiveram em actividade moderada duas bocas eruptivas.

Com a diminuição da intensidade da erupção no Pico da Lagoinha os habitantes começaram a voltar às suas casas, quando a 2 de Julho se deu nova erupção, agora no Pico do Sapateiro, situado cerca de 3 km a SSW da Ribeira Seca. Nos primeiros dois dias a actividade apresentou características explosivas, com projecção de grandes bombas, blocos e lapilli. Porém, ao terceiro dia iniciou-se actividade efusiva, formando-se uma escoada lávica que correu durante três dias chegando ao mar a 7 de Julho; o derrame meteu-se pelo vale de uma ribeira, que encheu totalmente, atingindo uma largura de 30 braças (60 m), e destruindo no caminho parte da povoação da Ribeira Seca. Dois dias depois, a 9 de Julho, abriu-se nova boca eruptiva que emitiu uma escoada em direcção a Rabo de Peixe, correndo parte do caminho à superfície enquanto noutros troços se metia por baixo de terra (provavelmente aproveitando antigos tubos de lava aí formados por erupções anteriores).

 

1580 - Ribeira do Almeida, Mistério da Queimada, Ribeira do Nabo - S. Jorge

Da primeira erupção ocorrida em S. Jorge após o povoamento existe relato coevo de Gaspar Frutuoso. Este cronista não assistiu ao acontecimento mas o seu texto, pelos pormenores que contém, parece basear-se em testemunhos directos.

Os textos, posteriores, de Agostinho de Mont?Alverne (ca. 1700) e Luís António de Araújo (1801) baseiam-se claramente no de Frutuoso e nada acrescentam de novo. Os trabalhos de João Teixeira Soares (1871 e 1872, in Avellar, 1902) partem igualmente do texto de Frutuoso, mas contêm elementos (nalguns casos contraditórios com Frutuoso) que parecem baseados em observações e interpretações do próprio. O naturalista francês Fouqué (1873, in Zbyszewski, 1966/1967), no artigo San Jorge et ses éruptions, apresenta descrição da sequência dos eventos de 1580 concordante com o texto de J. T. Soares nos pontos em este contradiz o relato de Frutuoso; é quase certo que os dois se tenham encontrado em S. Jorge quando da segunda viagem de Fouqué aos Açores, no verão de 1872, e tenham conversado sobre o tema das erupções históricas. Este provável encontro justifica-se pelo interesse do Dr. João Teixeira Soares pelas erupções históricas ocorridas na sua ilha, que o levaram a escrever artigos sobre o tema no jornal Jorgense em 1871 e 1872.

Seja como for, o relato de Gaspar Frutuoso é claro quanto à cronologia da erupção de 1580; nele pode-se ler que na noite de 28 de Abril (de 27 para 28 ou de 28 para 29 de Abril ?) se sentiram trinta tremores de terra, cinquenta no dia seguinte e outros tantos no terceiro (29 e 30 de Abril). No mesmo dia (30 de Abril) abriram-se duas bocas eruptivas sobre a Fajã de Estevam da Silveira a menos de meia légua da vila (das Velas), lançando pedras a grande altura. A toponímia referida perdeu-se (ou nunca existiu ?) pois em 1872 não era conhecida conforme se deduz do trabalho de J. T. Soares, contudo deve tratar-se das bocas eruptivas da Ribeira do Almeida, as que se situam mais próximas das Velas. Com efeito, o relato diz que se formaram dois rios de lava, um dos quais correu durante meio dia tombando para o mar do alto de uma rocha que fecha o porto das Velas; na manhã de 1 de Maio o derrame destruiu parte dessa mesma rocha, continuando a correr para o mar. Aqui o termo rocha deve ser entendido como arriba, significado com que ainda hoje é largamente utilizado, e não como um rochedo isolado. De facto, das três manchas de derrames de 1580, a da Ribeira do Almeida é a única que apresenta localização compatível com a descrição de Frutuoso.

O relato continua referindo que seis horas mais tarde, portanto, na tarde de 1 de Maio, o fogo apareceu num pico sobre as vinhas da Queimada, e que as lavas correram durante dois dias. Depois (das lavas da Queimada terem parado de correr?) abriu-se nova boca perto da Ribeira do Nabo a três léguas da vila (a distância é de 4,5 km), ao mesmo tempo que um pico muito alto da serra correu ao mar, na distância de uma légua, por um baixo e fresco vale. Parece, assim, que os abalos sísmicos ligados à abertura da nova boca terão provocado o desmoronamento de um dos cones da vertente sobranceira à povoação da Ribeira do Nabo, cuja avalancha foi confinada por um vale.

A análise de fotografia aérea sugere duas localizações possíveis para a cicatriz daquele desmoronamento; uma situa-se no troço montante da ribeira do Nabo, na encosta sudeste do Pico Maria Pires, e a outra no vale que lhe fica imediatamente a leste, na encosta sobranceira à Canada do Manuel Trapim.

Assim, segundo Gaspar Frutuoso, a actividade eruptiva de 1580 propagou-se de oeste para leste e não no sentido oposto como indica Zbyszewski (1966/1967) quando sintetiza o texto de J. T. Soares. De facto, o que este autor escreve é que: A (localização) do primeiro d?aquelles vulcões (1580) foi mais ao sul (que a de 1808) e adiantou-se mais para o occidente, o que foi interpretado como propagação da actividade de oriente para ocidente, mas que significa de facto que as bocas do vulcão de 1580 se situavam mais a sul e a ocidente que as de 1808.

Por seu lado, Fouqué indica que a actividade migrou de leste para oeste, da Ribeira do Nabo para a Queimada e depois para a Ribeira do Almeida, voltando depois a manifestar-se na Ribeira do Nabo (parece haver aqui confusão com a sequência eruptiva de 1808, que apresenta este padrão). Estes dois autores referem a data de 1 de Junho para a erupção na Ribeira do Almeida, o que contradiz o relato de Frutuoso. Contudo nenhum deles indica a fonte dessa informação, que poderá ter sido recolhida da tradição oral, já que Avellar (1902), que foi escrivão da administração do concelho das Velas, indica nada constar no arquivo daquela câmara relativamente à erupção de 1580. Trata-se possivelmente de confusão com a erupção de 1808.

Continuando a seguir Frutuoso ficamos a saber que as cinzas emitidas, arrastadas inicialmente para oriente, passaram, devido a mudança do vento, a ser levadas em direcção à vila das Velas onde caíram com tal abundância que ao fim de três dias não se conseguiam já abrir as portas das casas. As mesmas cinzas originaram a destruição dos pastos, o que, de acordo com aquele autor, levou à morte de 4.000 cabeças de gado (vacas, cabras e ovelhas) e de todas as abelhas. Nas zonas cobertas por derrames perderam-se áreas importantes de vinha e, de cerca de 300 adegas, apenas sobraram 10 ou 12.

A actividade sísmica e eruptiva ter-se-á prolongado por quatro meses.

O facto mais invulgar desta erupção, do qual resultou a morte de, pelo menos, 10 pessoas (Mont?Alverne nas Crónicas da Província de S. João Evangelista, baseando-se no Livro de Óbitos da Matriz da vila das Velas), foi a ocorrência de uma terrível nuvem que queimava como fogo (Cordeiro, História Insulana, 1717) a que as testemunhas chamaram ardente nuvem. Frutuoso relata que, num dado momento quinze homens foram, de barco, recolher bens que queriam salvar de uma casa situada junto ao mar. Assim que entraram na casa, uma nuvem desceu repentinamente da montanha. Um deles, que tinha ficado à porta, apercebendo-se do fenómeno, fugiu para tentar chegar ao barco, o que não conseguiu, tendo ficado gravemente queimado. Os que estavam dentro de casa desapareceram queimados no seu interior.

Fouqué conta uma versão diferente, referindo-se a 10 pessoas e a um carro de bois envolvidos pela nuvem ardente, e a cinco outros indivíduos que se encontravam noutros locais, vitimados pelo mesmo fenómeno. Diga-se que o relato de Frutuoso parece mais verosímil pois seria mais fácil e segura a utilização de um barco para atingir a zona afectada pela erupção do que um carro de bois.

A referência a globos de chamas no interior da nuvem (Fouqué, 1873) sugere fortemente tratar-se de uma nuvem ardente (do tipo block and ash flow), resultante do colapso parcial do edifício vulcânico em actividade. Este tipo de fenómenos, que não é mais do que uma avalancha de materiais incandescentes, forma uma nuvem densa de poeiras que envolve o corpo principal da escoada piroclástica, o qual se desloca rente ao solo. Os blocos de maior dimensão, ao fragmentar-se, mostram o seu interior incandescente (globos de chamas), visível através da nuvem.

Embora não existam indicações quanto ao local onde se formou a nuvem ardente, apenas as bocas eruptivas da Ribeira do Almeida se encontram em posição suficientemente elevada para ter dado origem ao fenómeno.

Os vários centros eruptivos de 1580 situam-se sobre dois alinhamentos vulcano-tectónicos distintos. As crateras da Ribeira do Almeida localizam-se na fractura que liga o Morro Grande das Velas ao Pico Maria Isabel e cones que lhe ficam a oriente, e cujo prolongamento passa precisamente pelos dois locais onde poderá ter ocorrido o colapso de um pico sobranceiro à Ribeira do Nabo. As outras duas áreas em que se manifestou a actividade vulcânica, Ribeira do Nabo e Queimada, encontram-se sobre a própria fajã da Queimada, junto à base da arriba fóssil. É possível que estejam ligadas por uma estrutura orientada WNW-ESE (com várias ramificações, pois as seis bocas actualmente identificáveis não se encontram alinhadas), a qual poderá, eventualmente, ter controlado o traçado da antiga arriba.

 

1630 - Lagoa Seca - Furnas, S. Miguel

Existem sete relatos contemporâneos desta erupção. Um é a Relação do lastimoso e horrendo caso que aconteceu na ilha de S. Miguel em Segunda Feira dous de Setembro de 1630, do Padre António Fernandez Franco natural de S. Miguel (impressa em Lisboa a 27 de Setembro de 1630), de que se conhecem traduções em castelhano (publicada em Valência) e em francês (publicada em Paris) datadas do mesmo ano; ambas as versões estão reproduzidas no Archivo dos Açores (vol. IX: 416-421). Outra descrição, a Lembrança á cerca d?esta erupção feita pelo P.e Manoel Gonçalves, Jesuita, do Collegio de Ponta Delgada, que a escreveu a pedido da hierarquia da Ordem e do capitão-donatário de S. Miguel. Desta relação apenas se conhece uma súmula que foi anexada às Saudades da Terra de Frutuoso (História Insulana: 164-166; Archivo dos Açores, II: 543-547; XIV: 512-513). Um terceiro documento é o relato do Padre Manuel da Purificação intitulado De como se destruiu e abrazou o Valle das Furnas em uma noite, e das mais couzas que a isso se seguiram, reproduzido no Archivo dos Açores (vol. II: 527-535). Outra descrição consta do manuscrito Relação feita pelo licenciado João Gonçalves Homem; cidadão da cidade de Ponta Delgada e nella morador, do que aconteceu nesta ilha de S. Miguel e do que se viu na dita cidade no mês de Setembro passado do anno de 1630 conservado na Biblioteca Pública de Évora (publicado no Archivo dos Açores, II: 536-541). O quinto e sexto documentos são a Notícia da mesma erupção pelo Padre Pedro da Ponte cura da fraguesia de N. Senhora do Rosario da Villa da Lagoa inscrita no 2.o Livro de Termos de Baptismos de Nossa Senhora do Rosário da Vila de Lagoa e uma nota do mesmo padre no Livro de Óbitos da freguesia, ambas transcritas no Archivo dos Açores (vol. II: 541-543). Existe finalmente uma narrativa de autor anónimo também publicada no Archivo dos Açores (pp. 535-536). A mesma erupção é referida por Mont?Alverne nas Crónicas da Província de S. João Evangelista (vol. II: 303-304), por Cordeiro na História Insulana (pp. 164-166), por Maldonado na Fenix Angrence (pp. 129-132) e por Araújo na Memoria chronologica dos tremores mais notaveis e irrupções de fogo; nos Annaes da Ilha Terceira, nada consta sobre o ano de 1630.

Deste conjunto de relatos sabe-se que a erupção se iniciou por volta das duas horas da manhã do dia 3 de Setembro de 1630. O evento foi precedido por sismicidade que começou às 8 horas da noite do dia anterior. Um dos sismos mais fortes fez ruir parcialmente a igreja dos eremitas das Furnas, que fugiram durante a noite, perdendo-se uns dos outros, mas acabando por se reunir incólumes no Porto Formoso. Das 9 da noite até às 4 da manhã os abalos foram contínuos, fazendo tanger o sino do relógio da Matriz de Ponta Delgada. A erupção iniciou-se com uma terrível explosão que destruiu um monte situado entre duas pequenas lagoas (a Lagoa Escura e a Lagoa Barrenta) existentes a sul da Lagoa Grande (actual Lagoa das Furnas). Simultaneamente terão ocorridos quebradas nas arribas mais próximas, pois estudos geológicos recentes (Cole et al., 1995) encontraram depósitos de quebrada por baixo dos vulcânicos. Parte dos produtos da explosão inicial correram pelas vertentes a sul da caldeira sob a forma de uma escoada piroclástica que atingiu o litoral da Ribeira Quente até Ponta Garça. O relato do Padre Manuel da Purificação indica que terão morrido mais de 80 pessoas em Ponta Garça, na descrição do Padre Manuel Gonçalves são referidas 191 vítimas entre as pessoas que pernoitavam nos arredores do centro eruptivo por andarem apanhando baga de louro ou apascentando gado, o Padre Pedro da Ponte indica 150 mortos, enquanto que João Gonçalves Homem fala de 75 pessoas queimadas ou desaparecidas entre as que preparavam óleo da baga de louro na caldeira das Furnas e de outras 115 em Ponta Garça. De acordo com aqueles números, parece razoável atribuir a este evento vulcânico 190 a 200 vítimas mortais. A erupção deu origem a duas bocas, em torno de uma das quais se formou rapidamente um cone de cuja cratera saiam gases, fumos, chamas, pedra-pomes e cinzas. Gonçalves Homem refere que após o início da erupção não se sentiam grandes abalos sísmicos mas um balanço contínuo do solo. A partir de dia 4 o sol começou a ser obscurecido pelas cinzas de tal modo que no dia seguinte, entre as 9 e as 11 horas da manhã, a escuridão em Ponta Delgada era tal que para circular na rua era necessário usar lanternas. Em Lagoa, entre as 11 e meia e a 1 hora da tarde, parecia uma noite de inverno. Dois dias após o início dos sismos, todo o Vale das Furnas ficou coberto por cinzas e pedra-pomes e no litoral sul formara-se uma praia; todos os campos ficaram afectados pela cinza num raio de sete léguas ou mais em torno do centro eruptivo. Em Ponta Garça a espessura de cinza atingiu 25 a 30 palmos, em Vila Franca oito palmos, na Lagoa meia perna e em Ponta Delgada cinco dedos. Na Povoação não restou uma casa de pé e os terrenos ficaram arruinados, e no Faial da Terra registaram-se grandes estragos provocados por enxurradas da ribeira. As cinzas provocaram também obscuridade na ilha de Santa Maria (90 km a sul), arrastadas por vento norte, e chegaram às Flores e ao Corvo (550 km a WNW). Na Terceira, 1630 ficou conhecido como o ano da cinza (Cordeiro, História Insulana: 165; Maldonado, Fenix Angrence: 129-132). A fase explosiva principal da erupção terá durado até 8 de Setembro. Após esta fase existem relatos de fumos, incandescência e pequenas explosões por mais dois meses, até 2 de Novembro, período durante o qual foi edificado um doma no interior do anel de pedra-pomes (Cole et al., 1995).

A 4 de Novembro o Pico das Cruzes e o Rosto Branco desmoronaram-se criando um promontório na costa que cobriu os baixios das Lobeiras.

 

1638 ? no mar ao largo da Ponta da Candelária - S. Miguel

A erupção de 1638 encontra-se descrita em três documentos contemporâneos, a Relação que veio a Lisboa do horrendo e portentoso caso succedido na Ilha de S. Miguel, e mar della, no anno de 1638, a Carta que escreveo a ElRey Agostinho Borges de Sousa da Ilha de Angra (manuscritos conservados na Biblioteca de Évora) e a Relação que veio da ilha de S. Miguel a esta da Terceira aos 15 de Julho deste presente anno de 1638 (Papéis Ultramarinos da Biblioteca da Ajuda), todos reproduzidos no Archivo dos Açores (vol. III: 279-284). Também a referem sumariamente Mont?Alverne (Crónicas da Província de S. João Evangelista das Ilhas dos Açores, II: 238) e Drummond (Annaes da Ilha Terceira, I: 473-474).

Dos relatos pode concluir-se que a partir de 26 de Junho se começaram a sentir sismos na região ocidental de S. Miguel, os quais continuaram por 8 dias; a intensidade dos abalos fez com que a população da Várzea abandonasse as suas casas. A 3 de Julho iniciou-se a erupção no mar ao largo da costa oeste de S. Miguel. O primeiro relato refere que esta ocorreu duas léguas em frente do Pico das Camarinhas; contudo, numa gravura contemporânea da erupção, reproduzida no Archivo dos Açores, onde está assinalado o Pico dos Ginetes, reconhece-se a Ponta da Candelária a sul daquele, e pode ver-se que o local da erupção se situa a sudoeste daquela ponta pois tem marcados os pontos cardeais e colaterais. A erupção caracterizou-se por actividade explosiva, com projecção a grande altura de abundante quantidade de cinza e água, juntamente com grandes blocos e colunas de vapor. Por soprar dos quadrantes de terra, o vento arrastava as cinzas para oeste. Drummond refere que estas caíram em grande profusão na Terceira tendo causado trevas durante três dias, e que, naquela ilha, 1638 ficou conhecido como o «ano da cinza». Trata-se de confusão com os eventos de 1630.

A acumulação dos materiais projectados deu origem a uma ilha, inicialmente com uma área de quatro alqueires, mas que a 10 de Julho tinha já uma légua e meia de diâmetro e sessenta braças de altura. A gravura referida mostra dois centros eruptivos em actividade. A actividade vulcânica matou uma tal quantidade de peixe que um dos relatos refere que podiam encher oito naus da Índia; os peixes arrojados ao litoral dos Mosteiros teve que ser enterrado para evitar doenças.

Não existem indicações sobre a duração da erupção, sabendo-se apenas que a 17 de Julho a actividade ainda continuava. Weston (1963/1964) indica uma duração de três semanas citando como fonte a História Insulana que, no entanto, não menciona esta erupção.

 

1652 - Picos do Paio (actualmente do Fogo) e de João Ramos - S. Miguel

Quatro documentos dão conta desta erupção: a relação do Padre António Fernandez Franco, vigário de Lagoa, reproduzida por António Cordeiro na sua História Insulana (cap. XXIII, § 277 e 278, pp. 237-238) e no Archivo dos Açores (vol. III: 340-341), uma curta nota incluída nas Crónicas da Província de S. João Baptista de Agostinho de Mont?Alverne (vol. II, cap. 7º, p. 333), aparentemente baseada no mesmo texto que Cordeiro, também reproduzida no Archivo dos Açores (vol. III: 342-343), uma informação redigida pelo governador de S. Miguel, Luiz Mendes de Vasconcellos (manuscrito conservado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, citado no Archivo dos Açores, IX: 422-424), e a carta de um holandês que se encontrava na ilha durante a erupção (de que um extracto se encontra reproduzido no Archivo dos Açores, XI: 570-572).

Entre 10 e 19 de Outubro de 1652 sentiram-se repetidos sismos na parte sul de S. Miguel que provocaram danos na vila de Lagoa, onde caíram sessenta casas. No intervalo dos sismos sentia-se a terra oscilar (tremor vulcânico?). A sismicidade apresentou carácter local, pois os abalos apenas foram sentidos na região entre Ponta Delgada e Lagoa. À uma e meia da manhã do dia 18 a violência dos abalos fez parar os pêndulos dos relógios. Os tremores deixaram de se sentir ao pôr do sol do sábado, 19 de Outubro, altura em que começou a erupção no Pico do Paio e no de João Ramos que lhe fica contíguo. Inicialmente apenas com emissão de fumos, o fogo apareceu por volta da uma da manhã acompanhado de estampidos e roncos. A violência da erupção levou as populações de S. Roque e de Lagoa a abandonarem as povoações. Nesta fase, a actividade apresentou carácter explosivo, com intensas emissões de cinzas, lapilli e bombas, incandescentes durante a noite. Como soprava vento forte de norte a maioria das cinzas foi arrastada para o mar, afectando uma área reduzida de terrenos agrícolas. Dezasseis dias após o início da erupção já os curiosos visitavam o lugar, tendo verificado que o Pico de João Ramos apresentava uma cratera que lançava ainda gases e fogo. Quanto ao Pico do Paio, apresentava agora dois outros picos da mesma altura que o monte original.

De acordo com estudos geo